Fé na natureza

Profetas estão otimistas em relação às chuvas de 2018

O XXII Encontro dos Profetas da Chuva está programado para o próximo sábado (13), no IFCE, Campus Quixadá

00:00 · 06.01.2018 por Alex Pimentel - Colaborador
O flamboyant, ou 'sombrião', está florado e as raquetes de vagens estão despontando nos galhos, para Chico Leite, um bom sinal florido e colorido de que teremos um 'bom inverno" ( Fotos: Alex Pimentel )
Outro método: uma porção de sal nos seis primeiros meses do ano inscritos na tábua de Santa Luzia. Nos meses onde a pedra se dissolver, haverá chuva

Quixadá. Os profetas da chuva, como são conhecidos os cientistas práticos por todo o sertão em razão da habilidade de encontrarem nos sinais da natureza, dos astros e até dos números, os elementos para apontarem as previsões meteorológicas para as estações chuvosas, já estão com o seus diagnósticos para a quadra chuvosa deste ano na ponta da língua. Desta vez as previsões são melhores, com mais chuvas no sertão.

O XXII Encontro dos Profetas da Chuva está programado para o próximo sábado (13). Mais uma vez será realizado pelo Instituto de Viola e Poesia do Sertão Central, no campus do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), no entorno do Açude Cedro. Os anfitriões idealizadores do evento, João Soares e Helder Cortez, recepcionarão o público visitante e os profetas convidados a partir das 8h. A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e a Prefeitura de Quixadá patrocinam o evento.

Um grupo deles se reuniu com um dos idealizadores do Encontro dos Profetas das Chuvas mais antigo do País, o comerciante João Soares, para afinarem um pouco mais as suas previsões. A maioria concluiu suas observações no aparecimento da barra da lua na noite do último Natal. Para Chico Leiteiro e os irmãos Lurdinha e Chico Leite, é o último sinal para confirmação do destino das chuvas.

Entretanto, especialistas mesmo na observação dos astros são Josué Viana e Paulo Costa. Eles acompanham principalmente o movimento das estrelas, tendo a Estrela Dalva como um guia, para a conclusão de mais um ciclo dos seus estudos. O odontólogo Paulo Costa utiliza o princípio da Arca de Noé. Josué Viana sente mais segurança nas fases da lua, mas não se esquecem de associar os seus estudos à numerologia, este ano é "8", uma unidade muito forte.

Os detalhes, eles só revelam no próximo Encontro dos Profetas da Chuva, em Quixadá, no próximo sábado (13), que neste ano completa 22 edições. Entretanto, para o grupo, as precipitações deste ano vão superar a média histórica do Estado, de 500mm. Divergências, apenas sobre quando as chuvas devem começar a cair. A maioria aponta o início ainda em janeiro. Paulo Costa prevê um inverno tardio, com início das chuvas mais fortes a partir de abril, se estendendo até o início de agosto.

Divergências à parte, somente com a participação dos outros profetas, no Encontro, onde chegam representantes de várias regiões do Ceará e até de outros estados, será possível apontar a previsão meteorológica que se tornou conhecida e conta com o respeito dos agricultores mais tradicionais. Nelas, eles encontram segurança para o trato da terra e o plantio das sementes nos seus roçados na esperança de boa colheita. Esse hábito se completa com a fé em São José, protetor do sertanejo e padroeiro do Ceará.

Todavia, é noutro santo, aliás, santa, Luzia, que a professorinha Lurdinha Leite, como gosta de ser tratada, se apega. Ela explica não ser bem a fé, mas os ensinamentos da santa protetora dos olhos, de colocar uma porção de sal nos seis primeiros meses do ano inscritos na tábua de Santa Luzia, e elevá-la ao telhado, na fresta dos caibros com as telhas e aguardar o dia seguinte. Nos meses onde a pedra se dissolver haverá chuva. A experiência é realizada no pernoite do aniversário da Santa, 13 de dezembro.

"Desta vez vai ter muito trovão e muito relâmpago, mas isso não tem nada a ver com a tábua da Santa. É que está um calorão danado desde setembro e, quando continua assim, por mais tempo, a natureza vai descarregar tudinho quando começar a chover. Isso também foi meu pai quem me ensinou e, desde então, tenho passado com muita alegria para quem depende da sua terrinha para sobreviver. Tristeza mesmo só quando a gente não pode esconder fraqueza de chuva. Também fui educada a não mentir", disse a profetisa.

O irmão, Chico Leite, 20 anos mais novo, não tem mais tempo para ficar observado os sinais da natureza para aplicar o seu saber popular. Ele dedica todo o seu tempo para cuidar do gado, leiteiro, agora, com pouca água e pouco pasto, mas basta olhar para o quintal da sua casa para sentir segurança em um bom inverno. "O sombrião, também conhecido como flamboyant, ficou totalmente florado e as raquetes de vagens estão despontando nos galhos. Com um sinal tão florido e colorido, não há como errar", completa.

O outro Chico, Leiteiro, também cuidador de gado, está mais sossegado. Com 79 anos e já aposentado, agora dedica mais tempo a aprimorar a sua sabedoria, até porque a natureza está mudando, os pássaros estão desaparecendo, os insetos também. Por enquanto, bicho difícil de faltar é o jumento. Bastou chegar à sua casa, se deparou com mãe e filho. "Quando esses bichos estão suados, mesmo na sombra, é sinal de chuva boa por ai", explicou.

No mais, sobre as previsões dos cientistas e suas tecnologias a "professorinha" dispara: "o homem ainda insiste em querer saber mais que Deus".

A previsão do órgão oficial meteorológico do governo do Estado para o período chuvoso, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) tem ocorrido tradicionalmente, em Fortaleza, no auditório da Fundação, uma semana após a realização do Encontro dos Profetas da Chuva. O presidente da Funceme, Eduardo Sávio Martins, e sua equipe já confirmaram a apresentação no dia 19 deste mês.

Mais informações:

Instituto de Viola e Poesia do Sertão Central - (88) 9 9631.1416
XXII Encontro dos Profetas da Chuva - Dia 13 de janeiro - 8h
IFCE - Campus Quixadá

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