Saúde

Como eliminar gordura abdominal

É necessária “a perda de peso associada a exercícios. Enquanto em casos específicos pode ser necessária uma abordagem cirúrgica", descreve endocrinologista

08:41 · 24.06.2018 / atualizado às 08:45
Gordura
Especialistas dizem que há uma predisposição individual para a forma como o excesso de gordura se distribui no corpo ( Foto: Divulgação )

Gordura é uma palavra que por si só já causa certo receio, pois costuma estar associada a excessos - de peso ou a dificuldade de perdê-lo - e, principalmente, a uma rotina nada saudável. No entanto, esquecemos que elas também são fonte de energia e, portanto, essenciais para a absorção de vitaminas. O mais importante, afinal, é saber diferenciar as que são 'boas', como as insaturadas (mono e poli), que ajudam a reduzir o colesterol ruim (LDL), das que são prejudiciais ao organismo, as saturadas, presentes em alimentos hipercalóricos (carne vermelha, miúdos, massas e frituras). Importante: gordura é o termo genérico para lipídios e compreende um grupo de compostos químicos naturais.

Dito isso, vale lembrar que há uma predisposição individual para a forma como o excesso de gordura se distribui no corpo. A gordura abdominal (ou visceral) é a mais temida, uma vez que está localizada na região onde estão órgãos vitais (coração, fígado, rins, pâncreas, estômago). Além de comprometer o funcionamento normal desses órgãos por estar ao redor e, frequentemente, internamente a eles, “pode desencadear disfunções hepáticas e resistência à insulina", indica a Profa. Dra. Tatiana Uchôa Passos, Doutora em Saúde Coletiva e membro do Grupo de Pesquisas em Nutrição e Doenças Crônicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

“Algumas pessoas possuem maior facilidade para acúmulo na região de quadril e coxas (obesidade ginóide), enquanto outras no tronco (obesidade androide). Esta última gera medidas de circunferência abdominal maiores e maior risco cardiovascular. Também há risco para o tipo ginóide)”, explica a Profa. Dra. Tatiana Uchôa Passos, Doutora em Saúde Coletiva e membro do Grupo de Pesquisas em Nutrição e Doenças Crônicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece).  

Para eliminar essa gordura, consequência dos maus hábitos alimentares, sedentarismo e alterações metabólicas, não há milagre. É necessária “a perda de peso associada a exercícios. Enquanto em casos específicos pode ser necessária uma abordagem cirúrgica", descreve o endocrinologista Renan Magalhães Montenegro Júnior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do   Ceará (UFC). Destaca, contudo, que a melhor abordagem nutricional é sempre a individualizada. “Cada fase da vida e condição do indivíduo possui suas especificidades e demandam diferentes necessidades”, pontua.

Como avaliar

A gordura abdominal pode ser avaliada por exames de imagem ou de antropometria, como a medição da circunferência abdominal. Segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), essa medida  reflete melhor o conteúdo de gordura visceral e é um preditor de risco cardiovascular. 

Para mulheres, o ideal que esta circunferência seja inferior a 80cm, com tolerância até 88cm. Para homens, o ideal seria inferior a 94cm com tolerância até 102cm. "Assim, consideramos como fator de risco as medidas superiores a 88 e 102cm, para mulheres e homens, respectivamente.

Para eliminar gordura

Antes de se falar dos alimentos que contribuem para armazenar gordura abdominal, vamos aos que a 'queimam' e as dúvidas em torno do assunto. Nesse caso, Dr. Renan Montenegro Júnior é pontual. "Embora muito falado, não há evidência científica suficiente de nenhuma fruta com essa propriedade. Não obstante, a ingestão de alimentos ricos em gorduras poli e monoinsaturadas, como abacate, coco, azeite de oliva, castanhas e outras amêndoas podem melhorar a sensibilidade à insulina e contribuir para a redução de gordura visceral, desde que inserida em um planejamento alimentar equilibrado". Cita também os alimentos ricos em cafeína, embora o efeito proporcional seja muito modesto.

O impacto dos alimentos que promovem mais facilmente o balanço energético positivo (ricos em gorduras saturadas) é associado ao aumento da resistência à insulina e à inflamação. No entanto, o médico endocrinologista justifica o excesso de tecido adiposo envolve outros tantos fatores: genéticos, hormonais, qualidade do sono, prática de exercícios, medicamentos e até o estado psíquico do indivíduo. 

Idade: mudanças metabólicas

O ganho (ou resistência a uma perda de peso) com o avançar da idade também figura entre as principais queixas, conforme a prática de consultório do Dr. Renan Montenegro Júnior, senso mais frequentes após os 30 anos e que se intensificam a cada nova década que passa. É fato que mudanças metabólicas ocorrem ao longo da vida e há determinantes não modificáveis envolvidos. Não é, necessariamente, devido ao avançar dos anos.

"Tais eventos geralmente ocorrem por vários fatores ambientais. Desde condições biológicas como gestações, mas principalmente por mudanças no estilo de vida, no padrão alimentar, indisponibilidade para atividade física, foco no trabalho, vida social, transtornos psíquicos comuns, níveis de estresse e condição econômica", complementa a endocrinologista Virgínia Fernandes, da equipe da Clínica Renan Montenegro e também professora da UFC.

Cansaço e sonolência

Os indivíduos que estão acima do peso relatam queixas em relação a cansaço (astenia), sonolência excessiva, alterações na pele e cabelo e temem serem portadores de distúrbios da tireoide. Embora tais sintomas sejam compatíveis com hipotireoidismo e mereçam investigação, muitas vezes estarão relacionados à própria obesidade ou ao ganho de peso. 

"O tecido adiposo é um órgão endócrino, o maior deles, que libera inúmeros hormônios e fatores inflamatórios. Com seu excesso, há alterações desses mediadores que favorecem tais manifestações", explica Dr. Renan Montenegro Júnior. 

Dieta: Não existe alimento milagroso

É perfeitamente possível ter uma dieta saudável e que protege o excesso de gordura abdominal. “Alimentos fontes de vitamina C são comuns, normalmente baratos e antioxidantes muito eficientes, auxiliando na prevenção aos efeitos deletérios que o excesso de gordura abdominal produz, como a formação de radicais livres”, cita a Profa. Dra. Tatiana Uchôa Passos, que também é membro da Gestão Nacional do Curso de Nutrição da Estácio de Sá (Rio de Janeiro).

Entre as fontes alimentares não muito calóricas e que podem compor uma dieta variada (in natura, saladas, vitaminas e sucos, com pouco ou nenhum açúcar) estão a laranja, tangerina, caju, limão, abacaxi, melão, maracujá, tamarindo, manga.

Termogênicos

“Há estudos que apontam o uso de alimentos termogênicos. Apesar de haver relatos de efeitos positivos para algumas pessoas, é importante esclarecer que esse uso não deve ser feito sem orientação nutricional, pois nem todos os resultados são os mesmos para todas as pessoas. Há várias condições para se obter algum resultado com o uso destes alimentos”, enumera a nutricionista.

Ter uma orientação de nutricionista é fundamental, pois a primeira condição é ter uma dieta saudável. A segunda é não possuir restrições ao seu uso de alimentos termogênicos, como é o caso de pessoas com hipertenção arterial ou com qualquer problema ou histórico de evento cardíaco. “Entre os efeitos gerados está a aceleração do metabolismo com frequente taquicardia, o que pode implicar em sérios riscos à saúde. Assim, sob orientação e com cautela, respeitando cada caso, os itens com efeito termogênico podem ser agregados à uma dieta saudável, a exemplo de gengibre e canela.

Equilíbrio

Sempre indicados por um nutricionista, num contexto alimentar favorável, os alimentos funcionais podem trazer benefícios tais quais as fontes de vitamina C. As castanhas de caju e do Pará, o abacate, a sardinha, o atum, o azeite de oliva são fontes de gorduras saudáveis que melhoram a resposta do organismo a hormônios que favorecem o controle da gordura corporal.

“Não há ‘alimento milagroso’. É fundamental esclarecermos a população disto. Não há soluções rápidas e nem produtos capazes de promover uma redução da gordura localizada em pouco tempo, que sejam de fácil manutenção. Desconfie de qualquer propaganda que divulgue isto, pois certamente alguns prejuízos à saúde podem estar envolvidos como consequência”, enfatiza a Profa. Dra. Tatiana Uchôa Passos.

O que funciona

Segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), “o tratamento dietético é mais bem sucedido quando aliado a um programa de modificação comportamental que envolva aumento no gasto energético, promovendo um balanço energético negativo. (...) Dietas muito restritivas, artificiais e rígidas não são sustentáveis, embora possam ser usadas por um período limitado de tempo. Um planejamento alimentar mais flexível, que objetive reeducação, geralmente obtém mais sucesso”.

Nesse sentido, a Abeso esclarece que dietas pobres em carboidratos “causam maior perda de água do que de gordura corporal. As dietas escassas em carboidratos e ricas em gorduras, especialmente saturadas em colesterol, são também ricas em proteínas animais e deficientes em vitaminas A, B6 e E, folato, cálcio, magnésio, ferro, potássio e fibras. Portanto, requerem suplementação. Podem levar a halitose, dor de cabeça e litíase renal por oxalato, questionando-se a segurança cardiovascular do seu emprego a longo prazo.”

Da mesma forma, a entidade faz críticas à estratégia do “jejum intermitente”, cujo efeito a curto prazo estaria relacionado mais à restrição calórica. “Os efeitos da restrição de energia intermitente a longo prazo permanecem obscuros pelo limitado número de estudos a longo prazo e de participantes”, reconhece o maior órgão dessa especialidade médica.

Sobre as “sem glúten e/ou sem lactose”, dietas indicadas para indivíduos que sofrem de doença celíaca e intolerância à lactose, respectivamente, é preocupante a forma como estão sendo adotadas indiscriminadamente para redução de peso de pessoas sem estes tipos de distúrbios. Segundo também a Abeso, “não há evidência para recomendação ou mesmo evidência de segurança no tratamento do sobrepeso e obesidade”.

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