Além da arena

Vida e sustento de milhares de pessoas no Nordeste

O negócio é lucrativo. São milhões de reais todos os anos, em mais de 600 eventos, segundo a ANV

Segundo os realizadores, nos últimos anos, o esporte avançou bastante e há um rígido controle, tanto com os bois, quanto com os outros animais ( André Costa )
00:00 · 15.07.2017 por André Costa - Colaborador
Os tratadores explicam que os cavalos passam por tratamento especial ( Honório Barbosa )

Juazeiro do Norte/Iguatu. A jornada até chegar aos grandiosos eventos, com premiações suntuosas, é árdua e mobiliza uma cadeia de inúmeros profissionais. Do surgimento, entre os séculos XVII e XVIII, até os dias atuais, muita coisa mudou. Do tímido público restrito aos sítios e fazendas, sobretudo no Nordeste, região onde o esporte ganhou força, às arenas lotadas, com públicos que se equiparam às grandes partidas de futebol.

A história de vida do juazeirense Gilson Sampaio, 39, se confunde com a vaquejada. Cresceu na roça, de onde surgiu, ainda na adolescência, a paixão por cavalos e bois. Sem estudo, ele se dedicou a cuidar de animais caros. Após quase uma década como tratador, o vaqueiro entrou no mundo das vaquejadas. Junto com o esporte, viu a vida prosperar. Passados mais de 20 anos desde sua primeira disputa, hoje é conhecido no meio, e considerado um dos vaqueiros mais experientes do Ceará.

"Perdi as conta de quantas vaquejadas fui campeão", diz. Dentre as conquistas, Gilson acumula dois carros, várias motos e inúmeras premiações em dinheiro. O negócio é lucrativo. São milhões movimentados todos os anos, em mais de 600 eventos, segundo a Associação Nacional de Vaquejadas (ANV). Competidores chegam a ganhar até R$ 150 mil em uma única disputa. Há mais de 40 anos atuando no mundo das vaquejadas, Daíta Rolim Rocha, confirma: o esporte é, de fato, uma mina de ouro.

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O último evento, realizado no Cariri, foi encerrado na semana passada. A 41ª Vaquejada de Juazeiro do Norte, com duração de quatro dias, considerada, por organizadores e participantes, "sucesso de público e premiação". Foram R$ 200 mil em prêmios. Davi Rolim, filho de Daíta, foi o vencedor de uma das três categorias. A vaquejada reuniu mais de 100 mil pessoas e teve quase duas mil senhas vendidas, o que representa uma estimativa de 600 vaqueiros. Segundo Carlos André, um dos organizadores, o evento movimentou mais de R$ 1 mi, "entre exposições, corrida, shows e outros negócios, como compra e venda de animais".

Há muito envolvido

"Não podemos falar em vaquejada e pensar apenas nos eventos, no dia das disputas. Vai muito além disso. São milhares de pessoas envolvidas para organizar uma vaquejada e outras centenas para cuidar dos cavalos, por exemplo. É um esporte que emprega milhões de pessoas e movimenta diversas cadeias da economia", avalia. Somente em sua fazenda, no Haras Davi, em Juazeiro do Norte, são mais de 100 animais, 20 deles cavalos já prontos para correrem nas vaquejadas. Todos da raça quarto-de-milha, a mais utilizada para a prática do esporte. "É uma raça de muita explosão. Atinge altas velocidades em um curto espaço. Além disso, é muito dócil", explica o veterinário Vinícius Tenório Máximo, 26. O preço de cada cavalo, segundo Daíta, pode variar entre R$ 10 mil a um R$ 1 milhão. "Depende da linhagem, de quantos torneios já ganhou, tudo isso interfere no preço do cavalo", conta. Para cuidar de um único equino corredor, são demandados, conforme explica Davi, cerca de três profissionais. "Temos o tratador, vaqueiro, veterinário", pontua.

Renato Pereira, conhecido como Catatau, é um dos responsáveis por cuidar dos equinos no Haras Davi. No meio há oito anos, ele conta que a vaquejada transformou sua vida. "Se não fosse ela, não saberia como sustentar minha família". Entre os planos futuros, acrescenta, está seguir os passos de Gilson. "Também corro vaquejada, ainda na categoria amadora, diferente do Gilson que é profissional e vive exclusivamente disso, mas espero um dia evoluir e passar a ser um bom vaqueiro", conclui.

Temores

Tratadores, criadores, vaqueiros, comerciantes e organizadores de eventos temem a proibição definitiva da vaquejada. A avaliação entre eles é consensual: "Se acabar, milhões de pessoas vão perder o emprego. Uma infinidade de famílias vai ficar sem o sustento", afirma Daíta.

Para o comércio, segundo o empresário iguatuense Jair Victor de Souza, 42, "seria devastador". Com loja especializada em suplementos agrícolas e estabelecida em Iguatu, na região Centro-Sul do Estado, Jair detalha que durante o imbróglio do Supremo Tribunal Federal (STF), iniciado no ano passado, as vendas caíram consideravelmente.

"Não se trata só da ração. Aliás, a alimentação é apenas uma pequena parte do que é consumido por esses animais de alta performance. Existem os equipamentos de corrida, tanto para os vaqueiros, quanto para os animais; suplementação, remédios e tantas outras coisas que, caso fosse proibida a vaquejada, teriam o fluxo de vendas reduzidas quase a zero. Ou seja, seria um impacto muito grande para o Brasil", relata Jair, que também é criador. Segundo ele, por mês, cada animal pode custar aos criadores em média de R$ 1 mil.

Para Vinícius Tenório, além do impacto econômico, tem a questão da destinação desses cavalos "O que seria feito com esse animais?", questiona. "A gente sabe que, acabando a vaquejada, os bois continuariam sendo abatidos nos matadouros e nada mudaria. Agora e os cavalos? O que seria feito deles? Criar, arcar com o investimento mensal altíssimo para deixá-los parados nas fazendas? Muitos criadores e fazendeiros não iriam fazer isso, eles destinariam, provavelmente, o local onde os cavalos ficam, para criação de gado e os cavalos acabariam parando nas ruas. Isso sim é maltrato", pondera o veterinário.

Em outubro do ano passado, quando decidiram derrubar a Lei que regulamentava a vaquejada no Estado do Ceará, ministros do STF consideram que a atividade impõe sofrimento aos animais e, portanto, fere princípios constitucionais de preservação do meio ambiente. A justificativa é amplamente rechaçada por quem vive no meio. "Não existe isso. Nos últimos anos, o esporte avançou bastante. Há um rígido controle, tanto com os bois, que agora têm os rabos protegidos e não sofrem qualquer maltrato, quanto com os outros animais, que passam por cuidados específicos após cada vaquejada", detalha Máximo.

O tratador Catatau pondera que, após as corridas, os cavalos passam por uma triagem. "Os mais cansados, recebem aplicação de soro e compressas de gelo, além de receberem repouso especial", pontua. "Tratamos como se fossem os nossos filhos, por isso investimos tanto dinheiro e tempo de nossas vidas nesses equinos", finaliza Daíta.

Apesar do temor, eles acreditam que as chances de o esporte voltar a ser proibido são remotas. "Essa proibição serviu para que vários amantes do esporte dessem as mãos e lutassem para a prática continuar. Os deputados e senadores, principalmente do Nordeste, lutaram para a continuidade das vaquejadas por saberem da sua importância para nossa região. Hoje somos mais fortes", finaliza Carlos André.

Contrários

Se a vaquejada conta com muitos defensores no Estado, a quantidade de adversários da modalidade não é pequena. Segundo os críticos, o esporte pode até ser parte da cultura nordestina, mas, para eles, a prática é uma forma de tortura aos animais, e não há maneiras de reverter isso.

Segundo a advogada Geuza Leitão, presidente da seção cearense da União Internacional de Proteção Animal (Uipa-CE), a vaquejada é "uma crueldade e um crime ambiental". Ela alega que é preciso que a sociedade compreenda que o boi é um ser que, assim como os humanos, possui direitos, e eles precisam ser preservados. "A gente não pode suportar mais tanta crueldade com os animais. Aquilo ali é sadismo. Como a pessoa se diverte vendo um animal sofrer?", questiona. Segundo ela, as tentativas do Congresso Nacional de ressuscitar a autorização para as competições baseiam-se em "brechinhas na Lei". A advogada acredita que o Supremo Tribunal Federal (STF) deva manter a proibição da vaquejada. Para ela, "os argumentos contrários são muito fortes".

O vereador Célio Studart (SD) - presidente da Frente Parlamentar de Defesa do Bem-Estar Animal, na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) - também acredita que a proibição deve ser mantida. Para ele, seria uma incoerência do STF decretar a inconstitucionalidade da lei estadual e manter a validade de legislação com conteúdo semelhante apenas porque sua origem foi, ao invés da Assembleia Legislativa, o Congresso Nacional. Para ele, a decisão de deputados federais e senadores é uma tentativa de "burlar a decisão do Supremo". Acredita que a regulamentação da vaquejada por emenda constitucional não garante uma mudança no resultado na Corte Suprema. "Emendar a Constituição não significa que os princípios constitucionais estejam sendo respeitados".

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