Dieta regrada

Doença celíaca pode levar à exclusão social

Especialista aponta que é um desafio "sair de casa, participar de festas, passeio, viagens em razão de não ter alimentação adequada"

Negócio no Monte Castelo prepara e vende, sob encomenda, pratos acessíveis para alérgicos ( Yago Albuquerque )
14:59 · 14.01.2018
Ravenna buscou mais informações sobre a doença e encontrou nas redes sociais grupos organizados pela Acelbra ( Saulo Roberto )
O único tratamento para a doença celíaca é a dieta por toda a vida, isenta de alimentos que contenham trigo, centeio e cevada. Com as restrições alimentares da filha, Ravenna Barbosa afirma que não se importa de levar a marmita para todos os lugares. Ela e o marido também aderiram à dieta devido aos custos. “Não tínhamos dinheiro para fazer dois pratos de cada refeição e não podíamos correr o risco da contaminação em casa”, afirma.
 
Fora a questão financeira, a presidente em exercício da Associação dos Celíacos do Brasil – seção Ceará (Acelbra-CE), Cleoneide Oliveira alerta que a doença celíaca também pode levar a uma exclusão social. 
 
“É um desafio sair de casa, participar de festas, passeio, viagens em razão de não ter alimentação adequada. Alguns podem até dizer: mas, pode comer carnes, feijão, frutas e verduras. Porém tem os temperos, amaciantes e o alto risco de contaminação cruzada que são recorrentes”. 
 
Ravenna conta que buscando mais informações sobre a doença, encontrou nas redes sociais grupos organizados pela Acelbra. “Formamos uma rede de ajuda. Trocamos dicas de receitas e restaurantes, por exemplo.”  
 
Fábrica de gostosuras para alérgicos 
 
Três filhos com restrições a leite, ovos, soja, conservantes e glúten foi a receita de um novo empreendimento para Glícia Bonfim, 33. 
 
Graduada em filosofia, ela é mãe de Alice, 6, Petrus, 5, e Demetrius, 3, todos diagnosticados com alergia múltipla, incluindo sensibilidade ao glúten. Seu filho mais novo, porém, teve a doença celíaca identificada aos 6 meses. “Os três sentiam mal-estar e às vezes ficavam com dermatite atópica pelo corpo todo”, relata. 
 
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A condição dos filhos afetou a vida financeira de Glícia e seu esposo. “Todos os produtos para alérgicos são muito caros, principalmente para quem é celíaco”. 
 
Há 4 anos, com incentivo da família, ela começou a preparar e vender, sob encomenda, pratos acessíveis para alérgicos, o que em pouco tempo fez sucesso. 
 
“Foi uma superação. Na época eu estava desempregada, comprei uma bacia, uma forma e comecei na cozinha de casa”. Hoje, a “Fábrica de gostosuras para alérgicos” funciona em uma cozinha integral alugada para atender a alta demanda. “Acredito que todos os alimentos convencionais podem ser adaptados para quem possui algum tipo de alergia”, afirma.
 
Empatia
 
Glícia partilha que o local de trabalho virou um espaço de acolhimento, troca de experiência e apoio. 
 
“Acredito que uma das maiores dificuldades para quem convive com a doença é a falta de empatia”, diz referindo-se ao preconceito e descaso sofridos por alérgicos.
 
Segundo a nutricionista Rochele Riquet, mestranda em Saúde da Criança e do Adolescente, a dieta restrita dos celíacos deve ser respeitada e cumprida à risca
 
“O falta de tratamento pode gerar complicações a curto e longo prazo, como baixa estatura e infertilidade. A doença não é frescura, ou besteira, como muitos dizem”, justifica.
 
Veja o depoimento de Glícia, da "Fábrica de gostosuras para alérgicos":

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