Preço do leite ´in natura´ amarga redução de 35% - Regional - Diário do Nordeste

SERTÃO CENTRAL

Preço do leite ´in natura´ amarga redução de 35%

18.02.2010

Agropecuaristas do Ceará esperam por iniciativa regulatória do Governo do Estado para conter crise no leite

Quixeramobim. Barreiras econômica e sanitária. Pequenos e médios produtores da maior bacia leiteira do Ceará apostam nas duas alternativas como solução para a maior crise financeira enfrentada pelo setor no Estado. O litro do leite "in natura" caiu quase 35% em Quixeramobim. Está sendo comprado pelos usineiros a R$ 0,47. Antes, valia R$ 0,72 segundo reclama o presidente da Associação dos Agropecuaristas do Sertão Central (Aasec), Carlos Elói. Em nome de mais de 100 associados, ele reivindica intervenção da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA) e Secretaria da Fazenda do Estado.

Segundo o líder classista, sem o auxílio governamental a crise poderá se acentuar ainda mais. Ele compara o colapso leiteiro à queda do algodão, nos anos 80, com a praga do bicudo. As plantações da região foram dizimadas. Para Elói, o revés no preço do leite bovino se deve à remessa excessiva da matéria-prima de outros Estados, principalmente do Pará. As usinas do Ceará estão "abarrotadas" de leite. Para piorar ainda mais a situação, estoques de leite Longa Vida, com lotes prestes a vencer, estão sendo despejados pelos Estados do Sul, principalmente o Paraná, dentro do mercado cearense.

Embora temporariamente esteja tirando vantagem, futuramente o consumidor poderá amargar os efeitos do benefício. Desestimulados, os produtores cearenses poderão partir para outras atividades do campo, como aconteceu com o algodão. Sem equilíbrio no estoque, o leite vai subir e pode até faltar. Pensando nessas possibilidades, representantes da Aasec se reuniram com o titular da SDA, Camilo Santana. O presidente da Ematerce, José Maria Pimenta, e lideranças políticas também participaram do encontro. Surgiu a proposta de tributação do produto lácteo em 17%. Falta a apreciação do secretário da Fazenda, Mauro Benevides.

Na opinião do agropecuarista, usineiro e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Quixeramobim, Cirilo Vidal, além do imposto, cobrado somente dos outros Estados, a ampliação de distribuição do leite no Fome Zero no Ceará pode auxiliar significativamente na solução do problema. De acordo com Vidal, no Ceará são distribuídos, no máximo, 30 mil litros por dia. Para ele, a demanda poderia triplicar, com a ampliação do programa federal no Estado. Cita como exemplo o Rio Grande do Norte. Embora menor, distribui 136 mil/l dia. Na Paraíba são 110 mil e no Piauí, 80 mil.

Queijo mussarela

Vidal denuncia também o comércio irregular do queijo mussarela. Sem fiscalização e certificação sanitária, mais de 90% do produto vai para os supermercados e fornos das pizzarias. Pará e Tocantins são os maiores fornecedores. Havendo controle, a produção do derivado no Ceará pode se elevar.Ele estima pelo menos 50 mil litros de leite a mais para serem utilizados diariamente. Para produzir um quilo de queijo tipo mussarela são necessários 10 litros de leite. "Não é justo amargarmos esse prejuízo".

O quadro desanimador levou a Câmara de Vereadores de Quixeramobim a promover audiência pública no início da crise, no fim do ano passado. Foi estabelecida como necessidade básica a organização e união dos produtores, por meio de entidades do cooperativismo.

Além do prejuízo no campo os consumidores estão sendo lesados. O litro do leite pasteurizado não baixou no mercado varejista. Continua sendo vendido ao preço médio de R$ 1,40. O Longa Vida custa R$ 2,50.

MAIS INFORMAÇÕES

Associação dos Agropecuaristas do Sertão Central:
(88) 344.1 0732; Secretaria de Desenvolvimento Agrário: (85) 3101.8002


MERCADO
"Nossos produtores precisam de amparo e garantias de regulação do mercado"
CAMILO SANTANA
Secretário estadual do Desenvolvimento Agrário

"Sem a criação de mecanismos de proteção estamos enfrentando mais uma crise"
CARLOS ELÓI
Presidente da Associação dos Agropecuaristas do Sertão Central (Aasec)


ALEX PIMENTEL
Colaborador


CARIRI
Desvalorização não estimula venda

Crato.
Um litro de leite na porteira do curral está sendo vendido a R$ 0,50. Em cima da Serra do Araripe, no município de Brejo Santo, o preço baixou para R$ 0,45. O produto chega na mesa do consumidor, depois de passar por atravessadores, por mais de R$ 1,00. A desvalorização do preço, segundo os produtores, não estimula a venda. Alguns deles estão deixando o leite para os bezerros. É o caso de Eugênio Tavares, proprietário da vacaria no Sítio Riacho Seco, município de Missão Velha. Os 300 litros de leite que ele produz por dia estão sendo consumidos pelos filhotes bovinos.

Outros estão aproveitando o leite somente para o consumo doméstico ou fornecendo para a clientela fiel, isto é, aquele consumidor tradicional que mantém um vínculo de amizade e confiança com o produtor há mais de 20 anos. "Estes fregueses não reclamam do preço do leite", diz o motorista Antônio Rodrigues do Nascimento, que é mais conhecido como "Antônio Passaram".

"Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Com este adágio popular, o agricultor João Ribeiro, que passou a venda de leite para os filhos, define a crise na bacia leiteira do Cariri. Porém, avalia que o prejuízo é passageiro. "No momento, com a fartura de pasto e, consequentemente, o aumento da produtividade, a oferta de leite é maior do que a procura. Quando o pasto diminuir, o preço aumento", acredita.

Os pecuaristas advertem, entretanto, que o consumidor é exigente quanto à qualidade do leite. Geralmente, o produto, sem procedência, não obedece aos critérios exigidos pelas autoridades sanitárias. O leite dos currais e das vacarias é "in natura", cuja venda é proibida. Ao fazer esta observação, o proprietário de vacaria, José Rolim Filho, explica que é comum encontrar pessoas vendendo o produto pelas ruas da cidade, em calçadas, mercados, padarias, feiras livres, em carroças, carrocerias de caminhonetes, entre outros. A prática, de acordo com o produtor, põe em risco a saúde dos consumidores, pois o produto, geralmente, é acondicionado de forma irregular, em garrafas descartáveis de refrigerante.

Além de embalado em garrafas já usadas e sem o devido beneficiamento, o produto não passa por qualquer controle sanitário, não há indicativos da origem do produto, nome do fabricante ou produtor, sede da fábrica ou local de produção, número de registro de alimento no órgão competente, lote ou data de fabricação e/ou prazo de validade e indicação da temperatura de conservação.


ENQUETE
Situação de crise


"Não vejo nem a cor do dinheiro do leite. Passei a venda para os filhos porque não compensa mais permanecer no setor"
JOÃO RIBEIRO
85 anos
Agropecuarista


"Quem possui uma clientela fiel, consegue um bom preço no litro de leite. Do contrário, fica amargando prejuízos"
ANTÔNIO RODRIGUES
40 anos
Agropecuarista


ANTÔNIO VICELMO
Repórter

CENTRO-SUL
Produtores querem melhoria de valor


Iguatu. No Centro-Sul, o setor pecuário também enfrenta uma nova redução no preço do leite vendido pelos produtores às empresas de laticínios. Desde outubro passado que o preço do produto vem caindo e agora o litro chegou a média de R$ 0,54. Além da redução do preço do produto, os laticínios implantaram uma extra-cota cujo valor do litro de leite é ainda mais baixo. As indústrias definem uma média de cada produtor e a quantidade que superar esse índice é comprada por apenas R$ 0,48. "O preço é reduzido para os produtores, mas não cai para os consumidores nas prateleiras dos supermercados", observa o presidente da Unidade de Pecuária Iguatuense (Upeci), Mairton Palácio. O clima no setor pecuário é de revolta.

Até a primeira quinzena de outubro passado, o litro de leite vendido pelos produtores variava entre R$ 0,62 e R$ 0,72. Os laticínios reduziram o preço e houve uma queda de R$ 0,05, que permaneceu até o fim de 2009. A reclamação é geral. "No verão, temos de gastar mais com alimentação do rebanho, consumo de água e de energia", observa o produtor Laurindo Vieira Júnior. "Essa queda no valor da venda do produto significa prejuízo para o setor".

No período de agosto a janeiro, o sertão cearense vive a entressafra que significa queda na quantidade de leite e aumento no custo de produção. No verão, não há pastagem nativa e é preciso alimentar o gado com ração e capineira. Na entressafra, ocorre uma queda de produção e, por isso, era comum ocorrer a manutenção ou mesmo elevação do preço do produto. Entretanto, nos últimos três anos vêm ocorrendo um inverso. Palácio defende uma redução de preço também para os consumidores. "Queremos que as pessoas passem a consumir mais leite, tenham uma melhor alimentação".

Na cidade de Iguatu há três unidades captadoras de leite dos produtores da região. A produção diária é de 100 mil litros de leite. Há uma década era de 25 mil. Palácio observa que apesar das dificuldades, a pecuária leiteira ainda é a melhor opção de rentabilidade no campo, mas alerta para a crise que pode afetar seriamente o setor. "A luz amarela da crise está acesa".


HONÓRIO BARBOSA
Repórter

 

 




Comente essa matéria


Editora Verdes Mares Ltda.

Praça da Imprensa, S/N. Bairro: Dionísio Torres

Fone: (85) 3266.9999