Cidade

Saúde e bem-estar social

00:00 · 30.12.2017 / atualizado às 00:35 por Marta Bruno (Editora)

No ano em que Estado e Capital destacaram-se na incidência de doenças da atenção básica no Brasil, decaíram na realização de transplantes - serviço historicamente tido como referência nacional - e precisaram recorrer ao setor privado para a efetivação de cirurgias eletivas, por exemplo, a prospecção para a saúde pública local é um dos maiores desafios para as administrações em 2018.

Se o tema não for acatado como revés e enfrentado com transparência, investimento e, principalmente, prioridade, a funcionalidade de todo o sistema estará ameaçada, da atenção básica à terciária.

A sustentabilidade desse processo não é pontual, pois acompanha um quadro nacional com dois fatores fundamentais: mais pessoas utilizando a rede pública e aplicações federais restritas.

Diante disso, o Ceará precisa encontrar estratégias localizadas e específicas para inibir e evitar novos e antigos problemas, como a epidemia de arboviroses oriundas do 'Aedes aegipty', o ressurgimento exponencial da sífilis, o aumento dos índices de HIV entre jovens e os históricos problemas estruturais na rede de atendimento.

Se em anos anteriores a falta de medicamentos, de leitos e de estrutura descentralizada potencializaram o caos em Fortaleza, em 2017 esses fatores ganharam proporções ainda maiores, atingindo alguns dos serviços mais conceituados no Ceará: os de tratamento de cardiopatias, câncer e transplantes.

Questões burocráticas, de transferência de recursos e de compra de medicamentos e insumos não apenas atrasaram procedimentos como impactaram na redução da realização dos serviços, culminando em perdas de vidas e de órgãos que poderiam ser usados em transplantes.

Esses são os extremos. Em torno da problemática deve ser construída uma concepção de que a saúde se solidifica além da relação entre profissional, unidade hospitalar, tecnologias e paciente. O tema deve ser pensado enquanto regulamentação social e educacional que incide diretamente sobre a saúde. Trata-se, portanto, de um projeto de bem-estar social que aprecie não só a vitalidade do corpo e da mente, mas a qualidade da educação, da moradia, do lazer e das relações.

Lições

Em se tratando de educação, pesquisas mostram que o Ceará está trilhando o caminho certo. Em 2017, o Estado alcançou índices históricos e passou, após dez anos, de 32% dos alunos no 2º ano que não sabiam ler, escrever ou entender o que liam, ou seja, não eram alfabetizados, para apenas 0,7% nessa condição. Gestores atribuem a transformação a investimentos na qualificação do professor, à adequação idade-série e ao esforço para manter o aluno na escola e evitar a evasão, que ainda persiste, especialmente no início da adolescência. Em um contexto de conflito social e de violência também com índices históricos, a criminalidade não pode ser mais atraente do que os livros.

Contudo, na Educação, ainda há desafios. A situação não é confortável. A última pesquisa do IBGE em 2017, sobre a área, mostrou que a taxa de analfabetismo no Estado é de 15,2%, mais que o dobro do índice nacional, 7,2%, e a quinta maior do País. Pelo levantamento, 1,9 milhão de cearenses maiores de 14 anos não havia completado o ensino fundamental até o segundo semestre do ano passado.

É essa, portanto, a faixa etária limite para a qual se deve concentrar o esforço de não permitir o primeiro contato com a violência, de garantir lazer, esporte, educação e, acima de tudo, perspectiva no caminho iniciado dentro da escola.

Estiagem

A seca chegou a níveis históricos em 2017 no Ceará. Em setembro, a estiagem atingiu 99,98% do território. Em dezembro, a recarga hídrica chegou a 7% do volume total. Ao longo de todo o ano, municípios entraram e saíram da situação de emergência, conforme decretos federais. Era o prenúncio de um colapso hídrico, não fossem a recarga nos açudes adquirida nos quatro primeiros meses do ano e o gerenciamento do que restou nos maiores reservatórios do Estado. Além disso, ações para rever prioridades (abastecimento humano, agricultura, indústria), controlar as disputas pertinentes às outorgas e incentivar a economia doméstica de água foram fundamentais para o ano terminar com água na maioria dos domicílios.

Este ano começou com expectativa de chegada das águas do Rio São Francisco para o Ceará, por meio das obras da Transposição. Entretanto, uma nova licitação precisou ser feita, meses de atraso desaceleraram o projeto, que entrou dezembro com lentidão e insegurança de que no primeiro semestre de 2018 o Velho Chico ajude no abastecimento.

Mas esse será o período também de chuvas. Ainda não há prognóstico oficial local, porém, institutos nacionais já sinalizam para um inverno dentro da média histórica para o próximo ano. Esta é a mesma esperança dos profetas populares da chuva. É ainda a necessidade da agricultura, da indústria e do cearense que tem aprendido a economizar água dia a dia.

Violência

O Ceará ultrapassou todos os recordes de violência urbana em 2017. Afora as mortes no trânsito e os suicídios, homicídios ultrapassaram os 5 mil casos em um ano, o que potencializou os conflitos dentro dos presídios em abril e deixou a Capital e o Interior em alerta permanente. As facções encontraram força na periferia, marcaram territórios e utilizaram como pretexto para agir no domínio pelo tráfico em bairros de Fortaleza e municípios do Interior. Mas o registro de uma morte aleatória a essas razões fez o Estado ganhar repercussão internacional. Em fevereiro, a travesti Dandara dos Santos, 42, foi vítima de crime homofóbico, sendo agredida por 8 adultos e 4 adolescentes.

Em novembro, mais uma vez o Ceará ganhou destaque nacional. A Escola Educar Sesc negou a matrícula da menina Lara para o ano de 2018, alegando que não tinha como adequá-la ao sistema por se tratar de uma garota transgênero. O caso trouxe à tona a necessidade de se discutir o tema em casa, no ambiente escolar, com crianças, adolescentes e entre adultos. É o que a escola e a família precisam pensar e fazer. Após negociações mediadas pela Defensoria Pública Estadual, houve acordo: Lara terá os estudos custeados pela escola, até a conclusão do ensino médio.

Paic completa 10 anos

Na educação infantil, no ensino fundamental, médio ou no superior, na rede pública ou privada, em 2017 o Ceará alcançou resultados nunca atingidos por estados do Nordeste. Em algumas situações, foi além da média nacional, a exemplo da média brasileira em Leitura, Escrita e Matemática das crianças que estavam matriculadas no 3º ano do ensino fundamental da rede pública. Neste ano, também se comemoraram os 10 anos de criação do Programa de Aprendizagem na Idade Certa (Paic), que nasceu aqui e foi copiado por outros estados como modelo de gestão que tem o professor como protagonista, regula a aplicação do conteúdo com a idade e eleva a autoestima do aluno.

Transposição é retomada

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A transferência de água do Rio São Francisco para o Ceará passou por um ano de incertezas. Após sete meses para a licitação ser concluída, a obra recomeçou com promessa de intensidade, mas terminou o ano com lentidão e sob questionamentos acerca da garantia de que ficará pronta a tempo de a água chegar ao Ceará em 2018. A quantidade de trabalhadores é pequena, há sinais de abandono em muitos e importantes pontos da obra e equipamentos que já deveriam estar prontos, como pontes, sequer começaram a ser feitos. Além disso, outras questões emergem: a necessidade cearense surge em paralelo à precisão de outros estados e à sobrevivência do Rio São Francisco diante de tamanha demanda. Estamos esperando, mas o Velho Chico vai esperar?

Castanhão tem menor volume da sua história

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O Açude Castanhão, o maior do Ceará, chega ao fim do ano com 2% de volume d'água. Nunca esteve com tão pouca reserva desde que foi concluído, em 2003. A expectativa é que, com chuvas em 2018, o reservatório acumule água para, ao longo do ano, abastecer municípios que dependem da água do açude. A polêmica entre Dnocs e Cogerh sobre a classificação ou não de volume morto para o açude, nesse contexto, é mais um entrave para que ações garantam segurança hídrica para a população. À medida que a situação se agravou, a liberação da vazão foi sendo diminuída ou então interrompida para alguns setores e regiões, o que gerou contendas tanto no campo como em zonas urbanas.

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