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Ana Miranda: Aquele abraço

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Ana Miranda: Aquele abraço

00:00 · 13.01.2018

Um abraço diz o que palavras não conseguem dizer. Mais que afeto, amor, saudade. Fala de encontros e reencontros. Os peitos se unem, coração com coração, cabeça com cabeça, face a face.

Um pequeno oásis de intimidade, um refúgio de paz, pausa num mundo tão árduo e apressado. É um gesto simples, espontâneo, mas capaz de nos deixar uma lembrança funda e permanente. Cheiro e calor. Som e cor.

A sensação para duas pessoas que se querem bem, ao se abraçarem, é de que estão protegidas, de que são amadas infinitamente, e não há tempo nem lugar, não há pressa nem solidão. No momento do abraço não há medo, não há voz, nem opinião.

É uma linguagem do corpo que nos traduz alguma verdade. Fortalece os vínculos, dá mais proximidade e não apenas física. O abraço nos aquece e consola. Tudo se torna agradável e faz sentido.

"Eu te abraço para abraçar o que me falta", disse Rubem Alves. Quando te abraço, nada mais me falta. "Em teu abraço eu abraço o que existe", poetizou Pablo Neruda, e tudo vive para que eu te viva. Abraço é confissão, é verso e prosa, "é para atravessar o nosso corpo", diz Fabrício. Abraço, encontro de dois corações.

Os corpos parece que foram desenhados para o abraço. Para o abraço foi que a natureza fez os nossos braços assim, tão compridos, do tamanho certo para dar a volta e aconchegar. Dentro do abraço é o melhor lugar do mundo. É ninho, casa de passarinho, baú, nuvem, travesseiro.

As pessoas se amam mais no abraço do que nas frases de amor, eu acho. O abraço é sonho, é brisa fresca, é perfume de jardim, espaço. O abraço é caminho entre as pedras, é flor que abre e fecha.

Abraço rima com aço e com eu te amasso, rima com um nascer do sol no terraço, lá vem chegando o mês de março, com aceitar o fracasso, rima talvez com prefácio, com amoroso laço, com a última flor do Lácio. Rima com um livro clássico.

Às vezes é a única maneira de transmitir um sentimento quando a emoção nos cala, as palavras nos fogem, mas os braços estão aqui e tomam vida própria e ardem cheios de calor humano.

Para um abraço se realizar ele precisa durar vinte segundos pelo menos, até surgir a sensação de bem-estar. Alguns médicos o indicam como terapia.

O abraço terapêutico precisa ser entre pessoas que se querem bem, que confiam umas nas outras. Libera os hormônios do amor, produz as endorfinas de prazer. Pode aliviar dores mentais, físicas, desbloquear uma pessoa emocionalmente. Melhora casamentos, amizades, comportamentos.

Controla o fluxo de sangue, o ritmo dos batimentos. Aumenta o oxigênio no sangue, trazendo benefícios até ao coração. Os corpúsculos da pele ativados por um abraço enviam sinais pelos nervos e vão nos acalmando, baixando a nossa pressão.

Melhora o sistema nervoso, como se fosse um calmante, quebra o estresse, a ansiedade se vai, emoções se amainam. Dizem que o abraço aumenta os anticorpos. Serve contra invejas, ciúmes, maus-olhados, pragas, cobranças indevidas, raivas.

Existem cerimônias de abraços. Uma sessão branca, com sete candelabros acesos, cravos vermelhos e alvos. O giro tântrico é um abraço em que o terapeuta alinha os seus chacras com o do paciente e, com o coração, emite energia de cura. Na África, quando alguém é curado de ebola os médicos o abraçam, para afastar o estigma.

Uma criança que abraça o seu bicho de pelúcia fica mais calma. Um estudo confirmou que crianças que não são abraçadas têm o cérebro menor do que as crianças abraçadas com amor.

Para melhorar sua autoestima, você precisa de pelo menos quatro abraços por dia. Um longo abraço uma vez por semana talvez substitua. Tato, essência.

É bom abraçar para dançar. O abraço da dança é mágico, romântico. Os passos são mais firmes, os olhos veem mais, a música cintila. Mas, tome cuidado com o abraço falso, ele existe; o abraço transmite o dentro.

O mar abraça a ilha. O cinto abraça a soltura. Há braços que são melhores para o abraço. Não os mais fortes ou mais longos, embora esses sejam os melhores braços para o abraço. Mas o melhor abraço vem dos braços de quem mais

Amamos.

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