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Ana Miranda: As escolhas

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Ana Miranda: As escolhas

00:00 · 23.09.2017

"Vovó, nós temos duas alternativas: ou você dorme comigo ou eu durmo com você". Frase maravilhosa dita por uma criança de quatro anos.

Mas a vida nem sempre é assim, tão fácil de decidir. Desde a hora em que abrimos os olhos, temos de escolher: dormir mais uns minutinhos ou levantar?

E o dia segue assim, temos de escolher a roupa que vamos usar, os sapatos adequados, o penteado mais propício, o que vamos comer no almoço, se temos tempo para dar uma olhada pela janela e ver o céu...

Se atendemos ou não ao telefone, se respondemos ou não a uma provocação, se compramos ou não algo que vemos numa vitrine, se usamos nosso dinheiro para uma viagem ou não...

Tudo em nossas vidas é feito de escolhas. Às vezes são escolhas quase automáticas, que entram em nossa rotina, como escovar os dentes e amarrar o cadarço do tênis. Mas, muitas vezes, são escolhas complicadas, como a da crença que vamos seguir, das nossas posições políticas, do nosso estilo de vida.

A nossa profissão é uma das escolhas mais difíceis. Quase sempre temos de fazer uma medida entre o nosso talento, o nosso sonho e o mercado de trabalho. Entre o dinheiro e a felicidade.

O amor parece a escolha mais natural de todas. Ele elege, parece que arbitrariamente, a pessoa que desejamos ter ao nosso lado. É aquela, e pronto! Mas a realidade costuma complicar essas escolhas de Cupido.

O processo mental de fazermos uma escolha, por mais singela, é complexo. Julgamos os méritos da questão, julgamos a nossa opinião e as opiniões que conhecemos, somos arrastados por mensagens subliminares, por sentimentos desconhecidos, por impulsos secretos.

Claro que ter alternativas é muito bom. Mas a escolha sempre, ou quase sempre, cria um sentimento de perda daquilo que não foi escolhido. Alternativas demais podem nos deixar tontos.

A escolha pode causar um sentimento de frustração, quando existe uma diferença entre aquilo que é a nossa escolha interior, mas que não conseguimos realizar, e o que é a nossa realidade. Viver é isto: ficar se equilibrando, o tempo todo, entre escolhas e consequências. Jean-Paul Sartre.

Há pessoas que acreditam que tudo tem causas anteriores e não escolhemos nada. Que todas as nossas ações são determinadas pela natureza, ou pela vontade de um Ser superior. Isso tira toda a nossa responsabilidade por uma escolha.

Mas outras acreditam que cada pessoa faz exatamente aquilo que quer fazer, mesmo influenciada por outras forças, internas ou externas. Mesmo imaginando que está sendo guiada por outras forças, a pessoa faz exatamente o que quer.

Quem sabe, a escolha seja apenas uma ilusão. Assim, tudo seria determinado pelo mundo, e nossas opções seriam comandadas por poderes que usam a comunicação para nos guiar.

Não é difícil perceber que, quanto mais opções, mais perdemos tempo escolhendo. Se o nosso armário tem quatro roupas, ou se o nosso armário tem quatrocentas roupas, isso determina o tempo que vamos usar escolhendo uma roupa. Olhai os lírios do campo!

Li a história de um homem que reduziu ao extremo os seus objetos pessoais, apenas quinze. Assim, ele pretendia passar mais tempo vivendo a vida do que fazendo escolhas.

Grande parte do sucesso da Apple, dizem, é a redução de escolhas: uma coisa mais simples que torna o uso mais fácil e até intuitivo. Gosto de fazer escolhas abrindo ao acaso um livro, e ouvindo o que tem a me dizer.

Escolher nos dá a sensação de que podemos moldar o mundo de acordo com as nossas preferências. Que você pode se cercar de um mundo que é a expressão de seu modo de ser. Mas pode ser uma armadilha.

Na palestra "O paradoxo da escolha", Barry Schwarz diz que o Google completa as suas buscas de acordo com o seu comportamento online, e mantém você num casulo como se preso numa armadilha.

Na arte, a liberdade de criação é plena, mas a realização de uma obra de arte é um processo de escolhas, decisões, limitações. Restrições estimulam a criatividade. E a severidade das escolhas na arte cria em nós, citando a expressão de Suzuki Rochi, uma mente firme e sedenta.

*Nota: o autor da frase que abre a crônica é Artur, neto da Aparecida.

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