Inovador

Estudo brasileiro pode levar à produção de novo remédio contra malária

Embora o medicamento ainda não tenha sido produzido, o resultado dos estudos com uma nova molécula sintetizada, até o momento, é positivo

16:00 · 12.07.2018 por Agência Brasil
Malária
Testes desenvolvidos no País apontam molécula capaz de matar o parasita causador da malária, e até mesmo a cepa, que vem sendo resistente aos medicamentos atuais ( Foto: Divulgação )

Um estudo brasileiro com uma nova molécula sintetizada pode fazer com que seja desenvolvido em alguns anos um novo medicamento contra a malária no País. Embora o medicamento ainda não tenha sido produzido, os resultados dos estudos com essa molécula, até o momento, estão sendo positivos. Os testes desenvolvidos mostram que a molécula é capaz de matar o parasita, e até mesmo a cepa, que vem sendo resistente aos medicamentos atuais. 

O estudo é resultado de uma colaboração. Participam da pesquisa os professores Rafael Victorio Carvalho Guido, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da Universidade de São Paulo (USP), Célia Garcia, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USD), Glaucius Oliva, da USP de São Carlos, e Carlos Roque Duarte Correia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre outros colaboradores.

A molécula

A pesquisa tem demonstrado que a molécula, derivada da classe das marinoquinolinas, tem apresentado seletividade e baixa toxicidade, atuando no parasita [o protozoário causador da malária] e não em outras células do hospedeiro. Ela foi desenvolvida no Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiado pela Fapesp. O estudo também recebeu apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Serrapilheira. 

Produtos naturais, utilizados anteriormente, apresentavam ação moderada ou fraca contra os patógenos. Mas, para esse estudo, a potência das moléculas foi aumentada. "Precisamos de uma molécula que seja potente para matar o parasita e para poder ser um candidato. E conseguimos, finalmente, uma molécula que fosse bastante potente e de baixa concentração”, disse Rafael Guido. “E, mais importante do que isso, nós conseguimos fazer com que a molécula fosse seletiva, que matasse o parasita sem matar células ou serem tóxicas para células humanas”, acrescentou.

Durante o estudo, os pesquisadores começaram a observar que, além disso, essa molécula também tinha outra vantagem: ela agia em mais de uma forma do parasita. “Conseguimos ver que essa molécula não só matava essa forma [de parasita] que estava no sangue, como matava também a forma que estava no fígado”, disse o professor.

A molécula tem conseguido, ainda, eliminar cepas resistentes aos principais medicamentos. Atualmente, o medicamento mais usado no tratamento da malária é a artemisina, que, embora seja eficaz, já está com os anos contados. “Já temos começado a observar o surgimento de cepas resistentes a esse medicamento”, explicou Guido. 

Testes

Até agora, os estudos foram feitos em laboratório e testados também em camundongos afetados pela malária. Os estudos têm se concentrado na malária causada pelo protozoário Plasmodium falciparum. “O grupo não tratado [de camundongos doentes] morria por volta dos 15 ou 20 dias. E os camundongos que foram tratados sobreviveram durante os 30 dias de experiência, mostrando que a molécula era bastante tolerada pelo organismo e não chegou a ser tóxica. E o grupo tratado, além de ter sobrevivido durante esse período de estudo, tinha redução da carga de parasita no sangue”, destacou o professor, ao falar sobre o resultado dos testes em animais.

Ainda são necessárias várias etapas – e anos de estudo e de testes – para que o medicamento seja testado em humanos e produzido. As pesquisas, até agora, foram desenvolvidas com a forma mais letal da malária e ainda é preciso avaliar com outras formas do protozoário, como o Plasmodium vivax, mais prevalente no Brasil. “Não publicamos esses resultados ainda, mas conseguimos ver que essa molécula consegue matar o vivax também.”

Doença infecciosa

A malária é uma doença infecciosa febril aguda, causada por protozoários transmitidos pela fêmea infectada do mosquito Anopheles. Segundo o Ministério da Saúde, qualquer pessoa pode contrair malária, mas a cura é possível se a doença for tratada em tempo oportuno e de forma adequada. Contudo, a malária pode evoluir para forma grave e para óbito. 

Os sintomas geralmente associados à malária são febre alta, calafrios, tremores, sudorese e dor de cabeça, que podem ocorrer de forma cíclica. Muitas pessoas sentem náuseas, vômitos, cansaço e falta de apetite.

A doença mata, atualmente, cerca de 445 mil pessoas a cada ano, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A maior parte das mortes ocorre na África, desse número 75% dos casos correspondem a doença em crianças. 

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