Tratamento

Dia Mundial de Combate às Drogas alerta sobre a inclusão de usuários

Especialista aborda os fatores que levam à dependência química e fala sobre os danos com o uso abusivo das drogas

08:52 · 22.06.2018
Drogas
Existem diferentes tipos de tratamento para pessoas que possuem problemas com drogas, envolvendo perspectivas científicas e religiosas ( Foto: Fabiane de Paula )

O último Relatório Anual do Departamento de Drogas e Crime da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 2017, diz que cerca de 5% da população mundial usaram drogas pelo menos uma vez nos últimos anos. O documento também relata que, aproximadamente, 30 milhões de pessoas dependem do narcotráfico até precisarem de tratamento. Para alertar sobre o uso abusivo de drogas, a ONU escolheu o dia 26 de junho como o Dia Internacional do Combate às drogas.

As motivações que levam uma pessoa a consumir drogas dependem do estilo de vida que ela possui. Segundo o psicólogo, professor e coordenador da pós-graduação em Saúde mental, álcool e outras drogas do Instituto de Desenvolvimento Educacional (IDE), Paulo Aguiar, situações de extremo estresse, ansiedade e alteração de humor são fatores que podem levar um indivíduo a fazer uso de drogas. Os tipos de substâncias que afetam mais ou menos as pessoas dependem do estado emocional de cada um, pois a experiência com elas é totalmente pessoal e singular.

“Um sujeito pode fazer uso do álcool em determinado momento e não ter nenhum problema. Mas outro, que vive em circunstâncias diferentes, pode sofrer grandes consequências ruins. Já as pessoas em situação de rua, sem nenhuma perspectiva de futuro, terão muitos danos com qualquer tipo de droga”, explica o especialista. Por ser uma fase de transformações no corpo e na mente, a adolescência é o momento em que as substâncias psicoativas podem provocar sérios danos a um indivíduo.

Por exemplo, um jovem que começa a fazer uso do com 12 anos, a possibilidade de ter problemas é maior do que outro que começa aos 18 anos. Quanto mais cedo as pessoas iniciarem alguma experiência com drogas, maiores as chances de virarem dependentes. No caso do álcool, há um outro desafio, pois é excluído das campanhas sobre drogas e a forte investimento publicitário das industrias do setor. Porém, o álcool é o responsável por grande parte dos acidentes fatais no trânsito, mortes por motivos banais, violência doméstica contra mulheres, crianças e adolescentes e rupturas nas relações pessoais.

Identificação

“O uso problemático de drogas ou a dependência química pode ser identificado pelo próprio sujeito ou por pessoas próximas, geralmente os familiares. Sinais como o desinteresse por outras atividades, a quebra de vínculos familiares e sociais, perda de emprego ou não se fixar em nenhuma atividade profissional por muito tempo e o desinvestimento em projetos de futuro podem ser percebidos por quem está perto”, alerta o psicólogo Paulo Aguiar.

A busca de prazer e a sensação de bem-estar com uso recreativo dessas substâncias não é um problema quando não atrapalha as atividades profissionais e os vínculos sociais da pessoa. Segundo o especialista, estamos acostumados a entender o uso de drogas como sempre sendo algo ruim. Por isso, é importante que as famílias falem sobre o assunto corriqueiramenteo assunto de forma séria e sem estigmatização. 

Opções de tratamentos

Existem diferentes tipos de tratamento para pessoas que possuem problemas com drogas, envolvendo perspectivas científicas e religiosas. O modelo biomédico, onde a medicina aponta para a necessidade da abstinência total dando enfoque as questões orgânicas e genéticas, foi predominante durante muito tempo. O tratamento religioso aponta também para a necessidade de abstinência total, apontando como principal motivo do sujeito fazer uso de drogas é o seu afastamento de Deus. “Assim, o tratamento passa por uma conversão e não tem nada de científico. Esses dois modelos apontam também para o uso da internação, mesmo sem a vontade do paciente”, comenta o professor do IDE.

Outra perspectiva de tratamento é a psicossocial, que aponta para um entendimento que não existe sociedade sem drogas e que precisamos aprender a conviver com pessoas que fazem uso e podem vir a ter problemas, ou seja é inevitável o uso de drogas numa sociedade e a proibição é o grande problema. “Nessa perspectiva, a estratégia é a redução de danos, onde o tratamento deve ser feito em liberdade, pois o indivíduo pode até ser internado, mas um dia voltará para o lugar onde teve contato com as drogas. Nessa visão, o foco não é a droga, o foco é o sujeito”, explica Paulo.  

De acordo com Paulo, não se combate o vício. “Combate a ideia de guerra, e numa guerra se elimina inimigos. Os usuários de drogas não são inimigos da sociedade. Qualquer política de drogas deve trazer informações e conhecimento sobre o assunto para acabar com conceitos pré-estabelecidos sobre o assunto, pois assim podemos ter uma discussão séria sobre o uso das drogas e ajudar quem enfrenta problemas a retomar sua vida em social”, finaliza. 

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