Resultados promissores

Compostos do veneno de cascavel têm ação contra vírus da hepatite

Pesquisa analisou as proteínas fosfolipase A2 (PLA2-CB) e crotapotina (CP)

10:04 · 08.01.2018
veneno de cobra
Os compostos analisados se encontram associados como subunidades de um complexo proteico, a crotoxina (CX) ( Foto: Divulgação )

No Brasil, a hepatite C é a maior responsável por casos de cirrose hepática e, por consequência, pelos transplantes de fígado, de acordo com o Ministério da Saúde. Além disso, as terapias disponíveis para o tratamento são dispendiosas, apresentam efeitos colaterais e resistência viral. Testes que utilizam substâncias extraídas do veneno de cascavel, têm apresentado resultados promissores contra o vírus. 

Compostos isolados do veneno de animais têm mostrado atividade contra alguns vírus, como da dengue, da febre amarela e do sarampo. Foi a partir dessa linha de investigação que pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Universidade de São Paulo (USP) acabam de publicar dois artigos nos quais apresentam compostos com comprovados efeitos antivirais no combate ao vírus da hepatite C.

Estudo

O primeiro experimento, visou testar propriedades, contra o vírus, de três compostos isolados do veneno de uma espécie de cascavel, a Crotalus durissus terrificus, conhecida como cascavel-de-quatro-ventas, boiçununga ou maracamboia.

Duas proteínas foram analisadas: A fosfolipase A2 (PLA2-CB) e a crotapotina (CP). No veneno da serpente, esses compostos se encontram associados como subunidades de um complexo proteico, a crotoxina (CX), também testada. Em uma série de experimentos in vitro com células humanas, foi analisada a ação antiviral dos dois compostos, tanto separado como em conjunto no complexo proteico. Foram observados os efeitos deles em células humanas (para ajudar a prevenir a infecção) e diretamente no vírus da hepatite C.

“Nosso trabalho demonstrou que a fosfolipase tem a capacidade de se intercalar com o RNA dupla fita, intermediário de replicação do vírus, inibindo a produção de novas partículas virais. A intercalação reduziu em 86% a produção de novos genomas virais, quando comparada ao que ocorre na ausência da fosfolipase”, afirma Ana Gomes Jardim, coordenadora do Laboratório de Virologia da UFU.

Quando o mesmo experimento foi feito usando-se a crotoxina, a redução na produção de partículas virais foi de 58%. Já a segunda etapa do trabalho verificou se os compostos conseguiriam bloquear a entrada do vírus nas células humanas em cultura. Nesse caso, os resultados foram ainda mais satisfatórios, pois a fosfolipase inibiu em 97% a entrada do vírus nas células. Já o uso da crotoxina reduziu a infecção viral em 85%.

Por fim, foi testado um segundo composto isolado do veneno de cascavel, a crotapotina. Muito embora não se tenha verificado efeitos para impedir a entrada do vírus nas células humanas nem a sua replicação, a crotapotina agiu em outro estágio do ciclo viral, reduzindo em até 78% a saída das novas partículas virais das células. No caso da crotoxina, a saída das partículas foi inibida em 50%.

Segundo os pesquisadores, os resultados dos experimentos demonstram que a fosfolipase e a crotapotina agindo isoladamente tiveram melhor resultado do que em associação. 

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.