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Lesões e fadigas no Crossfit

A motivação excessiva, adotada desde o início da prática, pode ser a causa dessas ocorrências no esporte que tem 38 ginásios afiliados no Ceará

O médico Thiago Lima usa munhequeiras para prevenir lesões ( Foto: KID JÚNIOR )
00:00 · 15.09.2018 / atualizado às 16:00 · 16.09.2018 por Nícolas Paulino - Repórter*

Barras olímpicas, cordas de velocidade, halteres, pneus. O Crossfit reúne diversos equipamentos num programa de condicionamento físico intenso, criado pelo ex-ginasta norte-americano Greg Glassman, e que ganhou o mundo no início dos anos 2000. Hoje, são mais de 14 mil boxes (ginásios) afiliados em todo o mundo, 1.130 deles no Brasil, segundo maior mercado global. No Ceará, são 38 espaços autorizados, 31 deles em Fortaleza.

No entanto, o crescimento do esporte também foi acompanhado pelo relato frequente dos praticantes sobre lesões musculares e articulares que a atividade causa a praticantes. A motivação excessiva desde o ingresso no esporte pode ser responsável por essas ocorrências.

Até o limite

O Crossfit envolve exercícios aeróbicos, ginásticos e de levantamento de peso integrados em Treino Intervalado de Alta Intensidade (ou HIIT, na sigla em inglês), cujo gasto metabólico é elevado e proporciona rápida perda de peso.

Walter Cortez, professor do curso de Educação Física da Universidade de Fortaleza (Unifor), credita esse momento a mais um 'boom' do mercado fitness, assim como foi o spinning nos anos 1990. Segundo ele, o método "pode não ser lesivo", contanto que seja bem supervisionado.

Um fato, contudo, deve ser ressaltado: após quase duas décadas, o esporte ainda não conta com metodologia específica para o indivíduo iniciante. "O Crossfit entrou com a automotivação; a tarefa é desafiadora. É difícil trazer esse interesse com caminhada ou hidroginástica, por exemplo".

Esporte lesivo?

Segundo o professor Walter Cortez, "a técnica melhora a capacidade de fazer mais repetições e com mais peso. Se o praticante entender que o treino é uma competição, o resultado será volume e intensidade. Os movimentos são muito grosseiros e repetitivos, embora sejam a base do que o corpo humano consegue fazer".

Na literatura científica, ainda há poucos estudos sobre o Crossfit, porém um dos mais notórios mostra que ele não é o esporte mais lesivo. São 3,1 lesões a cada mil horas de treino, segundo a revista The Journal of Strength & Conditioning Research, na frente de ciclismo (2,0), caminhada (1,2) e natação (1,0), mas abaixo da corrida (3,6), do futebol (7,6) e judô (16,3).

Para o médico oftalmologista Thiago Lima, praticante há quatro anos, além do condicionamento físico, o esporte forma uma "família" no box e uma comunidade que estimula uns aos outros - muitas vezes, na base do grito, principalmente ao incentivar o término do WOD (Workout of the Day) ou "treino do dia".

O médico, que hoje se dedica aos intensos treinos de competição, diz que o uso de equipamentos como joelheiras e munhequeiras é aliado na prevenção de lesões. "Quando eu jogava futebol, torci o tornozelo sete vezes. Esse mesmo tornozelo não sentiu nada no Crossfit. Agora, dores, a gente tem todo dia. É um esporte de alta intensidade".

A fisioterapeuta e osteopata Giselle Notini explica que, no atendimento de praticantes com queixa de dor, é preciso diferenciar fadiga de lesão muscular. A primeira diz respeito "ao acúmulo de lactato, que, em concentrações elevadas, reduz a capacidade contrátil do músculo. Se você descansa e faz fisioterapia, elimina a dor e a sensação". Já na lesão, "ocorrem alterações morfológicas ou histoquímicas no tecido, impedindo o atleta de treinar, competir ou mesmo de realizar atividades cotidianas. Quadríceps, lombar e ombros costumam ser as áreas mais afetadas.

Posições de risco

Os exercícios ginásticos e de levantamento de peso olímpico (LPO) são feitos com várias repetições em alta intensidade. Muitas vezes, é preciso girar o ombro para levantar a barra. "Como a cavidade glenoide é rasa, exige estabilidade e coloca o ombro em posição de risco", alerta Notini.

A lombar também é afetada por posturas de agachamento, deadlift, clean e snatch, que exigem a integração do corpo como um todo, não só dos estabilizadores do tronco. Tudo deve estar ativado, pois não são músculos separados.

"A motivação é uma faca de dois gumes. O atleta tem que dar tempo para o organismo restabelecer a musculatura", pontua o ortopedista Eduardo Vasconcelos Freitas.

*O jornalista é autor do blog Hora do cross; acesse aqui

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