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Ana Miranda: As árvores, os dendrólatras

Árvores

Ana Miranda: As árvores, os dendrólatras

00:00 · 31.03.2018

Quando eu saía com certo amigo, no Rio, ele parava a cada árvore, e a olhava, e conversava com ela e a rodeava com seus braços. Era bem bonito ver aquele homem abraçando uma árvore.

Ele plantou um bosque em Jacarepaguá, umas tantas mil árvores, e muitas outras na sua fazenda, todas batizadas com nomes femininos. Uma delas com o nome de Ana. Era um ipê-amarelo que hoje deve estar alto, florescendo a cada agosto.

Ele dizia que devemos aprender a ouvir as árvores, seus murmúrios ao entardecer, que as árvores têm voz, longos pensamentos, longa respiração, descanso; são vozes que nos trazem sabedoria.

Nunca tive os olhos tão claros e o sorriso em tanta loucura. Sinto-me toda igual às árvores: solitária, perfeita e pura. (Cecília Meireles.) As árvores são seres simples e calmos como um poema de Cecília.

Fui eu que pedi! Um poeta em Brasília batizou uma palmeira com meu nome. Palmeirana Anazul. E um casal plantou um ipezinho no jardim e lhe deu o meu nome, mas o ipê não resistiu, secou, e estou combinando com eles de dar o meu nome a uma casa de joão-de-barro que há anos resiste, num poste. Ou melhor, Casa do Manoel de Barros.

A Rachel de Queiroz é nome de uma planta, o antúrio-verdão, descoberta na Mata Atlântica. Acho que não existe homenagem mais bela que esta, ser nome de árvore, de planta, de orquídea, até de casa de joão-de-barro.

A Aracy, mulher do Guimarães Rosa, é nome de todo um bosque! Pequenos gestos às vezes escondem grandes motivos. Durante a Guerra ela preenchia os dados para a concessão de vistos no consulado brasileiro em Hamburgo. Era proibido conceder vistos a judeus e ela preenchia alguns sem mencionar a religião e a etnia, e os misturava entre outros vistos, assim eram concedidos.

Salvou muitas vidas. Aracy é uma heroína de guerra. Se você caminhar pelas áleas do jardim Justos Entre as Nações, em Jerusalém, nas cercanias da cidade sagrada, verá uma pedra com o nome de Aracy e o bosque.

Que bela a arquitetura de uma araucária, que majestoso o vulto de um baobá, que maravilha a simetria de uma carnaúba, que força intrínseca tem um carvalho! Que seres perfeitos, divinos, sagrados!

Um artista em São Paulo plantou um bosque no meio da cidade, uma idílica reunião de árvores com várias origens daqueles imigrantes que povoaram a metrópole, uma espécie de paz verdejante.

Ele tem paixão por árvores e há décadas as vem plantando nas ruas de seu bairro, Vila Madalena, que tem ficado mais bonito, aconchegante e valioso, rua após rua. Em torno disso existe um movimento com moradores engajados.

O amigo que abraça árvores, o plantador de árvores no seu bairro, o poeta, são dendrólatras. Dendron é árvore, em grego. A dendrolatria é um dos amores vitais para a humanidade. Todos os seres humanos deveriam ser dendrólatras.

As árvores produzem e limpam nosso ar, não permitem a erosão da terra, formam barreiras contra enxurradas, mantêm nutrientes do solo, protegem rios e mangues, alimentam os lençóis freáticos, retiram poluentes do ar, fornecem madeira desde os primórdios da humanidade dando material para a construção de abrigos, a lenha para nos aquecer, armas e utensílios. Fornecem celulose para papel, cortiça, resinas, látex para borracha, gomas, tanino, e frutos para a alimentação, nos dão frescor, beleza visual, bem-estar...

Acho que eu sou dendrólatra. Tive uma árvore, quando criança; era um frondoso flamboyant que eu plantara, e uma das minhas maiores tristezas foi ver que cortaram aquele ser maravilhoso que só fazia o bem. As árvores são poemas que a terra escreve para o céu (Khalil Gibran Khalil).

As árvores podem viver sem os seres humanos, mas nós não sobrevivemos sem as árvores. Não teremos nem mais ar para respirar. Parafraseando o poema de Nicolas Behr falando às árvores: nós é que deveríamos nos curvar em reverência, ter casca para te proteger, ser o verde da tua clorofila, respirar por ti, te dar sombra, nos plantar a teus pés, te aquecer, te embelezar, "nós é que deveríamos ser para ti a árvore da vida".

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