fazer a diferença

Medicina integrativa: andanças pelo sertão cearense

O exemplo da hematolo-oncologista cearense Paola Tôrres inspirou a web série do oncologista Drauzio Varella

Nas gravações - feitas pela equipe da Uzamaki Comunicação - Drauzio e Paola falam sobre a importância das conexões estabelecidas entre o ato médico e os encontros com pacientes. A data para exibição da web série ainda será definida ( Foto: Clô Burgos )
00:00 · 10.03.2018 por Giovanna Sampaio - Editora
Os médicos Drauzio Varella e Paola Torres gravam cenas em Quixadá ( Foto: Clô Burgos )

O médico pode sim fazer a diferença e levar saúde à população. A escassez de recursos não deve justificar discursos como "ah, não dá pra fazer nada, a realidade é assim", pondera o oncologista Drauzio Varella. Conhecido por popularizar a informação médica no Brasil, ele, em sua estada recente no Ceará, conheceu o trabalho da hemato-oncologista e cordelista Paola Tôrres, coordenadora do Instituto Roda da Vida, associação que oferece acesso a práticas integrativas para pacientes oncológicos.

Fellow em Medicina Integrativa pela Universidade do Arizona (EUA), Paola encara como desafio melhorar os índices de diagnóstico para os linfomas (neoplasias que atingem o sistema linfático) na fase inicial da doença.

Sertão adentro

Em Quixadá, Drauzio e Paola gravaram um dos quatro episódios da web série, produzida pela Uzamaki Comunicação para o site Drauzio Varella (drauziovarella.com.br). O livro "Andei por aí - narrativas de uma médica em busca da medicina" (Edições UFC), lançado em 2016, foi o ponto de partida para esse encontro. A segunda edição (misto de autoetnografia e cordel) será lançada no segundo trimestre.

Em sua visita ao sertão central, Dr. Drauzio Varella constatou que a estrutura precária da saúde é similar, segundo ele, à existente nos grandes centros 20 anos atrás. "Uma doença simples já é difícil tratar aqui, imagine uma enfermidade complexa como é o linfoma, que envolve exame anatomopatológico, biópsia e outros testes mais específicos para medir a extensão da doença. Como é que você faz isso quando faltam recursos mínimos? É praticamente impossível", argumenta.

'Mundo tão desigual'

Embora o tom seja de críticas à estrutura de saúde vigente, o médico idealizou a nova web série para contar a história de médicos que conseguem realizar muito com tão pouco. "Quando se tem uma pessoa realmente comprometida, como é o caso da Dra. Paola, se consegue ajudar muita gente. Mas o País não pode depender de heróis assim". E completa: "ela é uma lição para os médicos de como é possível - mesmo em condições adversas - conseguir levar saúde para essas populações marginais que ficam abandonadas pelo país inteiro".

Ensino médico

É nesse ponto que Dr. Dráuzio Varella vê com preocupação o ensino médico no Brasil. "Antes faltavam médicos e hoje temos 305 faculdades de medicina (cerca de 60% particulares). Somos o segundo país do mundo em número absoluto de faculdades, mais que nos Estados Unidos e na China. Perdemos apenas para a Índia, que tem perto de 400 faculdades e 1 bilhão e 200 milhões de habitantes", cita.

A 'conta não bate' uma vez que o número de vagas para a residência médica é insuficiente para o total de concludentes. "Vivemos um paradoxo. Os melhores alunos fazem mais três anos de residência e, as vezes, dois ou três de especialização, sendo, portanto, mais preparados. Os que não conseguem uma vaga na residência (teoricamente os mais despreparados), irão para cidades pequenas e atender gente doente".

Para que houvesse o mínimo de igualdade, Dr. Drauzio diz que a carreira médica deveria seguir os parâmetros dos cursos de Direito. "Por exemplo, você é advogado e quer ser juiz, presta concurso. Quer trabalhar em Fortaleza, mas vai primeiro para o interior para construir uma carreira; só depois para uma cidade de médio porte, até conseguir ser transferido para uma cidade grande. Por que isso não pode acontecer com os médicos?"

Como resultado, comenta, "fica essa discussão estéril de dizer 'ah, a má distribuição', isso é absurdo. Hoje, metade dos médicos brasileiros se concentra nas 27 capitais. O restante - cerca de 48% - terá que atender aos mais de cinco mil municípios".

Realidade

Mas o que trouxe Drauzio Varrella ao sertão do Ceará foi o que ele conhece bem no fazer diário da medicina e que não está nos livros. Colocar-se no lugar do outro, ter empatia, humanizar as relações médico x paciente e ir além da perspectiva teórica.

Ele encontrou esse 'olhar' nas histórias relatadas no livro de Paola Tôrres, no qual é descrita a importância - além dos recursos disponíveis para tratar os linfomas (quimioterapia, radioterapia e uso de anticorpos monoclonais) - de observar como o paciente lida com a doença, de buscar conhecer as suas particularidades e respeitar a sua bagagem cultural. Tudo isso importa sim, e muito.

A 'conexão' obtida com o paciente por meio do diálogo é um diferencial inquestionável. "A função do médico não é só dizer o que o paciente tem que fazer", descreve Drauzio Varella. "A pessoa não fica numa condição passiva, na qual o médico fala e ela obedece. Se o paciente estiver convencido que aquela escolha foi a melhor, irá naturalmente aderir ao tratamento".

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Em conversa com as famílias, Dr. Drauzio Varella soube o recurso normalmente utilizado para conseguir tratamento, expresso em frases como esta: " eu falei com fulano que conhece um deputado que me encaminhou para não sei onde" (Foto: Clô Burgos)

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