jogos eletrônicos

Infância e tecnologia: impor limites pode ser um bom começo

Estudos buscam criar rotinas e protocolos para orientar os pais sobre os limites ideais na forma de jogar

00:00 · 07.04.2018
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Quando é difícil controlar o uso das tecnologias, a chance de transformar a prática em um vício aumenta consideravelmente. Se torna mais grave em crianças que já possuem comprometimento comportamental e/ou emocional como ansiedade

Não raro as tecnologias digitais podem artificializar processos extremamente importantes para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, a exemplo de interagir com pessoas e a natureza. A preocupação com a 'diversão na palma da mão' não é de hoje.

> Jogos eletrônicos: até onde é saudável

Em 2016 a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou o 'Manual de Orientação - Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital' onde foi evidenciada a inquietação de médicos pediatras sobre a necessidade de pôr limites no uso de tecnologias.

Passo a passo

Aliado a esse manual da SBP há o aplicativo Jeca, composto de nove domínios e foco nos jogos eletrônicos. Nele, os pais têm acesso a informações sobre sinais de alerta, a relação dos games com doenças físicas e psicológicas, assim como uma possível conexão entre a violência de alguns jogos e o comportamento agressivo nos jovens.

Um dos domínios traz um questionário que avalia se o hábito de jogar pode ser sugestivo para dependência (com base nos critérios diagnósticos do DSM 5). O aplicativo criado pela médica cearense também trata sobre os cuidados especiais, no caso de adolescentes diagnosticados com epilepsia, que devem evitar o uso de jogos eletrônicos.

Menores de dois anos

Segundo a psiquiatra Maria Verônica Gomes de Carvalho, "tem sido habitual o uso das tecnologias no cotidiano como forma de aquietar crianças principalmente em locais públicos". Destaca a importância de evitar o hábito em menores de dois, enquanto para crianças maiores, que isso aconteça com regras e limites.

"Hoje, temos bem documentado cientificamente as técnicas de Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), que trabalha pensamentos, emoções e comportamentos, que funcionam bem na abordagem dos jovens que têm dificuldades ou dependência em relação aos jogos eletrônicos", diz.

Prática clínica

Como ajudar os pais a identificar os sintomas

Na Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) com crianças e adolescentes trabalhamos, entre outras intervenções, com a psicoeducação. Compartilhamos informações/orientações que visam um melhor ajuste a realidades diversas.

Na prática clínica, as demandas em relação ao uso abusivo de tecnologia têm sido recorrentes. Tem sido associado a sintomas de depressão, ansiedade, violência, sexualidade precoce, cyberbullying, exposição precoce ao uso de drogas, dificuldades de sono, baixo rendimento escolar, entre outros. Quando psicoeducamos o paciente também precisamos orientar suas famílias. Buscamos ajudá-los tanto a identificar sintomas quanto a estabelecer estratégias de resoluções para amenizar sofrimento psíquico.

O aplicativo Jeca é um exemplo dessa intenção. Com ele, temos a oportunidade de ajudar os pais a entender quando o uso de jogos eletrônicos passou a ser nocivo à saúde da criança e do adolescente. O engajamento dos pais e responsáveis me parece essencial nesse sentido, pois para seus filhos as tecnologias têm se mostrado fascinante; e ela tanto pode ajudar quanto pode trazer sérios riscos à saúde mental de seus usuários.

Costumo dizer que, da mesma forma que nos preocupamos em saber quais são os locais que nossos filhos frequentam, também devemos conhecer e ter atenção ao "mundo virtual" por eles visitado. Não perder os limites e saber o que cada situação pode provocar nos jovens é desafio cotidiano de seus responsáveis. Educação digital é uma forma de proteção. E como é algo que avança de forma rápida muitos adultos estão um pouco perdidos em como educar seus filhos neste contexto.

Já temos parâmetros de orientações científicas, tais como os da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que regulamenta e orienta pais e responsáveis através de um manual sobre a saúde da criança e do adolescente na era digital. Existe um tempo de exposição às telas de acordo com a faixa etária. Muitas famílias relatam desconhecer essas orientações, embora cada vez mais profissionais e educadores venham se mostrando sensíveis ao tema.

Na prática clínica, ao entender a especificidade de cada caso, procuramos construir colaborativamente com o cliente e sua família planos de ação que podem ir desde tirar a televisão, jogo ou computador do quarto dos filhos até mensurar o tempo de exposição às mídias para que possamos fixar um limite.

Com isso, procuramos também aumentar o repertório de tipos de entretenimento, assim como as rotinas diárias, formas de convívio e lazer familiar. E também incluir mudanças nos estilos parentais e qualidade de diálogo interpessoal, entre outras possibilidades.

Daniela Dias Furlani Sampaio. Psicóloga clínica, Doutora em Educação (UFC)

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