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Ana Miranda: adeus, Luzia

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Ana Miranda: adeus, Luzia

00:00 · 08.09.2018

Lembro quando Luzia apareceu, a brasileira mais antiga, uma mulher de uns vinte e poucos anos, os olhos fundos, lábios grossos, a pele negra avermelhada, o nariz largo, parecida com os índios botocudos, com os aborígenes australianos e com os africanos negros.

Eu tinha um imenso afeto por Luzia. Nunca a vi de perto, mas um amigo a viu e disse que ela era indescritivelmente magnética, impossível retirar os olhos de seu rosto milenar, com a força de alguém que conseguiu resistir a tanto tempo.

Luzia tinha uns doze mil anos de idade. Morava em Lagoa Santa, Minas Gerais, ou pelo menos estava ali de passagem, quando a encontraram junto com outros de sua tribo. Ela foi uma das primeiras habitantes do Brasil.

Talvez seus antepassados tenham vindo da Ásia caminhando numa corrente migratória de caçadores-coletores, passaram através da Beríngia, um istmo que se formou com a queda do nível dos mares durante a última idade do gelo, e se dispersaram pelo continente, encontrando destinos variados.

Sua paisagem era de árvores, arbustos, campos, e uma mistura de terra e água com matéria orgânica apodrecida, as turfeiras; havia árvores como as candeias, que ainda hoje vemos no Cerrado, e a camarinha que nasce nos brejos e dá uma frutinha doce. Ervas, algas, plantas aquáticas, e coníferas, pois o mundo de Luzia começava a esquentar.

Ela se alimentava de folhas, frutas, raízes e, algumas vezes, de carne, peixe e carne charqueada para conservação. Musculosa, de acordo com o tamanho de seus ossos longos tinha mais ou menos um metro e meio de altura.

Quem lhe deu nome foi o biólogo Walter Alves Neves, inspirado em outra mulher fóssil, Lucy, que tem uns três milhões de anos e foi achada na Etiópia, um pouco antes de Luzia.

Encontrada numa gruta em 1974, Luzia estava em pedaços separados, mas logo perceberam que se tratavam de ossos de um mesmo esqueleto. Essa gruta era famosa nos meios da arqueologia. Ali o cientista Peter Lund, no século 19, encontrara milhares de fósseis de animais extintos do Pleistoceno, assim como crâneos humanos fósseis. A descoberta de Luzia reacendeu perguntas sobre a origem do ser humano americano e mudou as teorias sobre o povoamento das Américas.

Luzia tinha inteligência tecnológica, social, abstrata. Era capaz de compreender e aceitar um mundo menos simplista, e formava um sentido religioso. O mundo social em seu torno se organizava, com o surgimento de novas ferramentas especializadas. Seu povo desenvolvia a atividade de comércio e novas expressões. Luzia decerto sabia amar, odiar, chorar e sorrir.

Falava uma língua pobre, em que o tom da voz dava o sentido; emitia interjeições e formava sons aglutinados. De seu tempo vieram uns: tik, que significa tanto o dedo como o numeral um; pice, que é piolho; e digt, dedo.

Talvez os homens caçassem em bandos, já havia grandes animais que eles matavam a flechadas, com lanças, arpões, ou em armadilhas. Fabricavam as pontas das armas com ossos. Também de ossos faziam facas, alfinetes, anzóis, arpões, e lançadores de dardos. Talvez flautas, e havia a música, talvez Luzia dançasse. Talvez já montasse cavalos selvagens.

Mesmo nômade, Luzia tinha arquitetura, e algo de residência. A arte. Talvez ela fizesse desenhos coloridos nas paredes das cavernas usando pedaços minerais, e trabalhos artísticos com chifres de veados, e estatuetas, quase todas em forma de uma deusa-mãe. Luzia adornava o corpo. Talvez costurasse com agulhas de osso roupas mais resistentes que protegiam as pessoas. As tribos então começaram a ter mais gente, e dizimavam outras tribos.

Talvez Luzia soubesse interpretar um calendário lunar para controle do movimento dos animais, nas estações. Tinha medo do escuro. Acreditava em amuletos. Participava de rituais de caça, nascimento e morte. Olhava as estrelas.

O que aconteceu com Luzia e seu povo é um mistério. Provavelmente não haverá uma explicação única. Ela era o nosso maior tesouro arqueológico. Agora se foi, incendiada, e nada mais poderemos saber de sua existência.

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