Opção mais barata

Sebos resistem em Juazeiro e Crato, apesar da pouca procura

Para os que vendem livros didáticos, o período antes das aulas garante a renda no restante do ano

A procura por literatura infantil ainda é grande na Galeria José Viana, localizada no Centro de Juazeiro do Norte, mas os proprietários de sebos reclamam da pouca circulação das obras na Região ( Foto: Antonio Rodrigues )
00:00 · 28.04.2018 por Antonio Rodrigues - Colaborador

Crato/Juazeiro do Norte. A região Cariri se notabilizou, nos últimos anos, como um polo universitário que atrai estudantes até de estados vizinhos. São cerca de 80 cursos de graduação em mais de uma dezena de instituições. No entanto, mesmo com o alto número de alunos, os sebos ainda encontram dificuldades de se manterem nestes dois municípios pela pouca demanda. Nos mais tradicionais, que vendem livros didáticos, o período antes das aulas garante a renda até no restante do ano.

Em Juazeiro do Norte, na popular Galeria José Viana, no Centro, existem quatro sebos, um ao lado do outro. Todos são administrados por quatro irmãos: Patrícia, Williams, Alex e Geraldo Júnior. A mãe, Maria do Carmo Lima, deixou os estabelecimentos antes de falecer e foi uma das pioneiras neste tipo de negócio na região.

No corredor estreito, os quatro se ajudam. Se um cliente não encontra o produto, indica o outro irmão. E assim tocam o negócio há quase duas décadas. Patrícia Lima, conta que a procura pelos livros didáticos no início do ano mantém os estabelecimentos porque o preço é mais acessível. No resto do ano, são os best-sellers, mangás e algumas livros acadêmicos. Alguns são novos, mas a maioria é usada. A comerciante explica que seus irmãos viajam para capitais como Teresina, João Pessoa, Natal e Fortaleza para adquirem os livros, porque, segundo ela, em Juazeiro, o fluxo de compra e venda de livros é menor. "Se fosse esperar o pessoal da região, acho que a gente nem tinha loja", completa.

Seu irmão Geraldo Lima Júnior afirma que a literatura estrangeira está tendo maior procura porque o público jovem é o maior consumidor deste tipo de leitura. "Até porque muitos livros viraram filmes", completa. Por outro lado, ele sentiu uma queda na procura por literatura brasileira e produção regional.

Os preços vão desde dois livros por R$ 5 até didáticos de R$ 239. Mesmo sendo mais baratos, Patrícia conta que os sebos não atraem muitos universitários. "Eles têm a ideia de que porque é sebo vai encontrar barato, de R$5, R$ 10. Não é bem assim. Tem que ser livro atual".

A comerciante acredita que a cultura do estudante mudou. "Há 10 anos bastava ter o assunto, que eles procuravam", completa. Mesmo assim, ela defende a qualidade dos produtos dos sebos. "Tem que parar esse estigma que livro de sebo é velho. É seminovo, atualizado", garante Patrícia. Mesmo assim, sua loja ainda mantém um público de universitários, principalmente de cursos como História e Filosofia. De áreas como Direito e Medicina, é mais difícil. "É bem desmotivante. Não sei como vivem sem comprar livros, só tirando cópia", provoca.

Para o aposentado Joyce de Alencar Maia, um dos clientes, os sebos estão cada vez mais raros. Ele valoriza, pois acredita que oferecem os produtos mais baratos e ainda é possível encontrar obras clássicas originais. "Hoje, está acontecendo um grande crime: estão pegando as obras clássicas, resumindo e republicando. Isso é horrível para quem já leu, desrespeita a obra, os autores", acredita.

O antigo sebo de Geraldo Júnior se tornou recentemente um estacionamento para motos e ele voltou à Galeria José Viana. Apesar de reconhecer que houve uma queda na venda, pois algumas escolas estão usando apostilas, afirma que a decisão foi para diversificar o investimento. Além do estacionamento e do sebo, tem uma loja de folheados.

Adaptação

No Crato, as professoras Sandra Leite e Samara Inácio resolveram apostar na criação de um sebo a partir de uma carência de livrarias e sebos no Município. No início, funcionava somente com livros usados, mas aos poucos foram percebendo uma certa rejeição. Hoje, as edições novas são maioria e elas não trabalham com livros didáticos. Além disso, ampliaram o negócio e tornaram a Livraria e Sebo Kariri também papelaria. "A gente teve que se adaptar", conta Sandra.

Além do ponto comercial no Centro, as duas participam de eventos e, também, estão presentes na Estante Virtual. Inclusive, a loja mudou de local porque o antigo espaço, um casarão do início do século XX, dava uma aparência diferente para os consumidores. "Muita gente falou que não ia pela ideia de sebo, que são livros sujos e velhos, mas a gente faz todo trabalho de limpeza, higienização, tira os nomes dos antigos donos", explica.

Samara, que idealizou o Sebo Kariri, conta que passou boa parte de sua vida frequentando sebos em Fortaleza, sua cidade natal. "Quando vim para cá senti falta desse tipo de lugar para visitar, comprar obras raras", conta. O primeiro acervo da loja foi de sua biblioteca pessoal, mas, para ampliar, teve que viajar para comprar, porque, no Crato, pouca gente vendia. "Aqui não tem um giro como nas capitais. As pessoas não vendem. Aí tem deslocamento, passagem, alimentação, acaba encarecendo o livro", completa Sandra.

Para Samara, no Cariri o consumo é muito diferente de Fortaleza, que mantém sebos com mais de 40 anos e se tornam ponto de encontro de leitores. "As pessoas não têm preconceito com livro usado", garante. Por isso, além da loja, as duas trabalham dando aula. "Se não tiver outra renda não se sustenta", completa Sandra.

Durante os 10 anos da Livraria e Sebo Kariri, elas encontraram uma diversidade de objetos entre as páginas dos livros. Santinhos, bilhetes, cartas, flores. Tudo guardado por Sandra. "Enquanto livro novo tem aquele cheiro gostoso, o usado vem carregado de histórias", conta.

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