Radiadora

'Voz da Liberdade' faz parte do dia a dia de Orós

A partir das 6 horas, moradores desta cidade da região Centro-Sul cearense são acordados, todos os dias

O sistema antigo acabou incorporado ao patrimônio cultural ( Fotos: Honório Barbosa )
00:00 · 09.06.2018 por Honório Barbosa - Colaborador

Orós. Todos os dias, bem cedo, a partir das 6 horas, moradores desta cidade da região Centro-Sul cearense são acordados com as mensagens e músicas que ecoam a partir da radiadora Voz da Liberdade. Há 50 anos, o empreendimento faz parte do cotidiano dos habitantes e une tradição e comunicação. Um sistema antigo, que resiste ao tempo, e acabou incorporado ao patrimônio cultural local.

Muita coisa mudou nas últimas cinco décadas. A cidade ganhou duas emissoras de rádio FM, os televisores estão presentes em todas as casas, os telefones celulares e a internet fazem parte da rotina das famílias. O centro comercial também conta com uma rede de caixas de som instaladas em postes, que divulgam publicidade ininterrupta. Há múltiplas formas de comunicação. Mas lá na casa de número 62, da Rua Valdevino Praxedes da Costa, em uma parte elevada da cidade, estão instalados o estúdio e uma torre com quatro alto falantes que integram o sistema da radiadora.

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Tradição

O idealizador é o aposentado, José Ribeiro Dantas, prestes a completar 91 anos, no próximo dia 19 de junho. Até abril do ano passado, Dantas apresentava diariamente o programa "Despertador Escolar!", que ficou a cargo da filha, professora da rede municipal de ensino, Regina Dantas. "A gente divulga avisos dos moradores, perda de chaves, celulares, preço das frutas e verduras, convite enterro, faz publicidade de lojas", explicou a docente e locutora.

O programa tem duração média de 40 minutos. Depois, a radiadora silencia pelo resto do dia. "Quando meu pai ainda trabalhava como locutor, funcionava pela manhã e no fim da tarde, mas sou professora e não tenho tempo", justificou Regina Dantas. "Os anos se passaram, novos hábitos surgiram, mas os moradores gostam da radiadora que informa sobre as coisas da cidade", acrescenta.

A unidade funciona como rádio comunitária, não há lucro, mas apenas o prazer de comunicar. "Queremos manter a tradição", reforça Regina Soares. A neta do fundador, Vitória Ramilly Dantas, de apenas 8 anos, já ensaia algumas leituras e diariamente lê o anúncio da loja do pai, Ramilton, de venda de produtos importados e variedades. "Amo a radiadora. É o lugar mais importante para mim", diz com sorriso no rosto.

"A radiadora de 'seu' Dantas faz parte da tradição e da cultura local e não me incomoda, sinto falta quando não funciona", diz a dona de casa, Priscila Vládina Costa Andrade. "Cresci ouvindo a radiadora antes de ir para a escola", emenda.

A radiadora foi o primeiro sistema de som instalado na Cidade que informava sobre preços de produtos, horários de missa, avisos de morte e sepultamento, tocava músicas e fazia publicidade. "A gente fica sabendo o que aconteceu", disse Benilce Correia Lima, aposentada. "Às vezes sai aviso até de São Paulo, de quem foi morar lá", acrescenta.

Referência

O aposentado José Ribeiro Dantas é referência histórica entre os moradores da cidade. Ele era radiotécnico. "Aprendi fazendo quermesse, animando leilões nas festas de santos padroeiros. Ninguém me ensinou", conta. Ele começou com radiadora em 1952, antes de vir morar em Orós, em Aquiraz, na localidade de Lagoa Seca dos Cocós. "Nasci na antiga Belém do Rio do Peixe, hoje, Uiraúna, na Paraíba".

Dantas relembra que passou a fazer o programa pela manhã bem cedo, a partir das 5 horas, para acordar os operários que iriam entrar no turno matutino na antiga fábrica de beneficiamento de algodão (Eliba), do empresário Eliseu Batista. "No início, apresentava o despertador musical", recorda.

Simplicidade

O estúdio da radiadora é simples, uma mesa de controle, microfone, dois rádios. "Aqui está a tradição e o prazer em informar. Os moradores dizem que, se não sair na 'Voz da Liberdade', não é verdade", afirma.

Ao longo dos anos, há fatos engraçados e um deles é relembrado pela filha, Regina Dantas. "Uma vez papai foi ler um convite enterro e colocou como fundo musical um forró, em vez de uma música adequada", disse. "Os moradores comentaram o erro". Quem enviava aviso com letras ilegíveis, o velho locutor sem cerimônia repreendia no ar. "Que letra feia, se não souber escrever, peça a quem saiba".

Documentário

A Escola Livre de Artes (ELA), do Grupo Imagens de Teatro, da cidade de Fortaleza, e que tem por objetivo fomentar arte e cidadania em Orós, está realizando um documentário em vídeo e fotos sobre a radiadora "Voz da Liberdade" e o seu fundador. "Estamos resgatando a história, essa tradição que se mantém viva", explicou o coordenador do projeto, Édson Cândido.

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"Para mim, o lugar mais importante da casa é a radiadora, que eu amo. Já comecei a falar, fazer a propaganda da loja do meu pai, pela manhã bem cedo, antes de ir para a escola"

Vitória Ramilly Dantas

Estudante

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"Cresci ouvindo a radiadora de 'seu' Dantas, que acho importante porque deixa a gente informada e não me incomoda funcionar bem cedo. É uma tradição que precisa ser mantida"

Priscila Costa Andrade

Dona de casa

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