“Viúvas do veneno”

Série de reportagem causa impacto entre autoridades

01:18 · 18.04.2013

Cobertura especial é publicada durante “Semana Zé Maria do Tomé”, ambientalista morto há três anos

Fortaleza. O primeiro dia da série “Viúvas do Veneno”, publicada ontem neste jornal, causou espanto e preocupação dos leitores e autoridades com a contaminação por agrotóxicos. A história de intoxicação e morte, contada a partir do relato das viúvas de trabalhadores rurais, gerou reflexão nas redes sociais, órgãos ligados ao meio ambiente e na Assembleia Legislativa do Estado. Enquanto isso, tem início hoje a Semana Zé Maria do Tomé, em Limoeiro do Norte, de protestos contra uso de agrotóxicos e os três anos do crime impune que vitimou o líder comunitário e ambientalista. Amanhã, tem sequência a série especial no Caderno Regional.

Maria da Conceição é viúva de Valderi Rodrigues, morto após intoxicação. O Diário do Nordeste acompanhou o agricultor até a morte. Foto: waleska santiago

“Essa reportagem ajuda a consolidar a questão sobre o uso de agrotóxicos em nosso Estado. Quando o jornal se propõe a discutir esse assunto, está colocando também na pauta de discussão da sociedade”, afirma Paulo Henrique Lustosa, presidente do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente.

A entidade reconhece que o acompanhamento jornalístico exclusivo, desse assunto pelo Diário do Nordeste, tem servido de pauta nas reuniões do Grupo de Trabalho, criado ao final de 2011, envolvendo o setor de agronegócio, de agricultura familiar, fabricantes de venenos e os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização e regulamentação do comércio.

“Regulamentação, orientação dos trabalhadores, fiscalização e destinação correta das embalagens. A nossa prioridade é o não-uso de agrotóxicos, mas quando isso não é possível, tentamos que isso aconteça da melhor forma possível”, afirma o presidente do Compam.

Foi o Caderno Regional que levantou as primeiras denúncias envolvendo contaminação na Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte. As denúncias de famílias com a aplicação de agrotóxicos, em 2004, foi o primeiro momento jornalístico, que culminou nesta série “Viúvas do Veneno”.

Fac-símile da primeira parte da série jornalística especial que acompanha casos de vítimas em Estados do Nordeste. Amanhã segue a segunda parte

Apuração

Durante sete meses, o repórter Melquíades Júnior debruçou-se na pesquisa até reunir as principais fontes: mulheres que acompanharam os últimos anos ao lado de trabalhadores com intoxicação crônica por veneno. Alguns personagens eram acompanhados pela reportagem durante os últimos anos de vida, como o caso de Valderi Rodrigues, abordado no primeiro dia da série jornalística.

Com a repórter fotográfica Waleska Santiago e o motorista Welton Serpa, a equipe de reportagem ainda percorreu, aproximadamente, 6 mil quilômetros entre os Estados de Ceará, Paraíba, Pernambuco e Bahia.

Em São Paulo, foram feitas entrevistas com as principais autoridades do agronegócio e representantes de empresas fabricantes de veneno.

“Sabíamos tratar-se de um tema polêmico, controverso e delicado, envolvendo grupos de mercado e a sociedade, então tivemos a preocupação ainda maior com a nossa responsabilidade jornalística na pesquisa e na apuração. Além dos relatos das famílias, tivemos acesso autorizado a prontuários médicos, estudos científicos em todo o País e documentos judiciais”, explica Melquíades Júnior, que há sete anos acompanha a problemática do uso indiscriminado de agrotóxicos.

O presidente da Federação Cearense dos Trabalhadores Rurais (Fetraece), Moisés Bras, elogiou o primeiro dia da série, ressaltando tratar-se de um alerta. “Com essa abordagem, a sociedade irá refletir tanto sobre a desinformação de muitos assalariados rurais quanto ao uso incorreto desses produtos como os altos investimentos feitos no incentivo ao comércio de venenos. Às vezes há interesses políticos mais preocupados com os negócios do que a saúde desses trabalhadores”, afirma Moisés.

O deputado estadual Dedé Teixeira defendeu, na Assembleia Legislativa, que “é preciso enfrentar com responsabilidade a questão dos agrotóxicos como uma necessidade urgente por parte de autoridades, empresas, pequenos e grandes produtores. Não se discute a importância do aumento da produtividade das lavouras brasileiras, mas há de se estabelecer um limite para o uso dessas substâncias, muitas delas proibidas em outros países e largamente utilizadas aqui”, apontou. O advogado Claudio Silva, militante de Direitos Humanos na área de justiça ambiental, comenta que ao valer-se de rigorosas fontes e bases científicas e acadêmicas, “a reportagem adentra no assunto inquietante e que deve mobilizar toda a sociedade cearense”.

A repercussão da primeira parte da série “Viúvas do Veneno” também prolongou-se durante todo o dia de ontem na Fanpage do Diário do Nordeste. “Assim caminha a humanidade, entre esses e outros absurdos. A nossa realidade, diante da morosidade da Justiça, é triste e cruel”, afirmou a administradora hospitalar Karoline Soares.

Semana Zé Maria

De hoje até o próximo domingo, centenas de militantes sociais, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Estadual do Ceará (Uece), organizações como Cáritas Diocesana, da Igreja Católica,Via Campesina e Movimento Conlutas, concentram-se em Limoeiro do Norte na 3ª Semana Zé Maria do Tomé, em alusão aos três anos do assassinato do líder comunitário da Chapada do Apodi. Até hoje ninguém foi preso.

Às 19h, no bairro Antônio Holanda, haverá o lançamento local da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que reúne as entidades acima citadas.

Amanhã, haverá a divulgação dos resultados do Dossiê Agrotóxicos, organizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). No sábado, acontece a 3ª Romaria dos Mártires, ato ecumênico reunindo militantes sociais e famílias de trabalhadores rurais numa procissão desde o local em que José Maria Filho foi assassinado até a praça central da comunidade do Tomé, em Limoeiro do Norte.

Negativo
171 óbitos por agrotóxicos de uso agrícola foram registrados no Brasil no ano de 2010, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Toxicológicas.

Mais Informações
Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam)
Rua Oswaldo Cruz, 2366
Bairro Dionísio Torres- Fortaleza
Telefone: (85) 3101-1235

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