Ibope Conecta

Saúde infantil: notícias falsas na era da (des)informação

Está sobrando opinião e faltando informação. Estudo do Ibope Conecta revela que a disseminação de dados incorretos sobre doenças infectocontagiosas ocorre entre pais de todas as idades e classes sociais

00:00 · 05.05.2018 / atualizado às 02:13 por Theyse Viana* - Especial para o Vida

Palpites, vários. Informações, inúmeras. Segurança, alguma? "Tira a menina do sereno, pra não gripar!", "Eu, vacinar meu filho? Não, vi no Facebook que tá todo mundo adoecendo com essa vacina". Com a infinidade de conteúdos disseminados nos espaços digitais, transpondo fronteiras em poucos minutos, uma área em que o saber correto é vital tem sido afetada de forma preocupante pelas chamadas fake news: a saúde infantil.

Segundo estudo realizado pelo Ibope Conecta a pedido da Pfizer, a disseminação de informações falsas ou do senso comum sobre doenças infectocontagiosas e a prevenção delas em crianças até dois anos tem ocorrido entre pais de todas as idades e estratos sociais, especialmente a classe A, cenário potencializado pelas possibilidades de comunicação da Internet.

"Várias áreas do cuidado em saúde sofrem com a divulgação de dados incorretos. É um fenômeno da sociedade moderna, que está se adaptando à grande quantidade de informação e à velocidade com que elas circulam", analisa o diretor médico da Pfizer, Dr. Eurico Correia.

Pesquisa
Chuva, vento e sereno

A pesquisa "Doenças infectocontagiosas nos dois primeiros anos de vida: mitos e temores das famílias brasileiras" entrevistou 1.000 mães (60%) e pais (40%) em todas as regiões do País - 22% deles no Nordeste - e destacou a vacinação e as possíveis causas de enfermidades comuns à primeira infância como líderes em dúvidas e equívocos relacionados à saúde de crianças.

Enquanto 70% dos pais da classe A, 67% da classe C e 61% dos nordestinos ainda apontam que chuva, vento e sereno são os fatores que mais expõem os pequenos a doenças, as causas que favorecem a contaminação, como convívio com irmãos mais velhos e permanência em locais fechados, são as menos citadas.

"Há condições climáticas que fazem com que as doenças respiratórias fiquem mais propensas à multiplicação de agentes infecciosos: o frio e o ar seco, por exemplo, podem ressecar as vias aéreas, mas sereno e vento não causam resfriado, gripe nem doença alguma. Você pode ficar nu no frio: se não tiver vírus, não tem doença. Não é causador, é agente facilitador", explica o presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Dr. Renato Kfouri.

Procure o pediatra

Em relação à vacinação, a desinformação também preocupa os pediatras: um em cada cinco entrevistados acredita que as vacinas podem causar a doença a ser prevenida, proporção que aumenta de um para três em se tratando da classe A. Embora 94% dos pais afirmem a importância da imunização, 10% ainda discordam de que as doses sejam seguras, segundo o Ibope.

Para reduzir o espaço dos boatos e ocupar as redes sociais com informações seguras, a SBP lançou a campanha #MaisQueUmPalpite, que pretende retomar os pediatras como principais fontes de informação sobre saúde infantil.

"As pessoas têm perdido a percepção desse profissional como fonte ideal de orientação e prevenção, porque há palpites em qualquer Google e rede social. Os conselhos de avós, comadres e vizinhos podem até ser bem intencionados, mas nem sempre são corretos", salienta Renato Kfouri.

A campanha deve durar de quatro a seis meses, período em que serão esclarecidas dúvidas e mitos sobre vacinação, lazer, amamentação, sono, alimentação e os demais assuntos do escopo da pediatria. Conforme Dr. Renato Kfouri, "a dificuldade do espaço digital é peneirar o que é confiável ou não entre anúncio, matéria paga, experiência pessoal de blogueiras e conteúdos sem base científica".

Cobertura vacinal

Outro ponto que é comprometido na era da (des)informação é o conhecimento sobre os cuidados preventivos à saúde das crianças, principalmente quanto as doses de reforço e a segurança da vacinação. "A desinformação favorece, inclusive, as quedas nas taxas de imunização. No intervalo entre a primeira e a segunda dose da vacina contra o HPV, por exemplo, após notícias de meninas internadas por supostas reações, a cobertura caiu cerca de 50%", lembra o médico, ratificando um dado obtido pelo Ibope Conecta: dos 1000 entrevistados no estudo, 50% acreditam que vacinas causam efeitos colaterais graves.

Além disso, aponta o estudo, 68% dos pais desconhecem que atrasar a aplicação da segunda ou da terceira dose compromete a eficácia da vacina, ao passo que 40% consideram inofensivo adiantar os reforços - e não só o tempo de aplicação deve ser levado em conta. 75% da classe A e 73% da classe B acreditam que as vacinas das redes pública e particular são iguais, mas há diferenças na cobertura.

Doenças graves não escapam à desinformação. Segundo Dr. Renato Kfouri, "apenas 33% dos pais sabem que existe vacina para prevenir a pneumonia, um número baixo se considerarmos a morbidade dela em crianças e idosos".

Paradoxo

Um dos dados "interessantes" da pesquisa, salienta Dr. Eurico Correia, foi o comportamento das classes de maior poder econômico, que registram, em geral, os maiores índices quando o tema é a crença em dados falsos.

"Isso é curioso, não existe uma resposta sobre o motivo de estar acontecendo. Teoricamente, deveríamos estar vendo que as classes sociais elevadas têm mais acesso a educação, formação superior e até pós-graduação. É um tanto quanto paradoxal que informações inverídicas, que são meramente mitos ou crendices populares, estão bastante difundidas nessa classe. Talvez o próprio acesso a uma maior quantidade de informações seja uma forma de fertilizar e perpetuar essas ideias", opina o médico.

*A jornalista viajou a São Paulo a convite da SBP e Pfizer

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