Dor crônica

O que fazer quando a cabeça toda dói: da articulação da mandíbula à cadeia de músculos ao redor? Podemos estar diante de um quadro de dor orofacial, uma das principais queixas no consultório odontológico

00:00 · 06.05.2017 por Giovanna Sampaio - Editora do Vida

A vida começa a complicar quando se sente dor aos menores gestos, como dificuldade ao abrir a boca para se alimentar ou quando não se consegue beijar porque a mandíbula estala e dá clicks (ruídos). Essas são situações frequentes para uma parcela significativa da população que sofre as consequências das dores crônicas orofaciais. Entre elas estão as disfunções da Articulação Temporo-Mandibular (ATM), de origem musculoesquelética, que são as principais queixas na atualidade.

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Na realidade, é difícil, sim, distinguir o que é um sintoma da ATM ou uma cefaleia tensional, enxaqueca ou problemas da coluna cervical, uma vez que são similares e podem confundir o profissional não experiente. Com isso, o paciente costuma sofrer por anos antes de chegar ao diagnóstico e tratamento adequados.

"Além da qualidade de vida em si, o paciente perde as funções de mastigação, fala e movimentos do pescoço e boca", observa a cirurgiã-dentista Neuza Márcia Falcão, especialista em dor orofacial e Disfunção Temporo-Mandibular (DTM) pela Faculdade de Medicina de Petrópolis (RJ) e diretora do Centro de Dor e Odontologia Integrada (Instituto IOCI).

Movimentos limitados

Além de ter a abertura da boca seriamente comprometida, cerca de 70% dos indivíduos com sinais compatíveis com uma disfunção da ATM também relatam cansaço ao mastigar e dores na região próxima ao ouvido.

"Quando chegam ao consultório já apresentam um quadro instado de muito tempo ou agudo. Geralmente, esses pacientes já são crônicos, ou seja, apresentam comorbidades associadas (ansiedade, depressão, variações de humor), assim como distúrbios do sono e inadimplência ao trabalho. Também costumam relatar complicações familiares devido à perda de qualidade de vida e alterações na rotina por incapacidade de desempenhar suas funções", justifica a especialista em dor orofacial e DTM pela Faculdade de Medicina de Petrópolis (RJ), professora da Unichristus e cursos de extensão pelas faculdades da Califórnia (UCLA) e de Nova York (EUA).

Tudo está interligado

Embora incapacitante, muitos dos casos de dor orofacial não são tratados de forma que aconteça uma intervenção precoce. Assim, o cirurgião-dentista (com especialidade em dor orofacial e DTM) deve ser imediatamente procurado quando houver um quadro de dor persistente e que limite algum movimento facial por mais de dois a três meses.

Segundo a Dra. Neuza Falcão, como a dor crônica compromete a vida do indivíduo como um todo, é vital que a conduta trate a pessoa de forma integral e única (corpo, dieta, emoções) para reintegrá-lo à sua rotina sem limitações. Por isso, a necessidade de uma equipe interdisciplinar que compreenda os fenômenos da dor e trate todas as queixas ao mesmo tempo.

"Por exemplo, uma dor de cabeça do tipo enxaqueca precisa de uma mudança na alimentação com restrições de alguns alimentos, mas que deve ser feito com um profissional que não deixará faltar nenhum nutriente, mas que evite os alimentos inflamatórios. O psicólogo trabalhará com a ansiedade, depressão e alterações de humor, enquanto o fisioterapeuta com o objetivo de restabelecer as forças musculares, alongamentos, etc.

Existe cura sim

Devido à complexidade da dor e o poder que a mesma tem de refletir na vida como um todo, o indivíduo sofre duplamente ao ter que lidar com fracassos nos sucessivos tratamentos. "Muitas vezes, vão a especialistas que não tratam a dor e perdem tempo com planos médicos incompletos, sem que haja diagnóstico abrangente. Então, essas pessoas vão se frustrando e achando que não existe cura. Enquanto isso, há o aumento das dores e o desalento de não encontrar um resultado satisfatório", enfatiza.

Médicos, dentistas, fisioterapeutas, massagistas e acupunturistas são procurados sem sucesso. Dra. Neuza Falcão diz que "se não houver um profissional responsável, repassando o diagnóstico e o seu plano de tratamento, ou seja, se responsabilizando pelos encaminhamentos e resultados, o paciente se perde nessa quantidade de profissionais e locais diferentes", pontua.

O paciente tende a ficar inseguro e fragilizado, pois escuta opiniões diferentes e/ou divergentes. O que dificulta o critério de avaliação do que é certo para a sua dor. Assim, a solução para a dor crônica está na abordagem interdisciplinar, com um profissional que gerencie a dor e que ande de 'mãos dadas' com o paciente.

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