Vilão oculto

Dois a cada dez brasileiros desconhecem o câncer de fígado

Levantamento da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica aponta que boa parte da população desconhece hábitos de risco para uma das formas mais letais de câncer

13:00 · 03.07.2018
Doenças do fígado
Vários são os fatores relacionados ao surgimento do câncer primário do fígado, incluindo desde a ingestão alcoólica até vírus de hepatites ( Foto: Divulgação )

Na lista de tumores mais letais do Brasil, entre diversos conhecidos da população, como os cânceres de pulmão e mama, está um subtipo que passa despercebido pela maior parte dos brasileiros: o câncer de fígado. De acordo com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), 20% das pessoas não conhecem a doença, que, mesmo não figurando entre as dez formas de câncer mais incidentes, é a sexta que mais mata no País.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a taxa de mortalidade da doença (4,33 a cada 100 mil habitantes) é quase tão alta quanto a de cânceres muito mais incidentes e de maior reconhecimento por parte da população, como o de próstata – que corresponde a quase 32% de todos os tumores em homens e tem uma taxa de mortalidade muito similar (6 a cada 100 mil habitantes).

De acordo com a Dra. Anelisa Coutinho, diretora da SBOC, vários são os fatores relacionados ao surgimento do câncer primário do fígado, incluindo desde a ingestão alcoólica até vírus de hepatites. Portanto, na maioria dos casos, o tumor já surge em um fígado doente. O conhecimento desses fatores e acompanhamento regular dos pacientes de risco certamente podem ajudar a reduzir a letalidade do câncer de fígado.

“O ciclo de prevenção ao câncer pode iniciar na sua forma primária, que consiste em adotar hábitos saudáveis; sendo também muito importante a detecção precoce, com realização de exames preventivos para detectar a doença em sua fase inicial e, por vezes, ainda assintomática. O cenário brasileiro atual deixa a desejar no s dois momentos do ciclo de prevenção e detecção precoce e, quando tratamos de câncer de fígado, os resultados tendem a ser piores com o diagnóstico tardio”, explica.

Tipos

Os tumores de fígado são divididos em dois tipos: os cânceres que surgem no próprio fígado ou os metastáticos, que se formam em outras partes do corpo e se espalham através da corrente sanguínea.  Quando o desenvolvimento do tumor começa no fígado, quatro em cada cinco casos são de hepatocarcinomas, que possuem alta relação com fatores de risco de fácil prevenção, como o consumo exagerado de álcool e as hepatites C e B – cuja vacina está disponível aos brasileiros no SUS.

“Neste sentido, a avaliação de que 14% da população ignora que vacinas contra hepatite B podem evitar o desenvolvimento da doença e um terço não sabe que bebidas alcóolicas podem causar câncer impressionam. Seriam formas simples de evitar complicações graves à saúde”, explica a Dra. Anelisa.

Outra característica dos hepatocarcinomas é que eles são muito mais prevalentes em homens do que em mulheres: três em cada quatro casos acometem a população masculina. Entretanto, mesmo constituindo um relevante grupo de risco, os homens possuem números superiores quanto às lacunas nas prevenções primária e secundária: 16% não sabem da importância da vacina contra hepatite na luta contra o câncer e mais da metade deles (53%) ainda bebe, sendo que cerca de metade deles (24%) bebe pelo menos duas vezes por semana.

Já o câncer de fígado metastático tem maior incidência que os tumores que surgem diretamente no órgão – cerca de 20 vezes –, tendo relação com outros tipos de cânceres, como mama, pulmão, colorretal, pâncreas, esôfago e estômago. Essa grande prevalência das metástases em fígado é também decorrente do fato de ser um órgão amplamente irrigado, sendo o sangue um veículo das células cancerígenas a partir dos tumores originários.

"Para diminuirmos a incidência do câncer em geral, é crucial que falemos sobre os fatores de risco da doença. De modo geral, é importante que o brasileiro entenda que deve levar a vida de uma maneira saudável, evitando fumar, se alimentando adequadamente, fazendo exercícios, não consumindo álcool em excesso, tomando as vacinas recomendadas e disponíveis no SUS, indo ao médico e realizando exames preventivos”, diz Coutinho.

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