Pesquisa avalia desgaste ambiental - Regional - Diário do Nordeste

SEMI-ÁRIDO

Pesquisa avalia desgaste ambiental

25.10.2008

Escassez de recursos hídricos, irregularidade de chuvas e degradação do solo compõem quadro preocupante

Iguatu. No sertão nordestino, alguns estudos realizados e a própria observação direta revelam que nas duas últimas décadas vem ocorrendo desgaste acentuado do solo, que é raso e frágil, destruição da mata nativa, escassez e perda da qualidade nos mananciais naturais de água. Em busca da comprovação desses fatos, a agrônoma Ana Célia Maia Meireles está realizando pesquisa nesta cidade, que tem como tema central “Avaliação e previsão da degradação ambiental no Nordeste e semi-árido do Brasil”.

O estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo sobre a “Conservação dos recursos água e solo em microbacias”, coordenado pela professora do Departamento de Engenharia Agrária da Universidade Federal do Ceará (UFC) Eunice Maia de Andrade. O trabalho é realizado em parceria com a UFC, Escola Agrotécnica Federal de Iguatu (Eafi), Universidade Federal de Campina Grande (PB), Universidade Federal de Viçosa (MG) e Universidade do Arizona (EUA).

A realidade de escassez de recursos hídricos, irregularidade de chuva e a degradação do solo trouxeram preocupação para a professora pesquisadora. “Quero contribuir para evitar o avanço do desgaste ambiental”, disse. “Há uma preocupação mundial sobre a quantidade e a qualidade da água doce”, explicou.

O suporte financeiro da pesquisa vem do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e do Governo do Estado, que custeiam os equipamentos e a bolsa de estudo para pesquisadores e ajudantes. O estudo envolve ainda alunos da Eafi e da UFC. “A nossa idéia é interiorizar a pesquisa científica e tecnológica”, explica Ana Célia.

O trabalho começou em outubro do ano passado e vai prosseguir por mais dois anos. Uma microbacia, com grotas, riacho e vegetação nativa, localizada numa área da própria Eafi, é o objeto de estudo inicial dos pesquisadores.

Objetivos diversos

Nessa unidade, foram instalados equipamentos básicos de medição de precipitação de água, umidade, temperatura, perda de solo e de água pela erosão hídrica e coleta de segmentos. Conforme Ana Célia, a pesquisa tem objetivos diversos, entre eles avaliar a degradação ambiental em microbacias, monitorar a água e o desgaste do solo, observar a capacidade de regeneração da terra e vegetação, em decorrência da variabilidade de clima e da ação do homem, que a cada ano insiste em técnicas antigas e agressivas ao meio, como os desmatamentos e as queimadas. São as conhecidas práticas inadequadas de manejo.

Ao final, a pesquisadora espera definir a capacidade de suporte de água, solo e vegetação em microbacias do semi-árido. “Sabemos por outros estudos e pela observação prática que o sistema é frágil e sofre efeitos da ação humana”, disse. “Devemos elaborar uma cartilha de orientação sobre o manejo adequado para a região”.

Com mestrado, em irrigação e drenagem, e doutorado em engenharia de recursos hídricos, a agrônoma Ana Célia Meireles, não pára de estudar e de trabalhar em pesquisa. Além de ensinar no curso superior de Tecnologia de Irrigação e Drenagem ofertado pela Eafi, encontra tempo para participar de um estudo que tem um nome extenso e esquisito, “Aplicabilidade de sensoriamento remoto como sistema de suporte ao monitoramento de qualidade das águas superficiais do semi-árido cearense”.

Qualidade da água

Isso significa verificar a qualidade da água de açudes e, no caso concreto, o reservatório Orós, que recebe despejo de esgotos de dezenas de cidades localizadas às margens do Rio Jaguaribe e de outros afluentes. “Temos de encontrar tempo para todas essas atividades, mas confesso que está corrido”, confessou.

A pesquisadora e alunos que trabalham no projeto fazem uma avaliação positiva do andamento da pesquisa. “Ainda não dá para apresentar resultados”, explica Ana Célia Meireles. Após concluído, a professora espera poder apresentar, para a comunidade local e científica, sugestões sobre forma de conservação de solo e de água. “É uma experiência em microbacias, mas que depois pode extrapolar para espelhos maiores de água”.

METODOLOGIA
Estudos de campo ocorrem semanalmente

Iguatu. Nesta cidade, a professora Ana Célia Meireles encontrou suporte técnico do laboratório de água, solo e tecido vegetal e de outras instalações da Eafi. O trabalho continua de vento em popa. Alunos e pesquisadores estão toda semanalmente em campo, coletando dados na estação hidrológica e fazendo análises.

A metodologia do trabalho inclui levantamento topográfico da área onde está a microbacia, instalação de calhas e de sensores para medir vazão de água e coletar segmentos diretamente em córrego. Foi implantada uma estação hidrológica automática, que funciona com placa solar, que permite verificação de precipitação pluviométrica, temperatura e umidade do ar e do solo.

“Encontrei na Eafi bons laboratórios e equipamentos”, frisou. “Há alunos do curso superior de Tecnologia de Irrigação e Drenagem dispostos a participar do projeto, pois são jovens desejosos de adquirir conhecimento e gostam do trabalho no campo e no laboratório”. A parceria entre a UFC e a Eafi permite a realização de uma idéia da professora de levar a pesquisa científica para o Interior. “Sempre fui a favor da interiorização desses estudos”, disse. “É uma forma de contribuir com o desenvolvimento das comunidades rurais”.

Ao todo, 11 alunos do curso de Tecnologia de Irrigação e Drenagem participam do projeto. Há três voluntários. Além da pesquisa, outras atividades extras são realizadas, como a medição de descarga sólida e líquida do Rio Jaguaribe na área da ponte de acesso à cidade de Iguatu, realizada pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), do Ministério de Minas e Energia.

O estudante Efraim Martins Araújo, do curso de Tecnologia de Irrigação e Drenagem, está satisfeito em participar do projeto. “É importante para ampliarmos o nosso conhecimento e não ficarmos apenas na teoria”, disse. Para o aluno Júlio César dos Santos, a pesquisa despertar maior interesse. “O grupo está motivado e a gente gosta do trabalho em campo”.

Parceria

Em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), UFC e Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) novos projetos serão realizados. “Estamos sempre em busca de ampliar o número de parceiros”, disse Ana Célia Meireles.

Mais informações:
Escola Agrotécnica Federal de Iguatu (Eafi)
Rodovia CE 060 (km 05, entre Iguatu e Várzea Alegre)
(88) 3582.1000

HONÓRIO BARBOSA
Repórter

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