vida real

Altos e baixos da depressão bipolar

Campanha alerta para a urgência de se falar mais sobre doenças mentais. Identificar o transtorno ainda é um desafio

00:00 · 23.06.2018 / atualizado às 13:34 · 26.06.2018 por Theyse Viana - Repórter

O humor se agita, a autoconfiança se eleva. A regra, então, é se fazer o extremo de tudo: falar mais, beber mais, brigar mais, fazer mais sexo, estar mais impulsivo e irritado. As únicas necessidades que diminuem, por outro lado, são as de sono e descanso - mantém-se alerta.

Semanas ou meses depois, porém, o quadro se inverte: tristeza, desânimo e baixa autoestima dominam e tornam aquele indivíduo irreconhecível. A angustiante oscilação de humores descreve o transtorno bipolar, doença que atinge cerca de quatro milhões de brasileiros - e cuja fase depressiva, maior causa de suicídios entre as doenças mentais, ainda é desconhecida e mal diagnosticada.

A frieza do número alerta: 15% dos que sofrem com depressão bipolar cometem suicídio, reduzindo em média 9,2 anos na expectativa de vida dos pacientes não-tratados, conforme a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Com sintomas que se manifestam, em geral, entre os 15 e 25 anos, a fase depressiva prevalece dentro da bipolaridade, correspondendo a 67% da doença (contra 20% de mania ou hipomania), os períodos de euforia, irritação e hiperatividade extremas. Os dados foram apresentados no workshop "Depressão bipolar: uma condição que precisa de tratamento", realizado dia 12, em São Paulo.

sintomas

Diagnóstico clínico

Além dos prejuízos à rotina do indivíduo, que muitas vezes se torna incapaz de exercer atividades, quem é acometido pela depressão bipolar sofre ainda com a falta de esclarecimento dos próprios médicos sobre a doença - diagnosticada exclusivamente de modo clínico, e não por meio de exames.

Segundo o professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dr. José Alberto Del Porto, são necessários pelo menos três profissionais para, enfim, diferenciar a depressão bipolar da unipolar. Em cerca de 69% dos casos, o diagnóstico inicial é errôneo e pode retardar o reconhecimento correto da patologia em até dez anos.

Sucessão de episódios

"Identificar o transtorno precocemente é um desafio. Vemos médicos diagnosticando um caso como depressão unipolar sem antes avaliar o histórico do paciente e excluir a possibilidade de ser bipolar. Isso gera o uso de antidepressivos sem critério, medicação que induz a ciclagem rápida e aumenta os pensamentos suicidas no paciente", alerta Del Porto ao descrever os ciclos em que o intervalo entre as oscilações de episódios de mania/hipomania e depressão bipolar se tornam mais curtos.

O médico acrescenta que, embora sejam doenças diferentes, os critérios para o diagnóstico da conhecida depressão unipolar e da bipolar são os mesmos - mas a sucessão de episódios depressivos e maníacos ao longo do tempo e a presença de sintomas como hipersonia, ganho de peso, delírios e labilidade de humor acentuada são mais comuns na bipolaridade.

Como tratar

Falar sobre o assunto e identificar corretamente qual transtorno acomete o paciente, segundo ressalta o diretor médico da farmacêutica Daiichi Sankyo Brasil, Allyson Nakamoto, são fatores essenciais para o controle dos sintomas - já que a depressão bipolar não tem cura.

"A falha do tratamento está ligada à não adesão, ao abandono da medicação, ou ao diagnóstico errado. A pessoa bipolar morre de suicídio ou por doença cardiovascular, por exemplo, devido a comorbidades (existência de uma ou mais doenças em simultâneo na mesma pessoa). Por isso esse assunto deve deixar de ser marginal e ser trazido para o dia a dia", diz Nakamoto.

Apoio e superação

Além do uso de medicamentos e do acompanhamento médico, o psiquiatra José Alberto Del Porto ressalta a importância da reinserção social do indivíduo e do apoio familiar para a superação do transtorno.

"Várias atividades são importantes: exercício físico, psicoeducação, terapia ocupacional, remediação cognitiva e emprego, para que a pessoa se integre socialmente. A psicoterapia é muito empregada, e as associações de pacientes são benéficas para fornecer apoio e informações adicionais", salienta Del Porto.

A quebra de preconceitos e da visão estereotipada de que a depressão, seja uni ou bipolar, está relacionada a fatores morais - como preguiça, falta de força de caráter ou má vontade - também são fundamentais para lidar com a doença e assistir completamente os pacientes - embora ainda sejam um grande estigma a ser combatido na atualidade.

Campanha alerta

Com o objetivo de ajudar os médicos e a população a conhecer melhor e tratar o problema, por meio do acesso a orientações objetivas e seguras, a Daiichi Sankyo lançou, neste mês, a campanha "Depressão bipolar: está na hora de falar sobre isso".

A iniciativa disponibiliza uma página especial (www.estanahoradefalar.com.br) a fim de disseminar informações em diversas mídias.

Além do apoio de influenciadores digitais com foco em saúde mental, a campanha conta com vídeo e websérie inspirados em depoimentos de pacientes sobre o antes e o após o tratamento.

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