Larvoterapia

Substância produzida por larvas de mosca pode curar feridas crônicas

O método remove o tecido necrosado e promove o crescimento de tecido sadio

12:00 · 04.07.2018
Feridas crônicas
O ”pé diabético”, que tem tendência a infeccionar e tornar-se uma úlcera, pode ser tratado com larvoterapia ( Foto: Divulgação )

O processo de cicatrização de feridas envolve, grosso modo, três etapas: inflamação, proliferação e regeneração. Feridas crônicas são aquelas que permanecem no estado inflamatório e, passados mais de seis meses, ainda não cicatrizaram. Uma forma antiga de tratamento, que havia sido descartada com o advento dos antibióticos, está sendo reabilitada no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal, Rio Grande do Norte: trata-se da larvoterapia

O tratamento utiliza larvas de mosca para remover o tecido necrosado, romper o biofilme bacteriano, eliminar as bactérias, e promover o crescimento de tecido sadio. A despeito de seu caráter aparentemente repulsivo, a larvoterapia tem-se mostrado eficiente na cura das feridas. Atualmente, o método também é aplicado em alguns hospitais dos Estados Unidos, Europa e América Latina. 

O tema é objeto de estudo de Andrea Diaz Roa, doutoranda no Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS) e orientada por Pedro Ismael da Silva Jr., pesquisador científico do Instituto Butantan.

“As moscas são criadas em laboratório e colocam seus ovos sobre material orgânico. As larvas estéreis são colocadas no interior das feridas, onde permanecem por 24 a 48 horas. Utilizam-se em média 20 larvas por centímetro quadrado. A ferida é coberta durante o procedimento e lavada depois da retirada das larvas. Dependendo do caso, uma única aplicação é suficiente. Elas se alimentam apenas da parte necrosada da ferida”, disse Diaz Roa.

O trabalho pioneiro estudou o efeito do peptídeo antibacteriano sarconesina, produzido pela larva da mosca Sarconesiopsis magellanica. Diaz Roa foi a primeira a identificar, sequenciar e descrever a estrutura do peptídeo, atribuindo o nome sarconesina, em referência à mosca Sarco. 

Andrea pretende utilizar a substância como princípio ativo de um medicamento. Por ser uma molécula relativamente pequena, a sarconesina pode ser sintetizada em laboratório, de forma artificial. Ou ser produzida por engenharia genética, introduzindo-se as bases de DNA que a codificam em uma bactéria hospedeira. A pesquisadora conta que está abordando o assunto de duas maneiras. Por um lado, transformando a sarconesina em remédio, sem terapia larval. Por outro, implementando a prática da larvoterapia no Brasil.

Pé diabético e leishmaniose cutânea

Abstraindo-se o desconforto que a larvoterapia possa provocar, o procedimento em si não é mais incômodo do que a própria ferida, segundo os pesquisadores. Essas geralmente coçam e doem. No caso da úlcera de pé diabético, a dessensibilização provocada pela própria doença impede que o paciente sinta qualquer desconforto. E a terapia larval sozinha pode promover a reversão total do quadro.

Em relação à leishmaniose cutânea, sua ação é apenas coadjuvante, pois a recalcitrância da ferida resulta da presença ativa do protozoário do gênero Leishmania, que inflama o local. O tratamento principal neste caso consiste em matar o parasita por meio de medicamentos bastante tóxicos, controlados pelas agências de saúde. E o papel da larvoterapia será promover a cicatrização da ferida – o que, muitas vezes, leva bastante tempo para ocorrer. 

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.