INTERIORIZAÇÃO DA DANÇA

Responsabilidade social

21:21 · 30.06.2007
Gerlídia Tavares, bailarina e professora de dança, numa participação na Mostra de Arte de Quixadá. Dividir seu talento com a comunidade tem sido sua meta
Gerlídia Tavares, bailarina e professora de dança, numa participação na Mostra de Arte de Quixadá. Dividir seu talento com a comunidade tem sido sua meta ( Alex Pimentel )

Quixadá. O glamour dos palcos, os aplausos e conhecer o mundo é o sonho de todo artista. Essa também seria a realização pessoal da bailarina quixadaense Gerlídia Tavares, 26 anos, não fosse uma importante responsabilidade social. A oportunidade de conhecer Goretti Quintela, a irmã, Socorro, e aprender os estilos corporais numa das mais conceituadas companhias de dança surgiram do compromisso de transferir seus conhecimentos para crianças e adolescentes carentes de sua cidade.

Gerlídia diz que compartilhou a idéia com sua madrinha de arte, a deputada Rachel Marques. Foi ela que, percebendo a desenvoltura da jovem desde os primeiros passos em um grupo comunitário de dança, quando assumiu pela primeira vez o posto de primeira-dama de Quixadá, há 12 anos, resolveu lhe oportunizar o aprendizado especial. Em troca, o compromisso de ensinar as técnicas para outras meninas carentes da região.

Promessa cumprida

Desde então Gerlídia cumpre a promessa. Passou a ensinar os passos de dança clássica, contemporânea, jazz, de rua, todos os estilos, a diversos grupos de adolescentes e crianças de sua terra natal. Atualmente as meninas do ABC Baviera de Carvalho recebem os primeiros ensinamentos do balé com ela. As atividades também são desenvolvidas com crianças e adolescentes da Escola Modelo Raimundo Marques e com a turma do Crisca, um centro de assistência a portadores de necessidades especiais.

A professora de arte que presta serviços para a Secretaria de Educação e Desporto de Quixadá afirma estar satisfeita em poder honrar sua promessa social. Confessa que trocou o sonho de se tornar uma grande bailarina pela gratidão. Não está arrependida e se tivesse que fazer tudo novamente o faria. “Existem coisas na vida da gente que não há dinheiro no mundo que pague. A gratidão é uma delas”, desabafou.

Todavia, Gerlídia não esconde uma frustração, a de não poder se graduar em Assistência Social. Desistiu da formação, as mensalidades estavam ficando caras. Com uma renda mensal de pouco mais de R$ 500, e um filho para criar, ela teve que abdicar dessa meta profissional e pessoal. Nesses momentos recebe o apoio dos sete irmãos e dezenas de amigos e alunos. Eles dizem que sua única ambição é a felicidade.

Ato de nobreza

Muitos amigos e alunos ficaram surpresos em saber que a professora bailarina trocou a oportunidade de se consagrar nos palcos do mundo pelo auxílio a sua gente, do Interior. Não imaginavam tamanho ato de nobreza. Atitudes como essa não se toma todos os dias. Com certeza será um motivo a mais para o reconhecimento de seu talento, capaz de cativar qualquer aprendiz a soltar o corpo e a mente numa das mais agradáveis expressões universais que é a dança.

Quando a bailarina fala de quem lhe propiciou o aperfeiçoamento dos diversos estilos da arte, a amiga Goretti Quintela, se sente à vontade. Os olhos brilham de satisfação e admiração por quem considera ser o espelho que refletiu o espírito de sua felicidade. Foi da renomada coreógrafa e bailarina que ouviu o que considera ser o maior incentivo de sua vida: “Magrinha de nariz empinado, você tem o corpo e alma de bailarina”. Já se passou mais de uma década, mas esse momento nunca esqueceu.

ALEX PIMENTEL
Colaborador

Professora com talento a ser reconhecido

  • “Gerlídia tem uma potencialidade profissional invejável. Já provou isso ao conquistar a posição de primeira bailarina em diversos espetáculos. Chegar tão longe assim não é fácil. É preciso muita dedicação e talento. Com esses predicativos ela poderia conquistar a Europa. Aquela gente valoriza e respeita a cultura. Lota os teatros e aplaude de pé a espetacular arte da dança. Trocar tudo isso por ensinar meninos e meninas pobres e algo muito nobre”. - Gardênio Holanda Lima, Monitor de balé clássico
  • “Compartilho com Gerlídia o seu sucesso. Ela tem todos os elementos necessários e o status de uma bailarina de destaque internacional. Por ser uma pessoa simples, não tem seu talento reconhecido. Em qualquer País mais civilizado, mesmo morando no Interior, ela seria exaltada por isso. Receberia todo o apoio necessário, até mesmo um transporte para poder se locomover de sua residência para os locais onde ensina dança”. - Daniele Lopes Costa, Estudante de Educação Física
  • “Quando Gerlídia chegou de sala em sala, disposta a ensinar balé pra gente, não acreditei. O sonho de toda menina é um dia poder dançar assim. Meus pais não têm condição de pagar um curso desses e não perdi a oportunidade. Há dois anos me esforço em aprender cada detalhe. Será muito importante para a realização de meu maior sonho, ser modelo de passarela. E quando essa oportunidade surgir não penso duas vezes”. - Thamyres Silva Lopes, Estudante do Ensino Fundamental

CONTO DE FADAS - Bailarina recorda primeiras aulas numa academia de dança

Quixadá. Para uma menina pobre do Interior que mal acabara de completar 14 anos, como foi Gerlídia Tavares, o comentário de Goretti Quintela, uma “bela moça que lembrava uma dançarina de conto de fadas”, no primeiro dia de aula numa academia de ballet, era motivo suficiente para acalmar o espanto diante daquele enorme salão de dança recheado de espelhos por todos os lados. Pela primeira vez na vida Gerlídia pisava o chão de uma sala dessas. Nunca tinha visto coisa igual. Apenas as sapatilhas, pela TV. Mas agora estava tudo ali, à sua frente, de verdade. Um sonho começava a se tornar realidade.

E os passos com os quais já se habituava quando ainda era bem pequena, nem passava dos seis anos, ganharam técnica, desenvoltura e estilo. E com eles vieram conquistas e a percepção de que a vida difícil lhe reservava agradáveis surpresas. Por vezes consecutivas Gerlídia se destacou no Festival Nacional de Dança de Fortaleza (Fendafor). Venceu o concurso consecutivamente, ao ponto da mestra lhe pedir que desse oportunidade a outras dançarinas. Havia alcançado o auge da técnica rítmica, seja clássica ou contemporânea.

Aperfeiçoamento

Mas o mundo da dança está em eterna evolução. Por esse motivo continua aperfeiçoando seus estilos. Faz isso todos os anos, nas férias de julho, quando parte para Fortaleza, para o Ballet Goretti Quintela. Mais uma vez aguarda ansiosa o dia da partida.

Agradece aos apoiadores da sua carreira ao longo dos anos. São eles que asseguram os recursos financeiros com as despesas de viagem e a capacitação, que este ano lhe custariam um mês de salário.

CAPACITAÇÃO - Critérios para selecionar novos monitores

Fortaleza. No projeto de formação de monitores de dança para os municípios, a Academia Goretti Quintela passa alguns critérios para que a Prefeitura selecione quem vai participar da capacitação. O ideal é que os jovens tenham de 16 a 25 anos, tenham aptidão para a dança e gostem de ensinar. “Quando eles chegam na escola, fazemos um trabalho de orientação, mostramos qual o intuito do curso e que será compartilhado. Queremos que os alunos saibam que podem contar conosco a qualquer momento, tirar dúvidas, existe a amizade. O vínculo criado é bacana”, destaca Goretti Quintela.

Este intercâmbio é importante e mostra resultados. “Nunca esqueci da festa do município de Icó, não lembro o ano, em que 300 crianças se apresentaram, frutos das aulas dos multiplicadores”, lembra Goretti. Outro exemplo é Gerlídia Tavares, de Quixadá, que participou do projeto desde o início. “Hoje, ela pode ser considerada uma bailarina”. Cita, ainda, outro multiplicador que, atualmente, está na Alemanha e continua dançando e como fisioterapeuta da sua própria companhia. “São inúmeros casos bem sucedidos”.

Fácil compreensão

Para todo esse sucesso, mesmo com pouco tempo de treinamento (dez dias), é necessário que a técnica seja transmitida de uma forma bem didática, de fácil compreensão, para que os alunos possam repassar com segurança nos respectivos municípios. “Mas, muitos ficam vindo ter aulas, posteriormente, até passar para outros níveis”. Os resultados nos novos multiplicadores, conforme Goretti, “são a olhos vistos. É uma contribuição muito grande. A auto-estima é percebida claramente. Passam a se sentir úteis, com o poder de transformar a própria vida”.

EVELANE BARROS
Repórter

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