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Ana Miranda: a arte de Arquíloco

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Ana Miranda: a arte de Arquíloco

00:00 · 14.04.2018

"Parafraseando Arquíloco de Paros", escreveu um amigo, na dedicatória de um livro para mim, "que disse, Eu tenho uma grande arte, eu firo duramente aqueles que me ferem; eu tenho uma grande arte:" escreve o meu amigo: "eu amo aqueles que me amam."

Foi uma das melhores lições que tive na vida. Amar a quem nos ama, caminho direto para a plenitude da vida e a paz interior. Amar quem não nos ama, só para quem deseja viver infeliz. E há pessoas que apreciam a infelicidade, até precisam da infelicidade. Poetas do romantismo, por exemplo.

A felicidade serve apenas para tornar a infelicidade suportável, dizia Proust, que compreendia como poucos a infelicidade. A infelicidade serve para adiar a vida. Mas alguém pode, afinal, encontrar na infelicidade um sentido para a sua existência.

Poeminha bem-humorado de um poeta em Brasília: Ninguém me ama, Ninguém me quer, Ninguém me chama, Nicolas Behr. E dizia o Woody Allen, também com ironia, que só existe um tipo de amor que dura para sempre: o amor não correspondido.

E o Charlie Brown: Nada como um amor não correspondido para tirar todo o sabor do sanduíche de manteiga de amendoim. Mas o Pablo Neruda dizia que amor é feito espelho, tem que ter reflexo. Ou não é amor, e sim, vontade de fugir de alguma realidade, e sofrer.

Conheço uma moça que só se apaixona por rapazes que a desprezam. Uma rejeição é suficiente para mover seus tanques químicos de arrebatamento, acordar seus desejos, despertar fantasias. E muitas pessoas são assim. Parece que é simplesmente medo de amar.

Amar a quem não nos ama é uma ótima solução para quem tem medo de amar. Dizem que existem dez motivos para uma pessoa ter medo de amar: 1. Medo da dor. Se alguém ama, está vulnerável. 2. Medo de ser vista, a pessoa que ama vai ser olhada pela pessoa que a ama e os pensamentos ruins acerca de si mesma começam a aparecer, O que ela vai achar de mim?

3. Medo de não ser correspondida, ou não na mesma medida, porque todos sabemos que o amor nunca é proporcional, sempre uma pessoa ama mais do que outra, ou menos. 4. Temor do fim da paixão, o primeiro impulso do amor é a paixão, mas a paixão é fogo de palha e a pessoa fica diante de um problema: o trabalho de construir um amor.

5. Medo de amadurecer, porque o amor é um trabalho cotidiano, que exige muita compreensão, lucidez, maturidade até para sabermos perdoar. 6. Medo de perder a liberdade, pois o amor pode nos aprisionar.

7. Medo existencial, o amor desperta nas pessoas sensibilidades imensas, até mesmo a consciência, o medo de perder, até mesmo o medo de perder o sentimento de amor. 8. Medo de qualquer mudança. 9. Medo de acabar seu protagonismo, porque a pessoa que ama tem metade de sua alma transferida para a pessoa amada, e porque vai ter de dividir tudo. 10. Medo da felicidade.

Arquíloco foi um poeta lírico, alguns o põem no mesmo altar de Homero, mas eu não sei, não. Escreveu iambos, foi o primeiro grande cultor do metro iâmbico, escreveu epigramas, uns iambos satíricos bastante ferinos. E canções muito sensuais. Sua poesia era bastante popular, os rapsodos a cantavam em liras, de cidade em cidade.

Diz a lenda que ele escreveu o epigrama da grande arte porque foi rejeitado por uma moça, Neoboule, e por seu pai; e Arquíloco vingou-se a tal ponto com suas sátiras que os dois, moça e pai, acabaram se matando. Mas pode ser, apenas, um poema de guerra, Arquíloco foi soldado mercenário. Ganhava dinheiro guerreando.

Algumas pessoas desamadas se tornam vingativas. A vingança é uma arma dos fracos, dizem uns. O melhor modo de se vingar de um inimigo é ser diferente dele, dizem outros. E Nietzsche: "Toma cuidado com os que se mostram pequenos. Em tua presença se sentem pequenos e sua baixeza arde e alimenta invisível vingança contra ti".

Mas os poetas tudo viram do avesso: "O sossego interior, se queres atingi-lo, / Não deixes coisa alguma incompleta ou adiada. / Não há nada que dê um sono mais tranquilo / Que uma vingança bem executada..." (Mário Quintana!)

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