Minorias étnicas

Pesquisa identifica populações mais vulneráveis a transtornos mentais graves

O estudo estimou a incidência de um primeiro episódio psicótico em cinco países europeus

11:00 · 09.01.2018
transtorno psicótico
Os pesquisadores identificaram 2.774 pacientes que apresentaram um primeiro episódio de transtornos psicóticos, dos quais 1.578 eram homens e 1.196 mulheres, com idade média de 30 anos ( Foto: Divulgação )

Homens jovens, minorias étnicas e moradores de áreas com baixos indicadores socioeconômicos têm maior propensão a apresentar um primeiro episódio psicótico, como é definida a manifestação inédita de transtornos mentais que incluem esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e depressão com sintomas psicóticos – como alucinações, ideias delirantes e desorganização do pensamento.

A constatação é de estudo realizado por um consórcio internacional que estimou a incidência do primeiro episódio psicótico em cinco países europeus – Inglaterra, França, Holanda, Espanha e Itália – e no Brasil.

No Brasil, o trabalho, apoiado pela FAPESP, foi coordenado por Paulo Rossi Menezes, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), e por Cristina Marta Del Ben, professora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. 

Nos últimos anos, pesquisas têm indicado que a incidência do primeiro episódio psicótico apresenta uma variação entre regiões e grupos populacionais. Em países europeus, tem sido observada maior incidência desses transtornos em grandes centros urbanos em comparação com pequenas vilas e áreas rurais e em grupos étnicos minoritários, como imigrantes negros do Caribe e da África.

A fim de comprovar essas observações, os pesquisadores fizeram uma investigação em 17 centros urbanos e rurais dos seis países participantes, entre 2010 e 2015. No Brasil, o levantamento foi feito em 26 municípios de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Os pesquisadores identificaram 2.774 pacientes que apresentaram um primeiro episódio de transtornos psicóticos, dos quais 1.578 eram homens e 1.196 mulheres, com idade média de 30 anos.

As análises dos dados indicaram uma variação de oito vezes na incidência dos transtornos psicóticos entre as áreas estudadas. Enquanto em Santiago, na Espanha, a incidência foi de seis novos casos por 100 mil habitantes por ano; em Paris, na França, o número subiu para 46 novos casos também por 100 mil habitantes por ano. Em São Paulo, a incidência foi de 21 novos casos por 100 mil habitantes por ano.

“Até o fim do século 20 acreditava-se que os principais fatores etiológicos [origem e causa] de transtornos psicóticos seriam genéticos, mas os dados do estudo apontam que os fatores ambientais desempenham um papel muito relevante”, afirmou.

Mais vulneráveis

O estudo também apontou que há maior incidência de primeiro episódio psicótico em homens de 18 a 24 anos em comparação com mulheres na mesma faixa etária, "o que confirma um dado relativamente consistente na literatura", disse Menezes.

De acordo com o pesquisador, estudos anteriores já indicavam maior incidência de primeiro episódio psicótico em homens jovens e também que, conforme os homens se aproximam da idade de 35 anos, a incidência de transtornos mentais neles tende a se equiparar à das mulheres. Em mulheres adultas, entre 45 e 54 anos, a incidência de transtornos mentais é um pouco maior do que a dos homens nessa mesma faixa etária.

“Ainda não se sabe exatamente a razão dessa diferença da incidência do primeiro episódio psicótico entre sexos e faixas etárias. Mas isso pode estar relacionado ao processo de amadurecimento cerebral, uma vez que o cérebro atinge sua maturidade entre os 20 e 25 anos. Nesse período, os homens parecem ficar mais vulneráveis do que as mulheres para desenvolver transtornos mentais”, disse Menezes.

Os pesquisadores também constataram alta incidência em minorias étnicas e em áreas com menor porcentagem de casas ocupadas por seus proprietários.

“Isso sugere que as condições socioeconômicas das pessoas e do ambiente onde vivem têm papel importante na etiologia dos transtornos psicóticos. É preciso compreender melhor os mecanismos envolvidos para explicar a variação da incidência desse problema entre populações”, avaliou Menezes.

Os pesquisadores pretendem analisar os dados sobre o histórico de vida dos pacientes, além de suas condições socioeconômicas, e compará-los com controles da população (pessoas que não apresentaram esse quadro) a fim de identificarem os fatores de risco para o desenvolvimento do surto.

Experiências traumáticas na infância ou no início da vida adulta, por exemplo, são fatores que "aumentam o risco de transtornos mentais", segundo Menezes. 

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