Saúde

Medicina sem pressa

Tempo para ouvir, pensar, decidir e partilhar o caso com o paciente é premissa da "Slow Medicine". É a prática de um cuidado consciente

00:00 · 09.09.2017 por Giovanna Sampaio - Editora

Nem sempre fazer mais significa fazer melhor. Diria (quase) nunca. Além do que, não há como responsabilizar a falta de tempo pelo ritmo acelerado que imprimimos à vida, muito menos em relação à prática médica vigente: consultas rápidas, excesso de exames e prescrições e profissionais apressados e, em sua maioria, insatisfeitos. Uma realidade que põe em risco a relação médico-paciente.

> Por que, afinal, vivemos com tanta pressa? 

Para resgatar os aspectos imemoriais de atenção à saúde, como a primazia do tempo na ciência e na arte de cuidar, nasceu a filosofia Slow Medicine (Medicina Sem Pressa). A vertente do movimento Slow Food (fundado em 1986) voltada para a atenção à saúde teve seu termo empregado pela primeira vez, em 2002, quando o médico italiano Alberto Dolara descreveu a necessidade de desacelerar as decisões médicas, especialmente quanto a medicina preventiva, cuidados com os idosos e a atenção no final da vida.

Resgate necessário

Embora os princípios da Slow Medicine ainda sejam recentes no Brasil, a filosofia vem ganhando força entre os profissionais de saúde. Um passo importante será dado dia sete de outubro, quando a Associação Paulista de Medicina e o Instituto Slow Medicine Brasil realizam o 1º Encontro Brasileiro de Slow Medicine. Por não ser uma especialidade médica ou um programa de governo, o que há de mais concreto é a disseminação dos princípios junto à classe médica.

"Na medida em que a Slow Medicine resgata uma relação médico-paciente sólida e duradoura, ela já vem sendo feita por muitos profissionais desde sempre, mesmo sem o sabê-lo", diz a o médico geriatra e clínico geral José Carlos Aquino de Campos Velho, editor do site Slow Medicine Brasil.

Escolhas sábias

A Slow Medicine preza pelo uso ponderado, cauteloso e individualizado da tecnologia. "O que questionamos é o uso excessivo da tecnologia diagnóstica e terapêutica, que leva ao 'sobrediagnóstico e sobreuso', e ser nocivo à saúde das pessoas", pontua.

A filosofia slow possui uma forte ligação com a Campanha das Escolhas Sábias, iniciada nos EUA e hoje presente em mais de 20 países. Ela busca dar uma racionalidade, baseada em evidências científicas, ao cuidado médico, sugerindo alguns exames e procedimentos que não deveriam ser usados rotineiramente, embora frequentemente o sejam.

Uma consulta médica usual, com histórico familiar e um exame físico minuciosos, muitas vezes é suficiente para que a orientação terapêutica - ou a solicitação racional de exames complementares - possa ser feita adequadamente.

Os 10 princípios

Tempo: Para ouvir, entender e refletir. Tempo para consultar e tomar decisões. A tomada de decisões melhora quando os médicos dedicam tempo e atenção ao paciente

Individualização: Individualidade em lugar da generalidade. Cuidado particularizado, justo, apropriado. O paciente deve ser o foco da atenção e seu ponto de vista e seus valores são fundamentais

Autonomia e auto-cuidado: Decisões compartilhadas. A chave são os valores, expectativas e preferências do paciente

Conceito positivo de saúde: Foco no autocuidado e resiliência, com ênfase na saúde e não na doença, abordando os cuidados de saúde e de prevenção de doenças

Prevenção: Alimentação, atividade física, pensamento positivo e flexibilidade mental são essenciais para manter o cérebro saudável

Qualidade de vida: Fazer mais nem sempre significa fazer melhor. Mais que quantidade deve-se investir em qualidade, na aceitação do inevitável. Considerar a arte médica de não intervir - a sabedoria da observação clínica

Medicina integrativa: Medicina tradicional sempre que indicada. Medicina complementar se possível , preferencialmente baseada em evidências. Segurança em primeiro lugar, eficácia quando possível

Segurança: Lembre-se do juramento de Hipócrates. "Em primeiro lugar não causar o mal. Em dúvida, abstenha-se de intervir"

Paixão e compaixão: Resgatar a paixão pelo cuidar e o sentimento da compaixão na atenção médica. Buscar incansavelmente a humanização dos cuidados à saúde

Uso parcimonioso: A tecnologia deve servir ao homem. Assim, as novas tecnologias devem cumprir seus objetivos de auxiliar a pessoa no autocuidado, assim como ao médico a tomar as melhores decisões para seu paciente, que busquem primordialmente melhorar sua qualidade de vida

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