Controle de epidemias

O perigo das arboviroses

A vacinação, associada a uma vigilância epidemiológica adequada, é o caminho seguro para evitar epidemias

00:00 · 10.06.2017 por Melquíades Júnior - Repórter
Image-1-Artigo-2250698-1
A vacinação contra a dengue deveria ser uma política pública (como fez o Paraná)
Image-0-Artigo-2250698-1
As vacinas devem estar inseridas em programas capazes de proteger a população contra a ameaça de doenças infecciosas endêmicas (dengue, febre amarela e a gripe)

Na frase "nos deram espelhos, e vimos um mundo doente". Mas quando vamos ver, e parafraseando um pouco mais a canção do Renato Russo, "não temos mais o tempo que passou". Quando o assunto é saúde, a nossa primeira lembrança é a do futuro: das consequências que precisamos combater daquela doença já instalada ali, aqui em nós. Corremos para remediar na proporção inversa à que caminhamos para prevenir.

Leia mais:

.Medo da dengue coloca população refém desse 'risco'

Isso vale para qualquer doença, mas algumas arboviroses, materializadas no famoso aedes aegypti, de tão comuns, são um literal intruso em nossas casas, nossas vidas. Aparecem e nos afetam a rotina quando pensamos que "temos todo o tempo do mundo".

A epidemia de dengue, que assola o País nos últimos anos, e surtos como o da febre amarela, nos estados do Norte, ou da chikungunya em vários municípios cearenses de forma mais recente, a começar por Fortaleza, acendem mais uma vez o alerta e a pergunta: o que ainda podemos fazer para não estar nas estatísticas dos boletins epidemiológicos?

Informar e prevenir

O quintal de casa está limpo, mas e o do vizinho? O do vizinho está limpo, e a rua, o rio, a lagoa? É difícil prever a circulação de alguns vírus causadores de doenças transmissíveis, especialmente as transmitidas por insetos, as arboviroses como febre amarela, dengue, zika e chikungunya.

"Onde encontramos um vírus, tem três circulando. Vivemos uma tempestade perfeita para a transmissão", afirma o Dr. Edimilson Migowski, diretor do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Membro da Sociedade Europeia de Infectologia Pediátrica e doutor em infectologia, Migowski defende que a informação é uma grande arma na prevenção à temida dengue.

Outra pode ser a vacinação, que, associada a um processo de vigilância epidemiológica adequado, "mostra-se um caminho eficaz e econômico para evitar epidemias", pontua o epidemiologista João Bosco Siqueira, doutor em medicina tropical e assessor do Ministério da Saúde para dengue.

Por que imunizar

Esses e outros especialistas estiveram em evento, no mês de maio, em São Paulo, para discutir o impacto das vacinas na prevenção cotidiana de doenças e no combate a surtos, no qual participaram jornalistas do Brasil, México, Guatemala, Costa Rica, Panamá, Peru, Colômbia, Paraguai e Argentina.

A imunização no perfil alvo da doença pode reduzir bastante os efeitos de uma infecção viral que se alastra por toda a América Latina e exige vigilância permanente pelo ressurgimento de surtos após um aparente controle.

No caso da dengue, que entre 2010 e 2016 matou 4.261 pessoas, uma vacina desenvolvida para os quatro sorotipos mais comuns apresenta eficácia de até 66%. O material farmacológico já está disponível há alguns anos em diversos países do mundo, incluindo o Brasil, obtidos por meio da rede de saúde privada.

Mais caro remediar

O estado do Paraná é o primeiro a adotar a vacinação contra a dengue como política pública especialmente nos 30 municípios mais endêmicos do Estado, onde estão 80% dos casos. "O objetivo é reduzir a carga da doença e barrar a circulação viral, reduzindo o número de casos graves e internações hospitalares", afirma o secretário de Saúde do Paraná, Michele Caputo Neto.

Por ano, o País gasta mais de R$ 1 bilhão em atendimentos ambulatoriais e internações em função da dengue. Quando se soma às outras arboviroses, o custo é maior. É sempre mais caro remediar.

Dor que transforma

Unidos pela tragédia, Marcos Roig e Paulo Roberto, que perderam seus filhos Rodrigo e Daniel, respectivamente, vítimas de dengue, fundaram, em 2008, a Associação de Vítimas da Dengue (Avide). A intenção é divulgar os riscos da doença, mobilizar a comunidade e sensibilizar o poder público para o tratamento.

Para a Avide (www.avide.com.br), a dengue é uma doença social, resultado de falhas na infraestrutura da sociedade em educação e saneamento básico. A associação oferece suporte psicossocial às famílias vitimadas pela dengue, após a perda de um ente querido.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.