Seca e poluição

Rio Acaraú tem seu leito encoberto por mato e lixo

O que preocupa os pesquisadores é a degradação contra o rio, dentro do perímetro urbano de Sobral

A imagem do rio seco impressiona quem já testemunhou as cheias do Acaraú ( Foto: Marcelino Júnior )
00:00 · 30.12.2017 por Marcelino Júnior - Colaborador
O despejo constante de resíduos sólidos e esgotos agrava a condição do rio, que vem sofrendo com seis anos de chuvas abaixo da média no Estado do Ceará. Isso acaba repercutindo nos açudes que fazem parte da sua bacia hidrográfica ( Foto: Marcelino Júnior )
( Foto: Marcelino Júnior )

Sobral. O Rio Acaraú, que corta a cidade de Sobral, no Norte do Estado, historicamente tem sofrido com a degradação ambiental que se espalha sobre suas matas ciliares, trazendo como resultado o assoreamento, que é o acúmulo de sedimentos, como areia, entulho e lixo, projetados no leito de lagos, rios e demais cursos de água. O fenômeno, provocado naturalmente ou por influência humana, é responsável pela morte das nascentes. No caso do Acaraú, elas se localizam na região da Serra das Matas, no município de Monsenhor Tabosa, no Sertão de Crateús.

De lá, até o estuário (ambiente aquático de transição entre o rio e o mar), o rio recebe esgotos clandestinos, resíduos sólidos e efluentes (esgotos) de áreas destinadas à criação de camarão. Ao todo, são 315 quilômetros de percurso até desaguar no mar e uma diversidade de ataques cometidos por mãos humanas, mas que, de certa forma, ganham o reforço da natureza, como a ausência das chuvas, por exemplo.

Estiagem

Ao longo das seguidas faltas de chuvas regulares durante a quadra invernosa no Ceará, a aparência do rio e sua dinâmica foram sendo alteradas consideravelmente. Na zona urbana da cidade de Sobral, por onde o Acaraú passava caudaloso e inspirava cuidados relacionados à sua correnteza, hoje, a imagem impressiona, de um lado a outro da ponte que o corta.

Por trás da rodoviária, por onde o rio corre, o leito encontra-se mais assoreado, inclusive com maior presença de vegetação. Aqui, sem a revigorante influência da água, os arbustos avançaram sobre o leito, de uma ponta a outra. Um pouco diferente do lado contrário da ponte, que, por ser um pouco mais profundo, ainda conserva uma relutante lâmina de água, onde se debruçam lavadeiras na labuta diária.

Mata ciliar

De acordo com o Ernane Cortez Lima, geógrafo que tem diversos estudos realizados sobre o Rio Acaraú, de modo geral, isso acontece devido a um longo período de estiagem, associado ao intenso desmatamento da mata ciliar, "como também a área encontrar-se no setor urbano da cidade, perdendo espaço para esgotos e lixo jogados dentro do rio, fazendo com que o mesmo fique cada vez mais raso", explica Ernane, e finaliza: "não devemos esquecer, também, que se trata de um rio temporário, de padrão anastomosado (que possui sua carga predominantemente arenosa), com bifurcações que propiciam, ainda mais, esse acumulado de terra com cobertura vegetal, formada por plantas de pequeno porte, próximas ao solo, como é o caso de arbustos, ervas, gramíneas e musgo".

Sujeira

"Um rio que banhava a cidade e formava prainhas em vários pontos. Assim era o Acaraú que eu me lembro, há muitos anos, antes mesmo da construção da Ponte Doutor José Euclides", relata Antônio Cardoso, 62, morador do Bairro das Pedrinhas, localizado na Margem Direita do Rio. O homem fica admirado, não apenas ao ver a vegetação encobrir todo o leito, mas também como a grande quantidade de entulho acumulado abaixo da ponte passou, infelizmente, a fazer parte da paisagem local.

"É triste passar por aqui e ver como as pessoas estão acabando com esse rio. A cidade cresceu muito e tomou quase todo o seu espaço. É difícil não ver um ponto onde não tenha restos de construção ou lixo, mas, eu ainda tenho fé que teremos um inverno bom e que o Acaraú vai voltar a correr com força arrastando toda essa sujeira", sonha.

Recuperação

"Temos trabalhado em projetos de recuperação das matas ciliares do rio neste ano todo. O percurso das margens direita e esquerda recebeu novas mudas de árvores e palmeiras nativas; e esses plantios serão ainda mais intensificados com a chegada das chuvas", afirma Bruno Ary, diretor de Parques, Jardins e Unidades de Conservação da Agência Municipal de Meio Ambiente (AMMA), que afirma ser naturalmente bem-vindo, o avanço das matas sobre o leito do Acaraú.

"Muitas pessoas enxergam esse mato com se denotasse um certo abandono, por parte do poder público, mas ali é a mata ciliar. Faz parte da dinâmica do rio. Então o errado é a retirada daquele mato. Isso até já foi feito, anos atrás, mas, desta vez, o trabalho realizado tem sido outro. Todo aquele arbusto será arrastado pelo rio, quando as águas retornarem. Nosso maior problema é o avanço dos aguapés, plantas aquáticas que retiram o oxigênio da água". Explica Bruno Ary.

Projeto

Neste mês de dezembro, AMMA realizou uma intensa ação de limpeza do rio, de onde foram retirados os aguapés que obstruíam toda a superfície. Esse tipo de planta, de crescimento rápido, se beneficia dos ambientes ricos em matéria orgânica, podendo ser aliada na despoluição das águas, desde que haja um manejo adequado.

Ainda, segundo as informações de Bruno Ary, há projetos em elaboração para instalação de jardins filtrantes nos riachos tributários do Acaraú. Ele destaca que a ação diminuirá consideravelmente a carga de poluentes que aporta no rio.

Participação

"Além disso, o projeto Praça limpa, desenvolvido pelo setor de Educação Ambiental da AMMA, também percorreu todo o percurso do Acaraú, na zona urbana, na tentativa de conscientizar os moradores do entorno a cuidar dos espaços públicos e evitar o acumulo de resíduos sólidos em locais inadequados. Acreditamos que o trabalho do poder público, junto com a consciência e participação comunitária, prometem trazer dias melhores ao trecho do Rio Acaraú que corta Sobral", avalia.

Fique por dentro

Importância e ações para a preservação

O Rio Acaraú, com seus 315 quilômetros de percurso até o mar, contém, em sua bacia, alguns dos mais importantes açudes do Estado, como o Carão, em Tamboril; o Edson Queiroz, em Santa Quitéria; o Forquilha, no município de mesmo nome; o Aires de Sousa (ou Jaibaras), em Sobral; além do Paulo Sarasate (Araras), construído sobre o próprio leito do Rio Acaraú, cuja barragem se localiza no limite dos municípios de Varjota e Santa Quitéria.

Um grupo de estudiosos, que tem à frente o Ernane Cortez Lima, geógrafo e entusiasta de todas as causas relacionada ao meio ambiente, elaborou o projeto "A Revitalização das Nascentes do Alto Curso do Rio Acaraú, na Serra das Matas", localizada no município de Monsenhor Tabosa, distante cerca de 300 quilômetros de Fortaleza.

O objetivo geral do projeto é apresentar uma análise e manejo ambiental dessas nascentes, compreendendo uma área total de 142,63 km², para fins de revitalização. Na prática, a ação se dá, pela identificação e delimitação, por meio de mapas cartográficos, das diferentes sub-bacias e micro-bacias, além de áreas de nascentes, que integram todo o curso. O trabalho requer uma estratégia ampla no que diz respeito à logística, pois a Serra das Matas se apresenta como um bloco elevado, com altitudes médias entre 550 e 600 metros.

Protagonista

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"Preocupante. Durante muito tempo, esse rio foi um paraíso. Todo o leito dele era utilizado como balneário, onde as famílias sobralenses passavam seus finais de semana. Ver o rio assim, é de cortar o coração. Não é só pelo mato, que tomou conta de tudo, mas pela sujeira, pelo esgoto jogado a céu aberto. Espero que a chuva volte a banhar nosso rio e arraste toda essa imagem negativa"

Francisco Uchôa Lopes

Pintor

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"Acho triste ver que o rio chegou a este estado. Sou morador do Bairro Dom Expedito, do lado direito do rio, e sempre utilizo a ponte para vir ao Centro. Na época do inverno, quando a chuva era forte, muita gente vinha aqui para ver as águas correndo. A mim, dava uma sensação de esperança. Eu desejo ao nosso rio que volte a ser a alegria de muita gente de Sobral"

Francisco Otaviano

Zelador

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