afetos construídos

Criança alegre, adulto saudável

O ato de brincar ajuda a criança interagir e interpretar a realidade conforme seus desejos e fantasias

Subir em árvores, tomar banho de mangueira e correr livremente. É a partir dessas vivências que as crianças elaboraram o mundo ao redor, exploram o ambiente, testam suas hipóteses e experimentam seus medos ( Foto: Fernanda Siebra )
00:00 · 07.10.2017

A criança que brinca mais livremente tem a possibilidade de se tornar uma pessoa mais curiosa, investigadora, assim como ter facilidade nas relações interpessoais e nos estudos na fase adulta, justifica a psicóloga Léa Araújo.

O aprendizado de regras, valores éticos e morais são frutos da brincadeira. "Permite que a criança possa se inserir em grupos, se relacionar com o outro. Estimula a percepção, a sensação, a afetividade e o pensamento. Ajuda no desenvolvimento da atenção e da concentração", descreve o psicólogo Daniel Franco, membro do Instituto Vincular, da Associação Cearense de Terapia Familiar, do ProCria e da Liga de Neurologia e Psiquiatria Infantil da Universidade Federal do Ceará (UFC).

'Colocar pra fora'

Sobre a afetividade, Daniel Franco destaca que a mesma pode ser desenvolvida, inclusive, na possibilidade das manifestações agressivas.

"Por meio do jogo, a criança pode projetar e externalizar a agressividade nos objetos. Isso é muito bom porque é a maneira que ela encontra de colocar pra fora, uma tendência natural que ela tem interna, que são as inclinações agressivas, as forças destrutivas. É o que chamamos de desenvolvimento da afetividade", afirma.

Sentimentos de rejeição, frustração, ciúme, rivalidade, de competitividade, de aprender a ganhar e a perder são expressos por meio do brincar.

Mente e corpo

A idade do brincar acontece a partir do momento que o bebê explora o próprio corpo e brinca com o rosto da mãe e começa a responder aos estímulos externos.

"No início, cérebro em formação, tem inúmeras conexões e sinapses que formarão um conjunto de significados. É quando o brincar e o faz de conta levam o bebê a exercitar mente e corpo e adquirir um novo repertório de brincadeiras", destaca Léa Araújo.

Real e imaginário

Quando a criança brinca de boneca, de carrinho, de bola, de professora ou de médico, por exemplo, ela está criando o mundo a partir do que ela gostaria que o mundo fosse.

Ao simplesmente brincar e dar asas à imaginação ela não o faz, necessariamente, com a bola ou o carrinho. Pode se apropriar de objetos do mundo externo e transformá-los. Pegar uma caneta e fingir que é um avião ou fazer uma caixinha virar um telefone.

"Ela sabe distinguir a fantasia da realidade e transitar entre os dois. Sabe ir e vir de um para o outro. Quando tem dificuldade de sair do mundo da fantasia, pode ser um indício que tenha alguma disfunção", diz o psicanalista do Procria.

'Tatibitati'

O brincar é um recurso que os pequenos utilizam para criar uma ponte entre o seu mundo (interno) e o externo. Um dos primeiros tipos de brincadeiras que as crianças apresentam e desenvolvem é o brincar com as palavras. Trata-se de uma forma de aquisição da língua, sempre algo tão esperado pelos pais (esse jogo pode ser chamado de ' tatibitati', 'lalação' ou 'lalia'.

Quando a criança começa a entrar no aprendizado lógico (o tradicional das escolas), ela começa a perder naturalmente essas capacidades iniciais, justamente as mais espontâneas e criativas.

"Costumamos dizer que o brincar - na essência da palavra - entra em extinção a partir desse momento", ressalta o psicanalista Daniel Franco, que é membro da Associação Cearense de Terapia Familiar e do Instituto Vincular.

Em cada fase, uma descoberta

12 a 18 meses - anda sozinha, explora os ambientes, olha um livro de bonecos e volta várias páginas de cada vez, pode pronunciar entre cinco a dez palavras e compreende muito mais (cadê a chupeta? Cadê a mamãe);

18 meses a dois anos - anda, corre, sobe e desce degraus (os dois pés no mesmo degrau). Chuta, aponta os olhos, o nariz, os sapatos. Associa duas palavras e enriquece o vocabulário. Alimenta-se sozinha, gosta de imitar os adultos e busca o contato com outras crianças;

Dois a três anos - aprende a saltar, a subir, consegue pôr três cubos "em ponte", inicia o processo de fazer perguntas, compreende o que lhe dizem e começa a brincar com as outras crianças;

Três a quatro anos - aprende a vestir e tirar a roupa; reconhece cores (duas a três), fala de forma compreensível, faz muitas perguntas, adora ouvir histórias. Inicia o processo de partilhar brinquedo e lanche, manifesta carinho e é capaz de realizar tarefas simples;

Quatro a cinco anos - salta, sobe e desce escadas (alterna os pés), desenha a figura humana, fala com clareza, conta nos dedos. Conta parte das histórias que escutou. Pode reconhecer quatro cores. Interesse pelas atividades feitas pelos adultos;

Cinco a seis anos - dança ao som da música, distingue direita e esquerda, ontem e amanhã, pergunta o significado de palavras abstratas. Inventa jogos e muda as regras enquanto joga, detesta a autoridade e executa com lentidão as ordens.

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