tratamento

Câncer de fígado: estigma dificulta o diagnóstico precoce

Os portadores de cirrose alcoólica se sentem intimidados já que a doença é associada a uma vida desregrada

00:00 · 31.03.2018

Em geral, o brasileiro é mal informado sobre a sua saúde, formas de prevenção, diagnóstico e opções de tratamento. Isso também ocorre em relação ao carcinoma hepatocelular (CHC), popularmente conhecido como câncer de fígado e que atinge o maior órgão sólido interno do corpo humano.

Foi o que mostrou a análise "CHC: barreiras de acesso, diagnóstico e tratamento no cenário brasileiro atual", realizada com base nos dados do Datasus. O CHC é o terceiro que mais mata no mundo (cerca de 700 mil mortes ao ano). No Brasil, foram registrados 44 mil óbitos no período de 2011 a 2015.

A forma como o brasileiro percebe (e não dimensiona a gravidade) o câncer de fígado também foi tema de pesquisa feita pelo Instituto Oncoguia, em parceria com a Bayer que ouviu 1.500 pessoas, com idade entre 18 a 65 anos.

Acesso à informação

"Os dados da pesquisa mostram que a população precisa ter mais acesso à informação. Vemos que a maioria dos tumores é descoberta depois do avanço da doença e isso tem impacto direto no uso das terapias e na sobrevida dos pacientes", diz Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia.

De acordo com o oncologista Roberto de Almeida Gil, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), "há opções de tratamento para os diferentes estágios da doença, mas, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, será possível chegar a procedimentos potencialmente curativos".

O especialista cita a ressecção cirúrgica e transplante de fígado, assim como procedimentos que auxiliam na regressão do tumor, a exemplo de injeção percutânea de etanol e ablação por radiofrequência.

Barreira invisível

O estigma ao redor das doenças de base - as hepatites virais e a cirrose alcoólica - é a barreira que dificulta o diagnóstico precoce. Esse fator contribui para que o paciente esconda sua condição que leva ao diagnóstico tardio, à falta de tratamento adequado e, consequentemente, ao aumento no número de casos de câncer de fígado (CHC).

O desconhecimento e preconceito da população sobre os temas geram uma associação da doença com um estilo de vida promíscuo e o uso de drogas injetáveis, o que leva ao silêncio por parte do paciente cirrótico. No entanto, a realidade é que a maioria dos pacientes adquiriu a doença por meio de transfusões sanguíneas antes de 1993, quando não havia o controle sorológico das bolsas de sangue ou pela transmissão de mãe para filho (no parto).

Cirrose alcoólica

Os pacientes portadores de cirrose alcoólica se sentem intimidados pela sociedade uma vez que a doença é fortemente associada ao consumo excessivo de álcool e à vida desregrada.

Seja qual for o caso, o paciente se sente culpado e tem sua autoestima prejudicada, optando pelo isolamento social, e a não adesão ao tratamento, se tornando cada vez mais propenso ao carcinoma hepatocelular.

Além de lidar com os estigmas sociais, os pacientes enfrentam uma batalha para tratar a doença. São inúmeras as barreiras, desde a falta de centros especializados para o diagnóstico, estadiamento e até a pouca oferta de terapias para combater o câncer.

Fique por dentro

Silencioso e agressivo

O fígado é composto por vários tipos diferentes de células, principalmente hepatócitos, que podem formar variados tumores malignos e benignos.

"O carcinoma hepatocelular é a forma mais comum de câncer de fígado primário. Alguns começam como um único tumor que se espalha para outras partes do fígado, enquanto outros começam como vários pequenos nódulos cancerígenos em todo o órgão. Este tipo é frequentemente visto em pessoas com cirrose", explica o hepatologista Flair José Carrilho, da Faculdade de Medicina da USP.

O CHC é o câncer originado nas células do fígado, causado pela multiplicação das células hepáticas na tentativa de reparar lesões no órgão. Esse mecanismo aumenta a probabilidade de erro durante a multiplicação celular e pode levar ao surgimento do tumor.

Este tipo de câncer é extremamente agressivo, porém silencioso, sendo frequentemente diagnosticado em estágios mais avançados, quando os sintomas começam a surgir, decorrentes da perda da função do fígado e também das lesões hepáticas pré-existentes. Nesta fase, são poucos os tratamentos disponíveis.

O principal fator de risco para o desenvolvimento de CHC é a agressão crônica às células hepáticas, acontecendo na maioria dos casos associados à cirrose, que pode ser causada por infecções pelos vírus das hepatites B e C, álcool e NAFLD.

Além desses fatores, há a exposição a aflatoxinas (toxinas produzidas por fungos presentes em grãos e cereais mal armazenados), além de condições genéticas como hepatites autoimunes e hemocromatose hereditária.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.