Séculos de história

Sítio São Romão preserva tradição rural em Orós

A localidade mantém o antigo engenho de cana-de-açúcar e a casa grande da fazenda, com mais de 40 cômodos

A história do lugar é marcada pela exploração agrícola, criação de gado e a produção de cana-de-açúcar. Quem visita o Sítio São Romão acredita que a comunidade está presa aos costumes do passado ( Foto: Vandenberg Belém )
00:00 · 07.07.2018 por Honório Barbosa - Colaborador
Em Orós, o patrimônio cultural rural é composto por diversos sítios, vilas e fazendas, que integram um conjunto de registros materiais e imateriais ( Foto: Vandenberg Belém )

Orós. O Sítio São Romão, na zona rural deste Município do Centro-Sul do Ceará, preserva casarões e tradições antigas. A localidade mantém, ainda, o antigo engenho de cana-de-açúcar, a casa grande da fazenda, com mais de 40 cômodos. Os moradores conservam uma forte religiosidade católica e o gosto pelas atividades rurais. Outra característica do lugar é a união das famílias.

O acesso ao Sítio São Romão é pela CE- 470, por onde passava a antiga estrada de ferro que ligava Iguatu a Orós para o transporte de material e de operários, na construção do reservatório, na década de 1950. Não há dados oficiais, mas acredita-se que a chegada dos primeiros moradores foi por volta de 1850.

A história do lugar é marcada pela exploração agrícola, criação de gado e a produção de cana-de-açúcar. No Sítio, ainda é possível encontrar vestígios da presença dos primeiros moradores, principalmente na casa grande de antiga fazenda. O imóvel preserva as mesmas características de quando foi construído.

O Sítio já foi cheio de vida e bastante movimentado. "Lembro que aqui nunca faltavam visitantes, moradores trabalhando, crianças brincando", relembra o agricultor José Porfírio, filho do casal, Maria Josino e João Porfírio, fundadores da fazenda.

As lembranças do casal, que criou 13 filhos, estão presentes entre os descendentes. As fotos na parede da sala principal remetem ao passado. Cada canto da casa preserva mobílias antigas: camas, armários, baú, estantes com livros, potes de barro, o velho fogão a lenha. Há o sótão onde era guardada a safra de milho colhida a cada ano. "Essa casa não era desse tamanho, foi crescendo com os nascimentos dos filhos e as safras, porque, além dos quartos, há muitos armazéns", explica José Porfírio.

Em uma das salas, há uma grande mesa de madeira maciça com mais de três metros de comprimento. O móvel tem mais de 200 anos, segundo o herdeiro. "Serviu até de palco para o poeta Patativa do Assaré fazer uma cantoria", recorda. "Eu devia ter uns 12 anos, mas lembro bem desse momento. Patativa fez essa cantoria ao lado de outro violeiro, em cima dessa mesa, no terreiro". Outra recordação do antigo morador era a fartura de carne de carneiro que era servida no almoço.

Existem vários armazéns anexos à casa, onde ficava guardada a produção colhida no campo, os sacos com arroz e os tonéis de zinco que conservavam os grãos - feijão e milho. Já em outro cômodo, três grandes caixas de madeiras guardavam as rapaduras produzidas no engenho da fazenda. "Era uma época de fartura, quando se tinha muita cana e gente disposta para trabalhar. Hoje o engenho está desativado por falta de produção. A última moagem foi há dois anos. A seca prejudicou, pois, sem água, não tem produção", comenta o agricultor Aristóteles Porfírio.

A história da família foi construída com muito trabalho e união dos 13 filhos do casal fundador da fazenda. Todos nasceram e se criaram na roça. Com o passar do tempo, alguns foram embora, mas os que ainda moram em São Romão, trabalham juntos, nas mesmas áreas e na lida ensinada pelo pai.

Mesmo com dificuldades, os proprietários lutam para preservar a história do lugar, os costumes e manter a casa grande. Eles promovem mutirão para pintar e recuperar alguns cômodos que necessitem de reparos. "Não temos dinheiro para fazer tudo de uma só vez", diz José Carlos.

Memorial

Um memorial da família está sendo organizado. No local, estão guardados equipamentos, objetos e utensílios da fazenda, no auge da atividade econômica e social, a riqueza que esse patrimônio material teve no passado. A quem visita o Sítio São Romão, parece que a comunidade está presa aos costumes do passado.

Os moradores sentam nos alpendres depois da lida no campo e dos afazeres domésticos para colocar as conversas em dia, ao cair da tarde. Plautília Porfírio diariamente acende uma fogueirinha no terreiro da sua casa, deixa uma garrafa de café quentinha e outra de água, para as visitas que costuma receber todas as noites. "Mesmo com a chegada da energia elétrica, continuo fazendo o fogo para uma roda de conversa com os amigos e parentes. Aprendi como meu pai", conta.

George de Lima mora em Recife e, pelo menos uma vez por ano, volta a São Romão para matar saudades. "É uma volta ao passado, recordação das festas, das celebrações religiosas do padroeiro São Luiz de Gonzaga. Eram tempos bons", conta.

Mapeamento

Em Orós, o patrimônio cultural rural integra vários sítios, vilas e fazendas, que compõem um conjunto de registros materiais e imateriais. Para o ativista cultural Zé Vicente, cantor e compositor, é urgente criar estímulos à preservação da cultura local. Ele defende um mapeamento para subsidiar a criação de políticas de preservação das atividades culturais, religiosas e patrimoniais. Zé Vicente, fundador da organização sociocultural Sertão Vivo, frisa que o patrimônio cultural rural cearense é muito rico, em histórias, com espaços privilegiados para pesquisas e a prática do turismo. "Cada local apresenta suas características específicas, que diferem do patrimônio cultural urbano", aponta.

A religiosidade é outro traço marcante. A devoção ao padroeiro, São Luiz de Gonzaga, começou antes da construção da capela, há 81 anos, no Sítio Betânia.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.