Sonho frustrado

Projetos produtivos não se concretizaram em Jaguaribara

A infraestrutura está em boas condições, mas, até hoje, os recursos para a compra das matrizes não foram liberados

Cada criador tem um rebanho reduzido, com cerca de quatro vaquinhas ( Foto: Honório Barbosa )
00:00 · 07.10.2017 por Honório Barbosa - Colaborador
Além da dificuldade de escoamento da produção por conta do acesso ruim, os produtores queixam-se da falta de assistência técnica

Jaguaribara. Há 14 anos, agricultores e trabalhadores rurais que tiveram que sair de suas terras cobertas pela água do Açude Castanhão, esperam pela liberação de recursos para aquisição de matrizes bovinas, no projeto Mandacaru, no entorno desta cidade, no Vale do Jaguaribe. A redução de água nas unidades produtoras de capim agrava ainda mais a crise no setor.

O tempo passou e o projeto Mandacaru ainda não foi concluído. A infraestrutura está em boas condições, há estradas entre os lotes, que dispõem de cercas, sistemas de irrigação, curral, energia elétrica e edificação rústica de apoio. "A nossa reclamação é que até hoje os recursos para a compra das matrizes não foram liberados", lamentou o vereador e produtor rural Daniel Linhares Gonçalves.

> Acesso difícil é um dos entraves aos lotes irrigados

Segundo o parlamentar, que acompanha a peleja dos produtores desde a antiga Jaguaribara, o projeto prevê a liberação de R$ 3,7 milhões para um grupo de 120 criadores, por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). "Nesse período, os insumos subiram de preço, mas o valor do financiamento é o mesmo. Ainda assim, todos aguardam que um dia essa verba finalmente seja liberada", diz.

Divididos

As opiniões dos produtores foram se dividindo com o tempo. Alguns ainda mantêm a expectativa de que um dia o recurso será liberado, outros estão descrentes. "Esse projeto ainda não atendeu o povo que saiu da antiga Jaguaribara", disse José Geraldo Almeida, um dos primeiros assentados. O produtor, entretanto, afirma: "Não perdi a esperança". Já o agricultor Vilton de Souza Filho está desanimado: "Aqui a gente não tem condição. Acho que não vem mais nada para nós, que fomos abandonados pelo governo".

Com dificuldades e esforço próprio, mesmo sem assistência técnica, os produtores mantêm a criação de vacas leiteiras adquiridas nos últimos 14 anos. Cada criador tem um rebanho reduzido, cerca de quatro vaquinhas, além das crias. Os animais precisam de melhoria genética para ampliar a quantidade de leite.

Daniel Gonçalves chama a atenção para o fato de que o projeto corre risco de paralisar totalmente a partir de janeiro de 2018 por causa da escassez de água. No passado, eram liberados 580 litros por segundo, mas agora foi reduzido para 150 l/s, em dias alternados. "Está difícil manter a irrigação do capim", observou Gonçalves. "Aqui o futuro é incerto".

Depois de percorrer alguns lotes, conversar com produtores que estavam no serviço de alimentar o gado e tirar o leite no meio da tarde, Daniel Gonçalves desabafa: "Dói no nosso coração ver tanta água que já desceu e ainda desce no Eixão (canal), ao lado dos lotes, para a região de Fortaleza, e a gente não poder usar o que precisa", disse. "Tiraram os agricultores de suas terras e não deram condições de trabalho e isso para mim é a maior injustiça social que já cometeram".

Após a construção da nova cidade de Jaguaribara, os moradores da zona rural no antigo município resistiam em sair de suas terras, onde plantavam vazantes e criavam gado. Entretanto, em janeiro de 2004, fortes chuvas caíram sobre o Ceará e o Castanhão, em apenas 20 dias, encheu, superando as expectativas dos engenheiros que achavam que seriam necessários anos seguidos de chuva para a barragem transbordar.

O jeito foi sair às pressas. O governo do Estado deu apoio, forneceu transportes. "Vieram moradores de 23 comunidades que foram atingidas pela barragem", recorda Daniel Gonçalves. "O açude encheu, o tempo passou, a barragem secou e os projetos de produção no Curupati Irrigação no Mandacaru não foram concluídos".

Segunda etapa

A segunda etapa, que deveria atender 40 novos produtores, também está emperrada. "Até agora nada foi feito", observa Gonçalves. "Muita gente já morreu e não viu o sonho realizado". O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jaguaribara, Francisco Saldanha, disse que os agricultores, em suas antigas terras, eram pobres, mas tinham onde trabalhar, em vazantes no Rio Jaguaribe e no entorno de açudes. "Aqui estamos sem condições de produzir".

Novos passos

Daniel Gonçalves pensa em apelar para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ministério Público e instituições ligadas aos Direitos Humanos para que possam defender os direitos dos produtores rurais. Há nova esperança de que neste mês uma equipe de técnicos do MDA visite a área e libere os recursos para a compra de matrizes bovinas. "No passado, a Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA) do Estado não forneceu documentos para o MDA e isso atrasou ainda mais a aprovação do projeto", lamentou Gonçalves.

O produtor José Geraldo Almeida, quando chegou ao projeto Mandacaru, não tinha experiência em criar gado. O jeito foi plantar batata doce, lembrando do passado de vazanteiro, na antiga Jaguaribara. "Trabalhei e consegui comprar uma vaquinha, hoje tenho cinco". Por dia, ele tira 80 litros de leite e vende a R$ 1,15 para queijeiros da cidade. "A gente não tem recurso para nada, falta assistência técnica e a água está se acabando".

Jaguaribara já enfrenta uma crise financeira agravada com o fim da produção de tilápia em tanques rede no Castanhão, que gerava, por mês, cerca de R$ 7 milhões na economia local. "Se o projeto Mandacaru paralisar, vai afetar ainda mais a situação do Município", prevê Daniel Gonçalves. Afinal, há mais de 80 pequenos produtores que conseguiram, por conta própria, adquirir, cada, meia dúzia de vacas e produzir leite, gerando emprego e renda para as famílias.

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"Dói no nosso coração ver que o projeto Mandacaru não foi concluído, o que fizeram com essa gente que saiu de suas terras e não recebeu condições de trabalho, o financiamento para comprar as vacas"

Daniel Gonçalves. Vereador e produtor

"Tenho esperança que esse recurso ainda vai ser liberado, mas o nosso temor maior é com o corte de água para irrigar o capim, fazer a silagem para o gado. A nossa situação é de abandono, desprezo das autoridades"

José Geraldo Almeida. Produtor

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