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Vivências artísticas para cuidar da mente

A evolução dos pacientes com esquizofrenia, a partir do contato com as artes, é visível logo nas primeiras experiências

O psiquiatra Fábio Gomes de Matos e a psicóloga Laura Serafim apresentam a primeira exposição na qual os protagonistas são os pacientes em tratamento. A mostra fica em cartaz até o dia 8 de fevereiro na Casa José de Alencar ( Foto: Reinaldo Jorge )
00:00 · 20.01.2018

Com a introdução das artes no tratamento é possível perceber inúmeros sentimentos que, na maioria das vezes, permaneciam camuflados. "Este paciente, por exemplo, começa de forma lúgubre, mas na sequência seus quadros vão clareando e trazendo mais cores", observa o médico psiquiatra do (HUWC), Fábio Gomes de Matos.

> Esquizofrenia sem estigmas

O mais importante desta iniciativa, segundo o profissional, é trabalhar a questão do estigma da esquizofrenia. "Ainda hoje, se uma filha informar à família que está namorando um jovem com diabetes, todos aceitam e se sensibilizam em fazer um recepção mais 'light'. Mas se o pretendente for esquizofrênico, todos o irão rejeitar. Entretanto, se formos avaliar, a diabetes é uma doença muito mais grave do que as pessoas pensam", esclarece.

Outro ponto destacado pelo médico é que a esquizofrenia só precisa de tratamento específico e de acompanhamento especializado. Quando isto acontece, as respostas são muito positivas. Segundo ele, indivíduos com transtornos mentais não podem ser vistos como riscos à sociedade. "Quem são os responsáveis pelos mais de 5 mil homicídios registrados no Ceará em 2017? Não são os esquizofrênicos", pondera o psiquiatra diante da violência.

No projeto Artes em Esquizofrenia do (HUWC), os pacientes também são estimulados à prática do teatro, da música e da poesia, acrescenta a psicóloga Laura Serafim. "Nestas dinâmicas terapêuticas, eles aprendem a valorizar as experiências individuais e coletivas de maneira lúdica, prazerosa e colaborativa. A evolução deles com o uso das artes é incrível. Eles se transformam mesmo", compara a psicóloga.

Opinião do especialista

Acesso ao trabalho e à inclusão social

Fábio Gomes de Matos - Psiquiatra e professor da UFC

Oestigma e a discriminação associados ao transtorno mental podem ser superados pelo entendimento que somos todos diferentes, e é exatamente isso que nos torna humanos. A arte é um veículo de expressão da nossa natureza humana. Entretanto, só seremos merecedores das gerações futuras se tomarmos, agora, atitudes que protegem os mais vulneráveis e frágeis. É com esse intuito que o Janeiro Branco foi instituído.

O objetivo fundamental de qualquer sociedade é dar oportunidade a TODOS, incluindo aqueles sujeitos que necessitam de uma assistência psiquiátrica competente e qualificada. Não é razoável que os transtornos mentais sejam responsáveis por 31% de todas as incapacidades causadas pelas doenças e, entretanto, só recebam 5% do orçamento da saúde.

É inconcebível que não sejam privilegiados aspectos preventivos da saúde mental. Existem grupos de risco claramente definidos, como por exemplo, filhos de pacientes com transtorno mental grave (esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão grave, dependência a álcool e drogas entre outros) são mais vulneráveis a desenvolverem transtornos mentais. Mas qual o programa que os assiste? Nenhum!

Sabemos também que o uso de maconha por adolescentes e adultos jovens, quando o cérebro ainda está em formação, provoca esquizofrenia em 10% dos usuários. Qual a campanha sistemática existe para orientar sobre os riscos de tal uso? De novo, a resposta é: nenhuma. Essas medidas são denominadas de prevenção primária. Não acredito que nossa atuação deva se resumir ao tratamento terapêutico apenas nos casos já diagnosticados. Temos um papel importante a ser desenvolvido na prevenção.

Entretanto, naqueles pacientes que já tiveram vários episódios, podemos também atuar. Isso é o que nós chamamos de prevenção terciária. Este tipo de prevenção foca em resgatar as funções cognitivas, familiares, sociais e de trabalho. E a arte é um veículo que pode e deve ser utilizado.

A partir desta exposição, o nosso próximo objetivo é convidar toda a sociedade para elaborarmos uma legislação que proteja e inclua, por meio do mercado de trabalho, aqueles portadores de transtornos mentais graves, tal qual existe para os portadores de alguma deficiência física.

Somente assim poderemos ter uma sociedade mais justa, sem estigmas e sem discriminação.

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