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Rapadura e caldo de cana: impacto glicêmico

Comer com moderação sempre; em excesso nem pensar. Saiba quais as porções desses doces provenientes da cana-de- açúcar

00:00 · 12.05.2018 / atualizado às 11:07 por Giovanna Sampaio - Editora

Energética por natureza e fonte de açúcar simples. Seria normal presumir, então, que a rapadura é um alimento que tem impacto glicêmico maior. No entanto, ao ser consumido com moderação este doce, que, apesar de doce, também é rico em minerais, pode ter um índice glicêmico (IG) baixo desde que sejam observados a quantidade e os demais itens que compõem a dieta.

"Um pedaço pequeno de rapadura, com cerca de 20 gramas, seria a quantidade considerada aceitável, em termos de calorias e de impacto glicêmico. Nesta porção, a glicemia não se alteraria de forma prejudicial", pontua a nutricionista e Doutora em Saúde Coletiva, Profa. Tatiana Uchôa Passos.

. Qual impacto glicêmico do baião de dois?

Rapadura

Por ser uma iguaria tipicamente nordestina, as características nutricionais da rapadura não são contempladas nas tabelas internacionais, ao passo que as nacionais normalmente são elaboradas no eixo sul-sudeste. Devido à falta de estudos sobre o tema, Tatiana Uchôa selecionou a rapadura para avaliar o impacto glicêmico, por meio da análise do IG, ou seja, o potencial que um alimento tem de gerar variação na glicemia de pessoas saudáveis após o consumo.

Também foi estudada a carga glicêmica (CG), que é a avaliação comparativa deste potencial de variação com a quantidade do alimento realmente consumida. A pesquisa integra os trabalhos do Grupo de Pesquisas de Nutrição e Doenças Crônico Degenerativas da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Teste com a tradicional

O tipo de rapadura escolhida foi a tradicional, sem o acréscimo de outros ingredientes, como castanha, amendoim ou coco. Realizados em duas etapas, os testes incluíram voluntários saudáveis, que ingeriram (em jejum) uma solução de água com glicose pura para traçar a curva glicêmica padrão de resposta. A glicemia dos voluntários foi testada três vezes, em semanas distintas e intervalos regulares.

A mesma dinâmica de monitoramento foi realizada com 56 gramas de rapadura, o equivalente a uma porção média do doce e proporcional à quantidade testada de glicose, conforme o protocolo aplicado. Após a série de testes, foi observado que o alimento sólido e concentrado, obtido da cana-de-açúcar (além do caldo de cana, o açúcar mascavo e o melado), pode ter um impacto glicêmico menor que o previsto. "O IG foi baixo, mas a CG do pedaço médio testado foi alta", destaca Tatiana Uchôa.

Ao observar a curva glicêmica dos voluntários após consumir o pedaço de rapadura foi visto que o produto proporciona rapidamente um pico glicêmico bem próximo do que a glicose pura. Daí a necessidade de observar a porção ingerida", justifica a nutricionista que faz parte da gestão nacional do curso de Nutrição da Universidade Estácio (Rio de Janeiro/RJ).

Segundo ela, os resultados desmistificam que o consumo de doces é algo proibido. "Se uma pessoa possui uma boa alimentação, não há por que se privar, eventualmente, de um pedacinho de rapadura depois do almoço. A ideia é poder comer com sabedoria e equilíbrio", enfatiza.

Caldo de cana

Ao contrário da rapadura, o caldo-de-cana tem um impacto significativo, cujo consumo frequente e excessivo pode representar risco de descontrole glicêmico. O IG foi moderado e mesmo em quantidades pequenas, há risco de elevação considerável da glicemia.

A carga glicêmica do caldo de cana testado (cerca de 300ml) foi elevada. A nutricionista Tatiana Uchôa chama atenção para o fato que, "mesmo quando calculamos a CG para uma quantidade que seria aceitável em termos de calorias (200ml), o resultado continuou alto".

Resultados tão distintos podem ser explicados devido à rapadura ser mais concentrada e sólida, e de que o processo de mastigação e absorção do alimento tornaria o impacto mais gradual. Além do que, normalmente, a quantidade de rapadura consumida é inferior à do caldo de cana.

Para estabilizar a glicemia

No caso dos pacientes com diabetes, os alimentos do grupo de açúcares de doces devem ser consumidos com moderação e de forma individualizada, sob pena de piorar o significativamente o quadro clínico do paciente.

"Nós, nutricionistas, recomendamos que primeiro haja a estabilização da glicemia, por meio da alimentação saudável e individualizada, prescrita exclusivamente por nutricionistas. E do tratamento medicamentoso e atividade física (quando viável), conforme orientação médica e de um educador físico", indica.

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, a monitorização da glicemia pode ser realizada, de forma ideal, até seis vezes por dia (em média). Importante lembrar que esta frequência deverá ser determinada pela necessidade individual de cada paciente, assim como pela disponibilidade de material (fitas e glicosímetro).

Flexibilidade dietética

Cabe ao médico indicar a medição regular de glicemia, mas, normalmente, pacientes com diabetes (em uso de insulina) precisam aferir mais vezes, enquanto os diabéticos 'compensados' ou controlados (glicemia de jejum ou pré-prandial inferior a 130mg/dL) têm uma necessidade menor.

Os pacientes 'sob controle', por terem melhor quadro glicêmico e menores variações na glicemia ao longo do dia, possuem também uma maior flexibilidade dietética, o que até possibilitaria a inclusão da rapadura entre os alimentos consumidos esporadicamente", conclui a nutricionista.

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