VoO solo

Perdas e ganhos na nova dinâmica familiar

O 'ninho vazio' pode proporcionar, aos casais maduros, descobertas de intimidade e encantamento

00:00 · 13.05.2017

O vazio que se instala após a saída de um filho de casa pode parecer perpétuo. A psicóloga Léa Araújo, no entanto, garante que a 'Síndrome do Ninho Vazio' tem hora para acabar. "O período geralmente corresponde à adaptação dos pais a uma nova ordem. Depois que entendem que a independência tem sua hora de chegar os sofrimentos tendem a cessar", diz.

LEIA MAIS

.Síndrome do ninho vazio

Mães e pais

Se esse sofrimento persistir, muitas vezes pode evoluir para a depressão, principalmente nas mães, cuja função é tradicionalmente associada à dedicação à família.

Nas mulheres de meia idade, por sua vez, a menopausa tende a agravar o estado emocional. "Nesse período de perdas - da beleza, da juventude, da identidade feminina - a vivência da despersonalização acontece, ou seja, a mulher passa a não reconhece a própria imagem no espelho", afirma Léa Araújo.

"A mulher vive concomitante a menopausa, a perda da fertilidade, o que contribui para a experiência do declínio e do vazio", afirma a psicóloga Ana Cássia Fruett, autora de livros como "O divã dentro de casa" e "Longeviver - O inconsciente no declínio da vida".

Para o homem, essa experiência de 'ninho vazio' é vivida de maneira diferente. "Alguns, mesmo compartilhando a falta, podem negar a tristeza, ausentando-se mais de casa para não entrar em contato com o sentimento", pontua.

Nova vida

"Quanto mais capazes são as famílias de lidar com as separações naturais da vida, mais podem desfrutar de todas as etapas do desenvolvimento próprio e dos rebentos", esclarece Ana Cássia Fruett. É que a Síndrome do Ninho Vazio, quando curada, pode sinalizar prazeres antes não vividos.

Se o casal constituiu uma relação com base na parentalidade, e não na conjugalidade, o "ninho vazio" poderá se transformar em problemas mais graves. "Nesses casos, os filhos são o único elo afetivo. Quando eles saem de casa, e o vínculo conjugal também se esvazia, é comum serem geradas separações", conta a psicóloga Ana Cássia.

Relações fortalecidas

Entretanto, as transformações também podem ser muito benéficas. "Poder cuidar melhor de si, retomar um projeto de viajar, mudar de casa, voltar a estudar, enfim, entrar em contato com desejos esquecidos podem advir depois que os filhos saem de casa", descreve Ana Cássia.

Igualmente é possível prevenir os sintomas. "Cabe aos pais cultivar oportunidades de maior autonomia, acompanhar os filhos ao tomarem suas próprias decisões e não conduzir sua vida estruturada somente em torno deles", justifica Léa Araújo. Só então é possível compreender esse momento como uma fase de crescimento, evolução e de processo natural da vida.

"Quando se fortalece a relação de confiança entre pais e filhos, com menos controle e mais diálogo no ambiente familiar, um novo olhar para a realidade surge. Esse olhar é baseado no reconhecimento dessa mudança, em aceitar a dor, assim como em poder falar sobre a saída dos filhos e dar um novo significado à dinâmica familiar", conclui a psicóloga Léa Araújo.

Fique por dentro

CVV presta apoio emocional às mães neste dia

"Será que ele consegue se cuidar? Meu filho sempre teve tudo, como irá sobreviver agora? Talvez eu possa ir morar com ele?" Essas são algumas das perguntas feitas por mães aos voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que oferece gratuitamente apoio emocional e prevenção do suicídio em todo o País.

Segundo Nilza Viana, voluntária do CVV há 26 anos e porta-voz da entidade em Fortaleza, o Dia das Mães, assim como outras datas festivas, é uma época do ano de aumento na procura pelo atendimento.

"É um dia de lembranças e saudades. Dia de serem abraçadas e homenageadas, enquanto outras sentem a ausência de pessoas que já se foram. São sentimentos compartilhados conosco", explica. Algumas mães lidam bem com as perdas, e outras nem tanto, sendo comum pedidos de socorro como este: "Eu só queria sentir o abraço do meu filho, mas ele partiu antes de mim. Como fazer para suportar a falta desse abraço?".

Para questões que falam de amor, vazio e de uma dor sem fim, o CVV Fortaleza conta a escuta de 35 voluntários que atuam em plantões de quatro horas por semana ou mais (dependendo da demanda). Neste domingo, a equipe de voluntários estará disponível 24 horas pelos telefones 141 ou (85) 3257.1084.

Opinião do especialista

Como lidar com a síndrome

Luíza Braga
Psicóloga e membro da Associação Brasileira de Trauma (ABT)

Image-0-Artigo-2239015-1

Criamos os filhos para o mundo. Essa é a frase que a maioria dos pais falam. Mas será que ela realmente está internalizada quando os filhos se lançam para construir seus próprios ninhos?

A Síndrome do Ninho Vazio surgiu quando estudiosos começaram a perceber como a saída dos filhos de casa afetava os pais em maior ou menor grau. Ela consiste em um desconforto emocional que surge nos pais quando chega o momento de seus filhos partirem, seja para iniciar uma faculdade em outra cidade, morar fora ou casar. São anos de dedicação à criação dos filhos até o dia em que eles decidem ir para o mundo.

Na casa que antes era cheia de vozes, o silêncio passa a reinar. Não podemos evitar esse momento, pois faz parte do nosso ciclo de desenvolvimento. A saída dos filhos resulta em uma mudança estrutural na família e provoca um rearranjo nas relações familiares, rotina da casa, nas atividades dos pais. Essas modificações podem ser desde simples cuidados que deixam de ser feitos (preparar as refeições, cuidar das roupas dos filhos) até situações mais importantes, como a reutilização do espaço da casa, a adaptação emocional e a organização financeira.

A Síndrome do Ninho Vazio pode desencadear depressão, ansiedade e outros transtornos mentais quando os pais se recusam a se preparar para esse momento. Geralmente são pais que passaram a dedicar sua vida inteiramente aos filhos desde seus nascimentos, esquecendo de se dedicar às próprias vidas. Assim, quando os filhos começam a dar sinais de que vão embora, estes podem começar a sentir tristeza, desorientação, sem saber como enfrentar as grandes mudanças que estão por vir. Esse momento pode gerar um vazio, uma sensação de perda e até inutilidade. Caso sintam que a carga está muito grande, os pais podem buscar ajuda profissional, por exemplo, por meio da psicoterapia.

Para evitar que essa mudança seja traumática, os pais precisam se preparar para este momento. Ou seja, à medida em que os filhos crescem e se tornam mais independentes, os pais devem investir em novas atividades de seu interesse, reforçando o convívio social e procurando planejar um futuro. É aconselhável que os pais se conscientizem de que a saída dos filhos de casa é um processo natural e esperado (eles também fizeram isto, bem como seus pais, avós, etc). Devem ficar felizes por terem conseguido criar filhos com autonomia e capacidade para assumirem responsabilidades e construírem os próprios ninhos.

Não se trata de um abandono, e sim, uma mudança que faz parte da vida. É de extrema importância que os pais sempre tenham propósitos de vida mais amplos e que se engajem em atividades que não sejam apenas do próprio trabalho, como possuir grupos de amigos, participar de atividade voluntária ou social, entre outras práticas que considerem prazerosas e tragam objetivos para suas vidas.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.