Entrevista

Alice Wegmann: madura e atenta

Definida pelos autores como "um coração em movimento", a protagonista de "Onde Nascem os Fortes", Maria, também tem movimentado a vida de sua intérprete, Alice Wegmann

00:00 · 14.04.2018 por Gabriela Dourado - Editora assistente
Alice Wegmann
Alice Wegmann viverá Maria, a protagonista da supersérie que estreia dia 23 de abril, na Globo. "A Maria é uma personagem que demorou para existir", reflete

Como a Maria entrou na sua vida?

O Zé (José Villamarim, diretor) me ligou e perguntou como estava minha vida. Eu disse que estava terminando a faculdade, faltava um mês pra acabar, que ia fazer um filme e uma novela. Ele me perguntou: 'você quer vir pra cá, para viver nossa protagonista?' e me contou a história. Eu falei que largava tudo na hora e ia. E eu fui. Mas eu acho que ela tem uma força, uma potência que é muito diferente de tudo que eu já vivi. Então essa personagem em si já é um acontecimento, já traz um ineditismo. E eu acho que é muito mais pela personagem, pela história que ela conta do que por mim. Acho que a expectativa é de uma mulher na frente disso, enfrentando o machismo, enfrentando o assédio e peitando tudo isso. É muito mais em cima disso do que em cima da Alice.

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Você mudou seu jeito com a energia da Maria, inclusive o seu jeito de vestir?

Claro. A Maria me trouxe mais coragem. Mais coragem de ser quem eu sou e de assumir isso, de não ter medo. E isso faz muita parte do feminino, de estar se assumindo agora, ganhando uma força que a gente sabia que tinha mas deixava de lado. Acho que a Maria dialoga muito com isso. É uma menina que faz acontecer.

Você já parou para pensar na sua carreira pós-Maria?

Eu fico apavorada. Eu até escrevi um texto sobre isso no meu Instagram falando justamente o quão difícil é, às vezes, você se ver em um lugar novo como esse. É difícil enfrentar isso. Nesse Carnaval eu tive uma folga e fui viver o Carnaval na Bahia. E no meio da pipoca de Salvador eu olhei pra cima e pedi a Deus para estar naquele mesmo lugar no ano seguinte, suada do jeito que eu estava, no meio da galera. Eu não quero abrir mão disso, da minha essência, de quem eu sou só porque eu vou ter mais visibilidade. Claro que a Maria me muda de alguma forma, mas é importante que me mude pra melhor e não para um deslumbre.

Como a vivência no Sertão te afetou?

A gente já está há mais de 4 meses aqui. Nesse tempo o que eu mais percebi foi esse encantamento que se tem pela vida que a gente não pode perder. E são tantos detalhes... Hoje eu tava me concentrando pra cena que era uma cena muito emocionante. E eu estava tentando não chorar, porque já era muito doído pra mim estar ali naquela cena. E aí eu comecei a ver uma borboleta amarela, circulando um cacto e percebi que até aquela borboleta te emociona. Você acha graça nas pequenas coisas. A Maria me trouxe essa questão de largar o celular um pouco e ir ver o mundo. Olha que lindo que é sentir o vento bater, ouvir o silêncio, prestar atenção no outro?

Seus textos no Instagram têm dado o que falar.

Sim, é verdade. Eu gosto muito das palavras, a gente que é artista tem que ter uma empatia, uma simpatia pelas palavras. Eu nasci com isso, sempre gostei de escrever. Desde os meus 15 anos eu fazia uns textos no Tumblr. E comecei a perceber que isso tocava muito as pessoas. Hoje em dia as pessoas me param na festa pra falar sobre meus textos. Nunca imaginei que eu fosse conquistar alguém pelo "textão" no Instagram. É muito louco. E acho que, no meu lugar, com voz, é muito importante saber usar a favor das coisas que eu luto, que são as mulheres. Eu achei meu propósito. Fora da arte, como a cidadã que eu sou, acho que é importante eu me posicionar também.

Como o feminismo entrou na sua vida?

Acho que foi naquela campanha #MeuPrimeiroAssédio que foi um boom nas redes sociais e isso já me despertou muito. E eu me percebi feminista logo ali. Percebi que eu sempre pensava aquelas coisas mas não podia falar porque era julgada. E agora tem mais gente comigo. Eu fui me interando cada vez mais nos assuntos, estudando cada vez mais, eu estou tendo aula sobre feminismo. Eu acho que é o nosso momento. E a Maria significa muito isso.

Acredita então que Maria talvez não existisse em um outro momento?

Eu acho que a Maria demorou a existir. E que bom que temos George e Sergio pra contar a história dessa menina e toda a equipe para colocar a história dessa menina no ar. A gente acredita muito nessa história. Quando eu li no avião, fui descobrindo o que ela ia fazer e no capítulo cinco ela mata um cara. Eu olhei e pensei: "como que uma menina de 24 anos faz tudo isso?". Mas é claro que faz! Porque a gente se pergunta antes porque não está acostumada a ver na televisão, não tinha personagens assim e agora tem.

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