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Ana Miranda: A fábula

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Ana Miranda: A fábula

00:00 · 18.03.2017

Mais valem a calma e a prudência do que a fúria desenfreada. Não se deve contar hoje com os lucros de amanhã. É fácil desdenhar daquilo que não se alcança. Quem tudo quer, tudo perde.

São lições de moral, enunciadas no final de uma fábula. Fabula quer dizer, em latim, história, jogo ou narrativa. As primeiras fábulas foram imaginadas por babilônios e assírios. Uns 1.500 anos a. C. Os sumérios fizeram umas histórias parecidas, uma espécie de provérbios que incluíam animais humanizados e uma lição de moral.

Mas as fábulas ocidentais foram criadas por um escravo grego, Esopo. No século VI a. C. Esopo contava as suas fábulas oralmente, por isso não sabemos exatamente quais, nem como eram. Estas fábulas com personagens animais que agem como pessoas, se vestem como pessoas, falam como pessoas, tinham um interesse educativo. Também eram para divertimento. E literatura popular. Mas não apenas isso.

Com a liberdade de expressão limitada, na Grécia, costumava-se usar histórias para criticar as formas de governo, sem o perigo de represálias. Histórias populares, sem autor revelado, passando de boca em boca, riso em riso. Nas fábulas, os mais fracos se defendem dos mais fortes, de uma forma enviesada, sem muita clareza, usando quase sempre da astúcia. Nas fábulas atribuídas a Esopo há muitas mensagens em que os mais fortes são ludibriados pelos mais fracos.

Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Quem a todos quer ouvir, por ninguém é ouvido. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. O amor constrói, a violência arruína. O Leão Apaixonado: Quem perde a cabeça por amor, sempre acaba mal.

Xenofonte, na sua obra "Memoráveis", de cerca de 371 a. C., mostra Sócrates aconselhando um sujeito a contar para seus parentes ingratos a Fábula do Cachorro e da Ovelha. Era um modo de comunicar uma lição de ética.

As fábulas sempre foram muito populares; em toda a Antiguidade, Idade Média, Renascimento, havia coleções dessas histórias. Algumas eram usadas pelos sábios como base de livros de retórica, ou em obras literárias. Com o tempo, foram entrando na literatura de humor e na literatura infantil.

Quando criança me diziam, Esta menina tem o dom da fabulação, e eu achava que era o dom de falar com um animal. Vejam só! Fábula, para mim, era falar com os bichos. Eu tinha um belo livro ilustrado, na minha infância: Fábulas de Esopo. Ainda me lembro da capa, das ilustrações e das fábulas.

As fábulas de Esopo foram anotadas por escrito apenas séculos depois. No século 19, La Fontaine reescreveu essas fábulas. São as que mais conhecemos, nos dias de hoje.

Quem nunca ouviu a Fábula da Raposa e as Uvas? E a da Cigarra e as Formigas, que despreza, de certa forma, a expressão da arte musical? O leão e o ratinho. O jabuti e o coelho. A história da festa no céu é fabulosa! O jaboti entra na viola do urubu para ir a uma festa no céu. Uso-a sempre para comentar sobre pessoas que se aproveitam do sucesso alheio para "ir ao céu".

A literatura se apossou da fábula, que se tornou um pequeno gênero da prosa. George Orwell fez uma tremenda crítica subliminar ao stalinismo em A Revolução dos Bichos, de 1945. Os belos livros de Saramago, de sua última safra, são fábulas modernas. Sem animais antropomorfizados, sem moral da história. Mas o tom é de algo que nos ensina um comportamento moral, em uma atmosfera levemente mística, com significados alegóricos.

Monteiro Lobato escreveu fábulas para crianças. Ele gostava de criticar os poderes públicos, a burocracia, a máquina de estado, e de afrontar a Igreja católica. As Duas Cachorras, A Rã e o Touro, A Coruja e a Águia, A Gralha enfeitada com penas de Pavão, O Cavalo e o Burro, O Macaco e o Coelho: quase sempre são dois animais.

Pelos vídeos incríveis que costumo receber na internet, com gatos tocando piano, cães tocando tambor, macacos armando redes de dormir, pássaros tomando banho nas mãos de uma pessoa, ou gaivotas fazendo amizade com marinheiros, o tempo das fábulas vai retornar, e os animais vão voltar a falar..

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