Procrastinação

Amanhã eu faço

Saiba como o ato de procrastinar afeta a qualidade de vida. E que o melhor antídoto para esse comportamento é apressar-se lentamente (fazer um pouco todo dia), uma forma de apropriação do tempo. Assim, as ações serão precisas e devidas no tempo que lhe cabe

00:00 · 26.05.2018

Mais tarde eu começo. Tic-tac. Depois eu me organizo. Tic-tac. Só mais um episódio desta série. Tic- tac. O tempo passa, as tarefas se acumulam e a preguiça pede licença até se instalar. Podemos até não perceber, mas situações como essas são corriqueiras no dia a dia e podem estar associadas a um termo conhecido como procrastinação.

Adiar afazeres e obrigações pode gerar sofrimento, culpa e estresse, porém pesquisas também indicam que estabelecer intervalos entre as atividades do cotidiano pode ser benéfico quando feitos com moderação.

Quem nunca ouviu o ditado 'não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje?' O ato de procrastinar tem uma relação direta com o tempo.

"Falar de tempo acende logo um alerta de correria, demandas, atrasos e prazos. Na sociedade hiperconectada em redes interativas, parece não sobrar mais tempo para nada. O volume de informações vai além do tempo que dispomos", afirma a psicóloga clínica Berta Ponte, membro do Laboratório de Estudos do Ócio, Trabalho e Tempo Livre (Otium), vinculado ao programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

É só uma ilusão

O fato de adiar algo ou prolongar uma situação para ser resolvida depois pode até dar a impressão de um "adiamento" saudável, um atraso, face a tantas cobranças de um mundo que não para.

Mas a procrastinação é apenas uma ilusão que tentamos vender a nós mesmos de que podemos abarcar todo o tempo do mundo. E que encobre a ânsia de consumo e onipotência. "O problema não está nas tecnologias ou demandas, mas na nossa dificuldade em lidar com limites e prioridades", explica a psicóloga.

Compulsões e defesas

Procrastinar, segundo o psicólogo e psicanalista Daniel Franco, pode estar associado ao comportamento obsessivo compulsivo, a defesas, ou a uma neurose. "O indivíduo obsessivo costuma ser muito rígido, inflexível, experimenta medo, ansiedade em relação ao novo, ao desconhecido. Se protege dos acontecimentos, procrastinando, para que as coisas não aconteçam", afirma o co-orientador da Liga de Neurologia e Psiquiatria Infantil da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Cada etapa da vida tem particularidades específicas em relação ao 'deixar para depois'. Na terceira idade, a conexão da pessoa com o mundo se modifica e a sociedade a caracteriza, "infelizmente, como improdutiva".

O idoso experimenta a sensação de que tem todo o tempo do mundo e se dispersa. "A impressão (na velhice) é a de que o tempo está sobrando, no adulto é a de que o tempo está faltando. É paradoxal, pois mesmo tendo a sensação de que o tempo está faltando, o adulto procrastina".

Na infância, o psicólogo afirma que o hábito do 'amanhã eu faço' deve ser desconsiderado, já que "a criança é impulsiva e inconsequente por natureza. A própria constituição cerebral não mede o tamanho de suas ações, consequências, nem o alcance daquilo que faz [...] Elas são imediatistas, vivem em função do aqui e agora, do ganho e da gratificação imediata", pontua.

Trabalho em excesso

Pausa. Descanso. Férias. Apesar das cobranças e da vida agitada, o tempo livre também é fundamental para a qualidade de vida, se administrado corretamente.

A psicóloga Berta Ponte cita a pesquisadora Maria Manuel Baptista para explicar o quanto a sociedade contemporânea ocidental tem uma relação que poderia ser denominada de "esquizofrênica com o tempo", na qual boa parte da população trabalha em excesso. Aqui o suposto tempo livre torna-se sinônimo de vidas entediadas e depressivas.

Descanso obrigatório

O apelo à motivação, à iniciativa, ao projeto, é mais eficaz em termos de exploração do que o 'chicote' e o comando. Assim, equilibrar as atividades e momentos 'livres' seria um modo para uma vida saudável.

"Procrastinar não tem relação com o ócio, que muitas vezes é visto como não fazer nada, como viver uma vida de prazeres e disponibilidade infinita do tempo. Na educação grega, o ócio criador e contemplativo do tempo social era voltado para a busca de si, do outro e do sentido da existência", destaca Berta Ponte.

Uma rotina sem descanso pode gerar ou agravar problemas psicológicos. "Diante da produtividade e do rendimento (como fontes de sucesso) alguns sintomas patológicos podem ser desencadeados, como a depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e síndrome de Burnout.

Colaborou: Tainã Maciel

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