Ressonância magnética

Estudo investiga estrutura cerebral em pessoas transgêneros

A pesquisa fez uma análise estrutural para investigar diferenças de volume da substância branca e cinzenta dos participantes

12:14 · 22.02.2018
mulher trans
Imagens de ressonância magnética indicam variações em uma região cerebral chamada ínsula, relacionada a percepções corporais ( Foto: Divulgação )

Pesquisadores realizaram o primeiro estudo feito na América Latina que investigou volumes cerebrais de indivíduos transgêneros por meio de imagens de ressonância magnética

O estudo fez uma análise estrutural para sondar diferenças de volume da substância branca e cinzenta, a partir de imagens de ressonância dos cérebros de 80 pessoas (entre 18 e 49 anos).

Os participantes voluntários constituíram quatro grupos: 20 mulheres cisgêneras, 20 homens cisgêneros, 20 mulheres transgêneras ou mulheres trans que nunca haviam feito uso de hormônios e 20 mulheres trans em uso de hormônios há pelo menos um ano.

“Cisgênero, habitualmente, é o termo empregado para designar as pessoas que não apresentam incongruência entre o sexo de nascimento e o gênero com o qual se identificam. Já o termo transgênero, genericamente, é utilizado para designar as pessoas que apresentam incongruência entre o sexo de nascimento e o gênero com o qual se identificam”, disse Giancarlo Spizzirri, primeiro autor do artigo publicado na revista Scientific Reports.

Mudança 

Os resultados indicaram nos dois grupos de mulheres trans um tamanho reduzido em uma área cerebral chamada ínsula, em ambos os hemisférios cerebrais. Essa região é muito importante, entre outros aspectos, para a percepção do próprio corpo. O tamanho da ínsula não se apresentou diminuído em relação aos homens cisgêneros, mas sim em relação às mulheres cis.

“É importante lembrar que não existe um cérebro tipicamente feminino ou masculino. O que ocorre são ligeiras diferenças estruturais, muito mais sutis do que a diferença das genitálias, por exemplo. Há também uma grande variação individual nas estruturas cerebrais”, disse Spizzirri.

Os pesquisadores ressaltam também que o menor volume de substância cinzenta em uma área do cérebro não significa necessariamente que a mesma exibe um menor número de células nervosas.

Estudos anteriores observaram que, nos indivíduos transgêneros, a diferenciação sexual do cérebro não acompanha o resto do corpo. “Os primeiros estudos com imagens cerebrais com indivíduos transgêneros buscavam estruturas, regiões ou até a parte funcional cerebral que fossem mais parecidas com as pessoas do gênero com os quais as pessoas trans se identificavam. Estamos vendo que as pessoas trans têm características que as aproximam do gênero com que se identificam e seus cérebros têm particularidades, sugerindo que as diferenças começam a ocorrer durante o período gestacional”, disse Spizzirri.

Nova área de pesquisa

Segundo Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e também orientadora do estudo, uma importante contribuição da pesquisa é demonstrar que a transexualidade “não implica só uma questão de comportamento que a pessoa desenvolve”.

“Observamos que há especificidades cerebrais nos indivíduos trans, achado importante, frente à ideia de ideologia de gênero. Vai sendo demonstrado que não se trata de uma questão de prática ideológica. Pelo que constatamos, por meio das imagens por ressonância, uma base estrutural é detectável”, disse.

A ínsula é uma região muito importante para a percepção do próprio corpo, entre outros fatores. Isso porque essas percepções – inclusive sensações corporais internas e sensações viscerais – são mapeadas no sistema nervoso central pela ínsula.

“Seria simplista fazer uma relação direta com a transgeneridade, mas é relevante termos encontrado uma diferença na ínsula de pessoas trans, que têm muitas questões relacionadas à percepção corporal por não se identificarem com o gênero atribuído ao sexo de nascimento e, além do mais, infelizmente, sofrem muito preconceito”, disse o professor Geraldo Busatto, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria da instituição.

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