afetos

Sob o signo de mudanças e reflexão

Os transtornos de angústia são cada vez mais frequentes e, não raramente, são mal diagnosticados

00:00 · 30.12.2017

A tirania da felicidade causa muito mais desordem do que harmonia. "A felicidade é um estado de espírito que decorre do repouso, equilíbrio e serenidade", pontua Ana Cassia Fruet, psicanalista de casal e família e professora da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza.

Nesse contexto, ela lembra que o estar junto não significa ter intimidade. "Algumas pessoas são mais bem resolvidas e conseguem escapar do mandato publicitário: seja feliz no natal. O que cada um necessita para ser feliz? Comer peru? Comprar presentes? Reunir-se com a família? Nem sempre".

Incertezas

Quando inicia um novo ano somos convocados a pensar no amanhã. A maioria dos brasileiros viveu um 2017 difícil, de perdas (econômicas) e duras reflexões.

> Ano Novo: Promessas possíveis

"Vivemos um tempo de incertezas, numa sociedade que era sólida, se tornou líquida e, hoje é cada dia mais gasosa. Evaporaram os conceitos, os valores e as certezas", explica a autora de livros como "Longeviver - o inconsciente no declínio da vida".

Estados afetivos

Vivemos mais sob a pressão da angústia do que da tristeza. Enquanto a primeira remete ao momento presente, a segunda é um afeto que se vincula à história (ao passado).

"São angústias que, muitas vezes, não têm nome. São estados em que o sujeito percebe ameaçada sua sobrevivência. A pessoa com medo pode enxergar 'perigo' no lugar de 'oportunidade' e passa a evitar o contato, riscos (sair de casa) e sentimentos dolorosos (rejeição)", conclui.

Vida real

Sozinho no meio da multidão?

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Luiza Braga - Psicóloga. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC /SP

Quem nunca se sentiu assim? Cercados de pessoas, colegas, amigos, familiares, mas a sensação de solidão permanece. Primeiro, vamos separar solitude de solidão.

A primeira é um estado de isolamento que não precisa trazer sofrimento. É quando você está sozinho(a) porque quer e está confortável dessa forma. É um sentimento que confunde quem olha de fora, gerando uma sensação entre as pessoas de que aquele ser que está sozinho não está bem, está sofrendo, mas a realidade é outra, é de paz. Isso acontece porque o estado de solitude diverge do estado de solidão. Entende-se por solitude o pleno contado consigo mesmo. Isso quer dizer que não há a necessidade de estar sempre em companhia de outras pessoas e não há solidão por isso. Esta pessoa está bem com ela em tempo integral, mas convive muito bem com os outros. Veja que há um contato direto consigo mesmo, podendo passar vários dias em um lugar sozinho e se sentindo pleno; mas há também uma plenitude ao estar com alguém.

Já a solidão não depende necessariamente do número de amigos ou conhecidos que possuímos em nossas vidas. Pelo contrário, ela depende muito mais da qualidade subjetiva de nossos relacionamentos e do fato de nos sentirmos emocional ou socialmente (des)conectados das pessoas ao nosso redor. Isto explica o porquê de uma pessoa popularmente conhecida e possuinte de uma infinidade de contatos ser capaz de, ainda assim, sentir-se solitária. E é aí que está o problema. Muitas pessoas que se sentem solitárias não ficam bem consigo mesmas, precisam sempre de uma companhia para se sentirem bem, sempre há uma angústia quando ficam sozinhas.

É muito comum, atualmente, vermos nas redes sociais pessoas com fotos alegres, cercadas de amigos em festas, encontros, vivendo uma vida perfeita. Às vezes é o reflexo de uma vida solitária. Mas, a pergunta que devemos fazer é: será que as redes sociais traduzem exatamente a vida real de cada um? Isso pode gerar angústia e depressão em algumas pessoas, pois acreditam no que veem na vida virtual e se sentem solitárias por sua vida real não ser assim.

Esse sentimento de solidão pode se acentuar no fim do ano, devido as pessoas ficarem mais vulneráveis à melancolia, à tristeza, pois pensam nos planos que não realizaram, no que podia ter sido e não foi, por acreditarem que no Natal e Ano Novo precisam estar com familiares e amigos, o que não é verdade. Como vimos, quando a solitude está desenvolvida, nos sentimos bem com nós mesmos, sem sermos individualistas ou precisar necessariamente do outro para termos uma vida plena.

Há ainda a solidão que pode gerar uma depressão, pessoas que não conseguem de forma alguma sentir-se bem sozinhas. Nesses casos é indicado que procurem um bom psicólogo ou psiquiatra para que as causas dessa depressão sejam investigadas e não evoluam. É importante que a solitude seja desenvolvida, buscando o prazer de estar consigo mesmo.

Quando a solidão se agrava, se torna perigosa. Assim, além de buscar ajuda profissional, a pessoa pode buscar formas de não se deixar afundar pela solidão, como reservar um tempo para refletir sobre seu processo de solidão; tentar celebrar momentos com pessoas que confia; deixar expectativas de lado e ser quem você realmente é, assim como fazer planos realistas, entre outros.

Mas é sempre bom lembrar que, quando a pessoa sentir que algo está muito errado e se sentir muito mal sobre sua solidão, a ajuda de um profissional da saúde mental é essencial.

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