Vale do Jaguaribe

Produção teatral aponta para novas perspectivas

22:36 · 26.01.2013
"Mergulho teatral", festivais de rua e novos espaços de produção trazem otimismo para o teatro no Interior

A produção e formação teatral é viva em vários grupos do Interior, que se apropriam dos valores regionais como força de expressão FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR

Fortaleza Poucas manifestações culturais têm arrebatado um aglomerado de jovens no Interior do que aquela que os faça expressar os sentimentos (leia-se: indignações). É a cidadania pulsante o que eles encontram no teatro. E mesmo com todas as dificuldades, fazem a cena. Por isso há boas perspectivas para que continuem os eventos teatrais em 2013. Eles acontecerão por meio dos esforços de grupos como Lua Cheia (Aracati), Casa de Cultura Dona Zefinha (Itapipoca) e Oficarte (Russas).

A já conhecida internacionalmente banda Dona Zefinha, de Itapipoca, não se dissocia do teatro. É arte cênica do início ao fim.

O grupo criou sua fábrica de invenções das produções musicais e cênicas, a "Casa de Teatro Dona Zefinha", uma realização da Associação Artística Dona Zefinha e mantida em 2012 com o apoio do Prêmio Mirian Muniz. O local conta com mais de 200 metros quadrados e está situada no bairro Jenipapo, em Itapipoca. Contém sala de música, ateliê de criação e restauro de figurinos e adereços, sala de pesquisa e "hospedagem solidária", sala de produção e sala de atividades cênicas. De acordo com Orlângelo Leal, a "Casa de Teatro Dona Zefinha" é uma plataforma para realização de ações formativas, compartilhamento de ideias e pensamentos sobre o universo das artes cênicas.

Outro grupo que segue na estrada, em seus mais de 20 anos de atividades, é a Associação Oficarte, de Russas, grande responsável pela manutenção das artes cênicas no Vale do Jaguaribe.

Antes da Oficarte, Russas era conhecida como berço do trabalho infantil. Foi lá que muitas crianças saíram da produção de telhas nas olarias para os palcos do teatro. Várias vezes no ano, esse fenômeno de catarse, no contato com as artes, é reafirmado por meio do Mergulho Teatral, que reúne os grupos da região em torno dos saberes e fazeres cênicos, bem como possibilita a discussão sobre políticas públicas culturais.

Editais

Grupo mais maduro, a Oficarte tem se apoiado no lançamento de editais de cultura, como patrocinadores dos espetáculos teatrais. Dessa forma, viabilizam a compra de material para cenário, luz e figurino etc. "A nossa luta começa a partir de quando idealizamos. Vamos projetando, produzindo, fazendo do jeito que a gente consegue, sempre buscando apoio e participando de editais de incentivo", afirma a atriz, dramaturga e educadora, Márcia Oliveira.

MAIS INFORMAÇÕES

Oficarte Teatro e Cia (Russas)

Telefone: (88) 9927.4494

Casa de Teatro Dona Zefinha

http://www.casadeteatrodonazefinha.blogspot.com.br/

"Festmar" pode se tornar internacional

Festival Nacional de Teatro de Rua (Festmar), realizado todos os anos em Aracati, no Litoral Leste, é referência na produção cênica de grupos teatrais independentes. Em 2012, houve participação de oito Estados FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR

Fortaleza. Uma das maiores iniciativas em produção teatral no litoral do Ceará pode se tornar internacional neste ano. É o que se projeta para o Festival Nacional de Teatro de Rua, sediado todos os anos em Aracati e que reúne Estados de Nordeste, Sul e Sudeste. É também uma das metas da Rede de Arte de Rua (Raru Brasil), criada durante o último festival, em dezembro de 2012.

O último Festmar, realizado um mês atrás em Aracati, reuniu 250 artistas de Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Amapá, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Do Ceará, marcaram presença as cidades de Aquiraz, Guaiuba, Quixeramobim, Sobral, Crato, Barbalha, Icó, Maracanaú, Boa Viagem, Crateús e Aracati. O festival não tem caráter competitivo, mas para promover troca de experiências.

O Festival Nacional de Teatro de Rua em Aracati surgiu em 1999, idealizado pelo professor Tinoco Luna e tendo por iniciativa o Grupo Teatral Frente Jovem. O evento começou apenas com grupos de Aracati, depois passou a receber outros municípios, e agora recebe Estados brasileiros de Nordeste a Sul. Realizam o evento o Instituto Aracupira de Cultura Brasileira (IACB), Ponto de Cultura do Grupo Teatral Frente Jovem.

Experimentação

De acordo com Teobaldo Silva, coordenador do Festmar, a Raru Brasil é um movimento que congrega grupos, coletivos e artistas de diversos Estados brasileiros que reconhecem a rua como espaço privilegiado para apresentação, experimentação e diálogo das diversas linguagens artísticas, bem como lugar de democratização e aproximação da relação artista-arte-público.

"Queremos atuar na perspectiva de desenvolver suas ações a partir da seguinte plataforma política: potencialidade das ações dos grupos e artistas através de um canal permanente de discussão, divulgação e colaboração, defesa e proposição de políticas públicas para cultura e ações de intercâmbio entre os seus membros, a partir de residências artísticas com caráter de gentilezas e trocarias estéticas, artísticas e formativas", explica Teobaldo. Como ele, outros produtores teatrais do Interior tem coincidências vivas: a resistência pela manutenção das produções diante do quase nenhum apoio do poder público.

Os artistas da Frente Jovem anseiam a inserção de representantes de outros países no âmbito da América Latina ao evento, que é realizado numa cidade há muito internacional - em Aracati está a famosa praia de Canoa Quebrada.

Não é só o fato de estar diante de uma plateia espontânea e despreparada (os passantes na rua são surpreendidos com as intervenções) que o teatro de rua é reverenciado: com todos os custos para se montar um espetáculo, é a encenação em praça pública a que dá mais praticidade aos produtores.

Quase nenhuma cidade no Ceará possui teatro municipal. As poucas que possuem ainda pecam na estrutura. "E chamar uma plateia para a rua não é difícil, porque na rua eles já estão. Nós vamos pra lá. Já se eles vão nos assistir é o poder de atração que irá dizer", afirma o ator Manuel Macedo, do município de Maracanaú.

Com um cenário modesto, é o figurino e, especialmente, o talento do ator, que fazem o público do teatro de rua.

Bem sabem o que é isso grupos como Oficarte (Russas), Dona Zefinha (Itapipoca), Teatro de Careta (Fortaleza),Grupo Juka de Teatro (Arneiroz), e Companhia Íkaros de Artes cênicas (Jaguaribe).


MELQUÍADES JÚNIOR
REPÓRTER

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