Recital abre aniversário de Patativa - Regional - Diário do Nordeste

CULTURA POPULAR

Recital abre aniversário de Patativa

02.03.2005

Antônio Vicelmo
Crato (Sucursal) — Com um recital de poesias será aberta hoje a programação comemorativa aos 96 anos de Patativa do Assaré. A programação prossegue até o próximo dia cinco, data do seu aniversário. Durante dois dias, serão realizadas oficinas de teatro, cordéis, literatura popular, canto, desenho, pintura, artesanato e gastronomia. O ponto alto das comemorações ocorrerá no dia cinco, começando às cinco horas, com alvorada festiva tocada pela banda Mané de Benca. Haverá café da manhã para os familiares de Patativa e convidados na residência do poeta, missa de Ação de Graças, encontro dos grupos folclóricos, programas de rádio, visita dos penitentes de Genezaré ao túmulo de Patativa, lançamento de livros, espetáculos e grande festa popular.

Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu no dia cinco de março de 1909 e morreu no dia oito de julho de 2002, com 93 anos de idade, deixando um acervo de mais de mil poesias publicadas em oito livros que falam das alegrias e tristezas do homem nordestino. A maioria, entretanto, é marcada pela dor e o sofrimento vividos por ele próprio que nasceu e viveu pobre de Jó, numa pequena propriedade, na Serra de Santana, a 18 quilômetros de Assaré.

A sua vocação de poeta, cantador da vida e cronista do dia a dia do seu irmão sertanejo despertou cedo. Aos cinco anos já fazia versos. A mesma infância que testemunhou o seu despertar para o mundo da poesia, presenciaria a perda da visão direita, em decorrência de uma doença, segundo ele, chamada de “dordolho”, mais tarde diagnosticada como conjuntivite.

Utilizou a sua poesia como arma da paz para denunciar injustiças sociais, propagando sempre a consciência e a perseverança do povo nordestino que sobrevive e dá sinais de bravura ao resistir às condições climáticas e políticas desfavoráveis. Nunca atribuiu a Deus o sofrimento do nordestino. Mostrava que a culpa é dos homens de posição. “Não é Deus que nos castiga/ Nem é a seca que obriga/ Sofrermos dura sentença/ Não somos nordestinados/ Nós somos injustiçados/ Tratados com indiferença”.

Apesar de pobre, sacrificado, Patativa nunca comercializou a sua poesia, nunca quis ganhar a vida em cima do seu dom de poeta. Mesmo tendo feito shows pelo Sul do País, quando foi mostrado ao grande público por Fagner, em finais da década de 70. Sempre se manteve mesmo camponês humilde, de chapéu na cabeça, que se sentia fez ao lado de sua família, na serra de Santana.

Sua poesia, do ponto de vista do conteúdo social, reflete todo o mundo visionário e fantasmagórico do caboclo. Pode-se identificar perfeitamente uma cosmovisão ou ideologia cabocla, desapontada com a modernização, sedenta de justiça, marcada pela saudade, impregnada de misticismo, serviçal, disponível, leal. O poema em que o velho bardo caririense decanta o antigo engenho de pau, rangedor e bucólico, e injuria o moderno engenho de ferro, a motor, elétrico, expressa muito bem esta visão mais desapontada que nostálgica, no sentido corrente do modismo recente.



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