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Ana Miranda: A cadeira

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Ana Miranda: A cadeira

00:00 · 05.05.2018

Uma brincadeira gostosa, mas cruel, competitiva. Faz-se uma roda de cadeiras e uma roda de pessoas, sendo uma pessoa a mais do que cadeiras. As pessoas giram em torno das cadeiras, ao som de uma música qualquer.

A música subitamente para, todos devem sentar-se, mas uma das pessoas fica sem cadeira. Ela é eliminada, tira-se uma cadeira, e assim por diante, até ficarem duas pessoas e uma só cadeira; o vencedor será uma delas.

Cadeira é um móvel lindo, útil, tão cheio de símbolos, antigo! Imagino a primeira cadeira, simples pedra côncava; uma mulher da caverna sentou-se ali, sentiu-se confortável, entendeu que era uma cadeira. Digo mulher da caverna porque acho que todas as coisas inventadas para fixar as pessoas num lugar, como a fogueira, a panela, a agricultura, foram inventadas por mulheres. Os homens, imagino, inventaram a flecha, a roda, as botas...

Antes dos portugueses, os brasileiros sentavam em esteiras, redes ou em bancos em forma de animais, como macaco, ou anta, ou tamanduá. Os bancos zoomórficos têm poderes mágicos. Os desenhos de sua superfície são muitas vezes os mesmos dos rituais, e representam a cosmologia de cada tribo. Há alguns bancos indígenas tão belos que se equiparam a esculturas de Picasso.

Dizem que as melhores cadeiras do mundo são as tradicionais Thonet, com madeiras recurvadas e palhinha no assento. São mesmo leves. E a pior cadeira do mundo? Deve ser a elétrica, para a pena de morte.

Minha cadeira é uma de minhas melhores amigas, fico sentada nela e ela me suporta quase dia e noite, em silêncio, escrevendo. Mas cadeira não é só solidão. Em torno de uma mesa, diante de um altar, uma tela, um palco, sentadas em cadeiras, pessoas se entregam a uma comunhão de comida, arte, pensamento. Cadeira une.

Cadeira separa. A cadeira de rodas é uma das invenções mais humanas, mais belas, com mais emoção. Hoje é tão moderna que se estende para que o cadeirante fique em pé, cara a cara com as pessoas.

É o móvel predileto dos designers, todos têm uma proposta. Mas acho que poucos fizeram uma cadeira tão inovadora como a Wassily, de Marcel Brewer, que parece uma bicicleta. Se eu fosse desenhar uma cadeira, seria em forma de pássaro. Cadeira Voadora.

As cadeiras que mais inspiram poemas são as de balanço. Deve ser porque você se move, se move, e não sai do lugar, isso tem uma simbologia. "A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha" (Quintana).

Antigamente as moças viviam com medo de tomar chá de cadeira. Significava ficar num baile sem nenhum convite para dançar. O chá de cadeira era amigo das faces ruborizadas e dos suspiros, cousas de antanho.

Usada em toda casa sertaneja, a rede é cadeira. As pessoas sentam também em tamboretes, bancos rudes. Cadeiras, quando há, ficam na sala, esperando visitas. As cadeiras do mestre Espedito são obras de arte, feitas mais para olhar.

A cadeira é hoje fundamental, numa sociedade que passa o tempo na frente de um computador. Cada vez é mais ajustável, ergonômica, confortável, mais pensada para a boa postura física.

O problema da cadeira é que ela não pode ser somada a duas maçãs, como diz Clarice: "Não me posso resumir, porque não se pode somar uma cadeira e 2 maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo".

Um professor de filosofia entra em classe, põe uma cadeira em cima da mesa e escreve no quadro: "Provem que esta cadeira não existe." Os alunos se põem a dissertar sobre a questão. Um deles, entretanto, escreve apenas duas palavras e entrega a página ao professor, que, quando as lê, não pode deixar de sorrir: "Qual cadeira?"

"Amanhã uma socialite com nome de tambor resolve se candidatar a uma cadeira!" disse a maravilhosa Lygia Fagundes Telles. As cadeiras hoje são mais disputadas, especialmente as da Academia. Inversão de valores, sempre comentada por Lygia.

Cadeira é festa de cearense; um dos costumes mais gregários é o de ao entardecer botar cadeiras na calçada, todos sentam ali e conversam, os da família, os vizinhos, os passantes. Pena que está se acabando.

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