Comitê de Bacias

Reunião tensa reduz a vazão de água da RMF

Representantes do governo precisaram apelar, pois existia uma proposta de zerar a transferência

O Castanhão, maior açude do Estado, está com 5,48% da capacidade ( Foto: Honório Barbosa )
00:00 · 15.06.2017 por Honório Barbosa - Colaborador
Segundo maior açude do Estado do Ceará, o Orós, localizado no Centro-Sul do Estado, conta, atualmente, com 10,24% da sua capacidade total, que é de 1.940 hm³ ( Foto: J L Rosa )

Iguatu. Um clima de tensão, com agressões verbais contra representantes da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e a disputa por água entre a Bacia do Baixo Jaguaribe e a Metropolitana marcaram o Seminário de Alocação Negociada de Água dos Vales Jaguaribe e Banabuiú, realizado, ontem, nesta cidade do Centro-Sul, no auditório do Campus Multi-Institucional Humberto Teixeira. O evento reuniu usuários e integrantes dos comitês de Sub-bacias Hidrográficas do Alto, Médio e Baixo Jaguaribe, Banabuiú e Salgado.

Mais de 500 pessoas lotaram o auditório. A reunião, que começou por volta das 9h30, estendeu-se até as 16h30. De um lado, o governo do Estado querendo manter um mínimo de locação de água para a Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Do outro, os comitês querendo suspender até dezembro a transferência do recurso hídrico do Açude Castanhão (que está com 5,4%) para a Capital, Termelétricas, indústrias do Pecém e de outras cidades do seu entorno.

Por pouco, a proposta de zerar a liberação de água do Castanhão para a RMF não foi aprovada. A intervenção do diretor da Cogerh, Gianni Lima, que apresentou uma proposta conciliadora, evitou o agravamento da crise e a necessidade de intervenção do Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Conerh), que poderia modificar uma decisão coletiva dos comitês.

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O Açude Arrojado Lisboa, mais conhecido como Banabuiú, localizado no Sertão Central do Ceará, é o terceiro maior reservatório do Estado e hoje acumula apenas 0,75% da sua capacidade. (Foto: Alex Pimentel)

Redução

Foi aprovada, então, a proposta de manter a liberação de 3m3/s para o Eixão das Águas, reduzindo a transferência para a RMF, que deve ficar em torno de 1,2m³/s, manter 0,95m³/s para o Distrito de Irrigação de Tabuleiro de Russas (Distar) e aumentar em 50l/s a vazão atual de bombeamento reverso para o Canal do Trabalhador. Outra proposta aprovada foi a liberação de 4,5m³/s para o Baixo Jaguaribe, para reduzir perdas de perenização e atender abastecimento humano até a localidade de Sucurujuba, em Quixeré. Haverá ainda liberação de água para pequenos produtores e consumo dos animais.

Em relação à alocação do Orós, que acumula 10%, ficou definida a liberação de 3m³/s para atender localidades e cidades do Médio Jaguaribe, até Jaguaretama. A proposta apresentada pelos usuários e integrantes da Bacia Hidrográfica do Alto Jaguaribe de reduzir para 2m³/s foi derrotada. "Estamos vivenciando uma crise hídrica que vai se agravar e ainda estão brigando por água para irrigação", lamentou Paulo Landim, integrante do comitê. "Os moradores de Orós, Icó e localidades rurais serão prejudicados".

O presidente da Cogerh, João Lúcio Farias, assistiu pacientemente as discussões acaloradas e interveio em algumas ocasiões, mas ficou aliviado ao fim da reunião, quando viu a proposta de zerar a transferência de água para a RMF ser derrotada. "Já esperava que o clima seria tenso porque a crise se agrava, as reservas estão reduzidas e muitos querem manter suas atividades produtivas", observou.

Apelo

João Lúcio frisou que, sozinhas, as reservas de água na Bacia Metropolitana são insuficientes para atender à demanda da RMF até outubro de 2018. "Precisamos do Castanhão. Não ir água para lá é muito grave". A diretora da Cogerh, Débora Rios, fez um apelo à sensibilidade, mostrando que são 3,5 milhões de moradores na RMF.

Representantes da Bacia do Baixo Jaguaribe e dos distritos de irrigação insistiram em manter atividades produtivas, cultivo de fruteiras, capim, grãos e criação de camarão. O gerente da Federação das Associações dos Produtores do Perímetro Irrigado Jaguaribe - Apodi, Karlos Welby, observou que houve uma redução de 75% da área cultivada, desemprego de cerca de 4 mil trabalhadores. "A situação é crítica. A nossa esperança é que a produção seja retomada quando a água voltar ao Ceará".

O gerente do Distrito de Irrigação Tabuleiro de Russas (Distar), Roberto Bastos Cadengue, mostrou-se irritado e denunciou que o governo do Estado, por meio de decreto, inverteu a prioridade do uso de água, favorecendo as atividades industriais, em detrimento da agropecuária. "Não tire água do Tabuleiro de Russas, se não os senhores vão ver o cão", disse.

Alguns lamentaram a falta de prioridade para o consumo humano. "Há moradores de cidades no Baixo Jaguaribe, em vilas rurais, sofrendo e que vão sofrer com a falta de água e ainda estão querendo manter atividades produtivas", questionou Maurício Lima, integrante do Comitê de Bacias.

A meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Meire Sakamoto, mostrou análises preliminares sobre o risco de uma quadra chuvosa em 2018 novamente desfavorável à recarga significativa dos reservatórios. Enfatizou, entretanto, que os dados mais precisos serão divulgados em dezembro, sobre a formação ou não de El Niño e as condições de temperatura dos oceanos Atlântico e Pacífico Equatoriais.

Polarização

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"Já esperava que o clima da reunião seria tenso e ficou evidente o conflito entre o Baixo Jaguaribe e a Região Metropolitana"

João Lúcio Farias - Presidente da Cogerh

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