SAÚDE

Taxação do açúcar

É fato a necessidade de reduzir o consumo desse carboidrato para combater a obesidade. Mas é preciso modificar hábitos, o que não se dá com imediatismo

00:00 · 16.09.2017 por Giovanna Sampaio - Editora

Não existe aniversário sem bolo nem tampouco almoço de família sem sobremesa. Partindo do princípio de que alimentos com açúcar aguçam as emoções e que esse é um hábito a ser modificado pelo bem da saúde, a possibilidade de o governo assinar com a indústria um plano para reduzir a quantidade de açúcar em alimentos processados vem sendo avaliada. Isso porque uma medida como essa (taxação) não se mostrou eficaz em diminuir os índices de obesidade e sobrepeso em países que a implementaram.

"As experiências mostram que as pessoas procuram produtos mais baratos do que os que consumiam. Primeiro, o consumo reduz e depois volta ao padrão anterior. Dessa forma, o melhor caminho é o da informação. É preciso entender como levar um estilo de vida saudável, que seja benéfico à própria saúde", diz o preparador físico Márcio Atalla, que tem pós-graduação em Nutrição pela Universidade de São Paulo (USP).

> Hábitos são mudados a médio e longo prazos

"As pessoas não comem por decreto. São alimentos emocionais, de indulgência. Esse consumo não é afetado por taxações ou leis. Pode haver um decréscimo inicial, mas depois o consumo volta aos níveis habituais", explica a nutricionista Márcia Daskal, criadora do projeto "Nutrição Amorosa", que busca resgatar a relação com a comida, apostando em propostas que vão além de contar calorias.

Realidade X teoria

Segundo Dr. Daniel Magnoni, nutrólogo e cardiologista do Instituto Dante Pazzanese, o aumento do preço dos alimentos com açúcar (por meio de taxas e impostos) não influi diretamente na redução do consumo.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o aumento de 20% no preço do açúcar já reduz o consumo dos produtos que levam maior quantidade do ingrediente. Mas a realidade não reflete a teoria. Reino Unido, Hungria e México adotaram essas medidas e alguns resultados mostram o contrário. No México, por exemplo, houve uma redução inicial no consumo de bebidas açucaradas, mas em menos de um ano a população voltou a consumi-las normalmente, cita Márcio Atalla.

Efeito sanfona

No Brasil, mais de 50% estão acima do peso, enquanto cerca de 20% atingiram a marca da obesidade. O último Vigitel, pesquisa do Ministério da Saúde, mostrou que, apesar de os brasileiros estarem consumindo mais frutas, hortaliças e legumes, os índices de obesidade e diabetes continuam em plena ascensão.

"O aumento de peso está relacionado aos hábitos da vida moderna (má alimentação e sedentarismo) e não a um ingrediente específico. O problema é profundo, e as autoridades e profissionais de saúde devem entender que ações de educação não acontecem da noite para o dia", argumenta Dr. Daniel Magnoni.

O comportamento padrão do brasileiro (em não dar continuidade a tratamentos, inclusive o medicamentoso) tem que ser levado em conta. Márcia Daskal chama atenção para os diabéticos e hipertensos, que devem restringir determinados alimentos, e não o fazem quando a restrição é de médio e longo prazo. "Ninguém gosta de que outros decidam o que você deve comer".

A questão com o açúcar é bem mais complexa, uma vez que os estudos que mostram algum problema decorrente do consumo sempre se referem ao excesso. "Não se separa o que é açúcar de cana dos outros tipos consumidos (das frutas, xarope de milho com alto teor de frutose, glicose e outros produtos aos quais a indústria alimentícia tem acesso", complementa Daskal.

Comportamento

Ação educacional é mais efetiva

"Não é viável achar que sobretaxar ou reduzir o açúcar terá impactos no longo prazo. Se o problema fosse esse, a obesidade já teria sido solucionada. São medidas insuficientes"

Márcio Atalla

Professor de Educação Física

"As pessoas não comem por decreto. Alimentos com açúcar são emocionais, consumo que não é afetado por taxações ou leis. Pode haver um decréscimo, mas volta aos níveis habituais"

Márcia Daskal

Especialista em Nutrição e Dietética

"A taxação não se mostrou eficaz em médio prazo nos países que a implementaram. Há uma adaptação de mercado e as ações educacionais são mais efetivas que o aumento do preço" 

Dr. Daniel Magnoni

Nutrólogo e cardiologista do HCor

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