Síndrome do ninho vazio

A saída dos filhos de casa ganha contornos mais sensíveis, pois atinge os pais na 'crise de meia idade'. A sensação de perda é potencializada

00:00 · 13.05.2017

A música popular é, por vezes, responsável por expressar os dramas da sociedade que a consome. Em 1995, a dupla Zezé Di Camargo e Luciano cantou "ela sabe que depois que cresce o filho vira passarinho e quer voar". A mãe dos sertanejos os deixou ganhar o mundo mas, em outros casos, a sensação de abandono é tão forte que pode desencadear a 'Síndrome do Ninho Vazio'.

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.Perdas e ganhos na nova dinâmica familiar

"É sintoma frequente o sentimento de solidão no qual se observam tristeza, isolamento, preocupação, sensação de inutilidade e, por vezes, dores no corpo resultantes das tensões do estresse desse momento", explica a psicóloga clínica Léa Araújo.

Nesses quadros, não se sabe quem vem primeiro, se a dor ou a solidão. A pergunta de respostas quase impossíveis faz mais sentido para mães e pais que estão distantes dos filhos. E não importa o motivo: pode ter sido um casamento, um concurso público, uma graduação em outro estado. O 'ninho vazio' se instala naqueles que acreditam terem falhado na função de criadores.

Romper a casca

Todas as pessoas desempenham várias funções ao longo da vida. Para não sofrerem, os pais precisam entender cedo que aqueles que criaram devem interpretar outros papéis para além dos de filhos. A ordem familiar não se modifica devido à separação.

O sentimento de perda contraria as estatísticas. Segundo a pesquisa "Síntese de Indicadores Sociais - Uma análise das condições de vida da população brasileira" (2016), a porcentagem de jovens que continuam vivendo na casa dos pais passou de 24,3% para 25,3% entre 2014 e 2015. Os dados do IBGE retratam que o número foi o maior em 11 anos.

"Hoje, muitos pais vivem o inverso (da síndrome do ninho vazio), que é a chamada 'geração canguru'. É quando jovens, mesmo independentes financeiramente, preferem ficar no conforto da casa dos pais. Ambas (a síndrome e a geração) produzem efeitos nas famílias", destaca Ana Cássia Fruett, psicóloga do ProCria e membro da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família.

157 km de saudade

O município de Amontada, a 157 km de Fortaleza, abriga uma moradora que aprende, diariamente, a lidar com o vazio que invadiu seu ninho. A dona de casa Cilene Oliveira, 54, está há um ano sem a convivência física com Hemerson Oliveira, 20, o terceiro de quatro filhos.

Cilene se separou há dez anos e, no começo de 2016, passou a sonhar com o futuro do pretérito. "A vida dele poderia ser normal se ele tivesse ficado. Ele estudaria em Sobral, o ônibus de lá buscaria e deixaria em casa".

Quando Hemerson partiu, Cilene sentiu um deserto no coração. Foi quando a depressão se instalou. Parecia perdida e só se encontrava na falta que Hemerson fazia. É que ele saiu exatamente com nada, conta ela, "com a cara e a coragem".

Hemerson chegou a Fortaleza com a vontade de cursar medicina, mas acabou se dividindo entre a faculdade de Enfermagem e um trabalho. A amizade com Cilene persiste à base de desabafos. "Acho isso importante. Meu filho não é dez, é 1000", diz a mãe que ficou, e que aceitou a orientação sexual do filho. Só não aceitou ainda a distância.

Cilene entrega a vida do filho a Deus diariamente ao dar bom dia no WhatsApp. A rotina, ainda pesada, doi cada vez menos nas costas. "As coisas começaram a andar aos poucos com o acompanhamento psicológico". Hoje, Cilene toma três remédios para a diabetes e dois para a depressão. As gotas que bebe de saudade é que são imensuráveis.

Nova fase

"Devemos ficar atentos às relações familiares; cultivar o diálogo e não ignorar o sofrimento e a necessidade do outro"

Léa Araújo Montenegro
Psicóloga

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"Esse momento pode proporcionar (ao casal maduro) experiências de intimidade e descobertas de encantamento"

Ana Cássia Fruett
Psicóloga

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