Trabalho nos Correios é tradição familiar - Regional - Diário do Nordeste

SAUDADE DO TELÉGRAFO

Trabalho nos Correios é tradição familiar

21.06.2008

Crato. Os sinais do código morse ainda estão tilintando no cérebro de Rui Alberto Lins Rocha. A profissão sequer existe. O antigo telegrafista que iniciou suas atividades nos anos 50 continua na ativa no Crato, aos 78 anos, agora, trabalhando no setor de arquivo dos Correios. Talvez, o mais antigo funcionário dos Correios em atividade no Estado, Seu Rui, como é conhecido entre os colegas, todos os dias pega o batente. Um ofício que virou hobby em sua vida. Uma herança do pai agente postal telegráfico, Raimundo Rocha Júnior.

Trabalhar nos Correios é quase uma tradição familiar. Uma tia e o pai já atuaram, e agora, possivelmente, um neto esteja para ingressar na empresa. Em 1950, o então Departamento de Correios e Telégrafos (DCT) possuía aparelhos que exigiam uma certa habilidade dos operadores. Rui conta com saudosismo toda a trajetória desse processo. Para ele, a graça mesmo era ouvir o barulho das máquinas.

São equipamentos obsoletos. A dedicação era necessária ao ofício. Na mente está gravado cada momento, e essa mudança também corria para a sociedade, no comportamento das pessoas. A tecnologia vinha com tudo, mudando os parâmetros no quesito velocidade na comunicação.

Pelos fios, não mais eram passadas as informações a partir de meados dos anos 70. Ele lembra de situações onde havia o fim da linha e dali não passava mais nada e quando os fios quebravam era um isolamento para quem ficava do lado de cá.

As ondas curtas vieram dar um auxílio importante na dinâmica de todo o processo. Era o que o telegrafista chama de “progresso tecnológico” chegando. As máquinas automáticas vieram passar telex. Só que antes do telex, para quem não sabe ou não lembra, veio uma versão mais popular, o Gentex. Por esse meio, era possível escrever breves informações. “Um tinteiro deixava as palavras marcadas no papel, com auxílio de uma fita. A goma endurecia o papel. Parecia uma tapioca”, lembra Rui.

Lembranças

Em alguns momentos ele lembra de situações em que um dos telegrafistas não tinham uma caligrafia fácil de decifrar. Um telegrama foi enviado para Fortaleza e teve que voltar para a rapaz que o escreveu e nem mesmo o autor conseguiu entender a mensagem. Um trabalho era mesmo artesanal. Outro caso de um funcionário relapso, que deixa as fitas com as mensagens passar... Certo dia, uma cabra entrou nos Correios e engoliu a fita que registrava os textos.

Rui afirma que chegou a passar por várias cidades exercendo a sua profissão. Foi ao fim da linha, em Crateús, até o Vale do Jaguaribe. Do tempo em que se carregavam cartas aos montes, em lombo de jumento. Isso acontecia do município de Jardim para o Crato, onde eram centralizados os serviços para distribuição.

Fim

Com toda a evolução, se fazia um prognóstico, conforme Rui, de que o telegrama chegaria ao fim. Mera falácia. Tem suas características, casos até de formalidade, como cumprimentos, aniversários e condolências no caso de situações mais tristes, como falecimentos. Acompanhar todo esse processo de mudanças é um privilégio. São anos de dedicação e um filme na mente, jamais esquecido. Parece um conto, de um velho telegrafista.


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